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A Besta – Musashi em outro recorte!

Um enfoque diferente do mítico Miyamoto Musashi em A Besta

Se você admira e lê mangás do gênero gekiga há um tempo considerável, além de um interesse mínimo na cultura japonesa e seus personagens históricos mais marcantes, pode ter pensado o seguinte sobre A Besta (Shishi): “Mais uma história sobre Musashi?”. Quando se descobre que foi lançada no Japão em 2013, a desconfiança aumenta, pois o que mais havia a abordar sobre o lendário espadachim naquele momento? De qualquer forma, sim, haviam outros caminhos a explorar. Para o bem e para o mal.

Compre clicando na imagemA Besta - Hideki Mori

Publicado há pouco pela NewPop, o mangá é de autoria de Hideki Mori, responsável pela arte da continuação de Lobo Solitário, onde substituiu o falecido Goseki Kojima. Uma credencial de peso para quem conhece esse belo trabalho. Como único autor em A Besta, ele assumiu uma tarefa ousada e ambiciosa. Tanto pela quantidade de obras de ficção a abordar o protagonista quanto o peso da sombra do aclamado Vagabond, de Takehiko Inoue.

De fato, Mori encontrou um momento específico e uma perspectiva interessante  para Miyamoto Musashi (1584-1645) como construto narrativo, mais uma vez ressaltando que o propósito da obra não é a reconstituição histórica exata ou uma narrativa definitiva sobre ele. Disposto a despir esse protagonista da aura de maior samurai de todos os tempos, o autor o apresenta adolescente, quando seu nome ainda era Bennosuke, em meio a conflitos familiares que o levariam a uma vida de renegado.

Os atritos com o pai e uma explícita atração incestuosa por sua irmã, eventos em consequência da ausência da figura materna, vão minando o equilíbrio do jovem até um ponto de ruptura com um misterioso e brutal assassinato nos arredores. Sem preocupações com o próprio asseio pessoal, Bennosuke vai em direção a uma persona que justifica o título nacional da edição, inicialmente defendendo-se com um bastão de madeira.

Muito distante do estrategista que deixou para o mundo o tratado de artes marciais Gorin No Sho, Bennosuke é alguém que oscila perigosamente entre a serenidade e a fúria. Esse comportamento é justificado conforme a história avança e os leitores descobrem mais detalhes sobre seu passado. Tudo isso entremeado com o simbolismo da natureza e do folclore japonês, encaixando-se à trajetória do protagonista. O título original Shishi – quatro vezes quatro – faz referência às dezesseis deidades protetoras, que tem uma relação próxima com o futuro de Musashi.

É certo que Hideki Mori buscou uma desconstrução da figura do samurai, não apenas com seu personagem central, já que outros tipos bem mais perigosos que ele circulam pela narrativa. Evidentemente, isso está bem longe de ser novidade no século XXI, mas é conveniente para o clima amaldiçoado e desolador que permeia a obra. O ápice para alguém naquelas condições é o campo de batalha, onde o conteúdo psicológico deste roteiro entra em ebulição.

O problema, no entanto, é que esse conteúdo mais profundo acaba ofuscado pelo excessivo destaque dado ao conturbado despertar sexual de Bennosuke. Existe uma preocupação do autor em detalhar esses eventos, infelizmente indo um pouco além do que já se espera em mangás e animes. Em todo caso, não é o bastante para estragar o conjunto, já que é valorizado demais pela belíssima arte.

A Besta - Hideki Mori

Graficamente soberbo

Hideki Mori está acima de qualquer suspeita como desenhista e A Besta não é exceção. A leveza do traço solto não compromete o preciosismo dos detalhes, brindando leitores com composições perfeitas e violência que explode para fora das páginas. Partindo de uma crueza conceitual para representar esse turbilhão de sensações conflitantes, as imagens fazem sua parte para potencializar essas emoções, com muito sucesso.

Mori passa a segurança do artista maduro, à vontade para sacrificar aqui e ali uma proporção ou detalhe anatômico mais correto, em nome de uma fluidez de traço e narrativa visual mais apurada. Essa última, no caso, é o que realmente conta para imergir seu público no universo da história. No meio de tantas ofertas do mercado nacional com gekigas com samurais, a edição na NewPop é bem vinda, ainda que seja preciso comentar mais um detalhe pouco agradável.

A Besta é uma história inacabada, cujo caso é comentado em tom de desculpas no posfácio escrito pelo autor. Não cabe aqui reproduzir a situação, mas é conveniente que pessoas interessadas em adquirir o volume saibam disso. Compromete a narrativa? Sim, pois fica a nítida sensação de que havia, pelo menos, mais um capítulo, sem a necessidade de que alguém nos dissesse isso.

Independente disso, é um mangá poderoso, que merece um lugar em qualquer coleção. As ressalvas podem incomodar mais ou menos, dependendo de cada pessoa, mas suas qualidades compensam os problemas.  De alguma forma, o estilo de Hideki Mori encontra um paralelo com a impetuosidade de seu jovem Miyamoto Musashi.

Não é preciso dizer mais nada, não é?

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