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O Homem Que Passeia – O mundo ao seu redor!

O Homem Que Passeia é um convite para a calma e a contemplação

Um tempo atrás, quando eu ainda era professor, houve uma época que eu não tinha todos os horários fechados. Então, no meio das aulas, ao invés de voltar para casa, vez por outra eu fazia um desvio no caminho. Ou, às vezes, ao invés de tomar o metrô ou o ônibus, depende do lugar, eu só andava. Eu gostava de parar ali no mirante atrás do MASP e ficar olhando os carros passarem e ouvindo as conversas das pessoas ao meu redor. Só… Olhando, sabe? Sem nenhum motivo específico. Só desacelerar. Faz muito tempo que eu não faço isso. De lá para cá, parece que as coisas só ficam mais agitadas na rotina e enclausuradas no computador. Mas é o tipo de coisa que a gente não vê acontecer. E só se dá conta quando alguém nos lembra. No meu caso, quem me lembrou foi Jiro Taniguchi, após ler O Homem Que Passeia, publicado pelo selo Tsuru da Devir.

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O que é mais interessante sobre o mangá é que não existe nada ali. Não num sentido pejorativo, mas literal mesmo: É uma história sobre nada. O protagonista não possui nome, e só o que ele faz durante todo o volume é andar e apreciar as pequenas coisas – a beleza nos detalhes, a companhia momentânea, a ausência da urgência e da necessidade. A intenção do autor é clara: Pise no freio. Pare um pouco e aprecie essa obra. Quando terminar, dê um tempo para si mesmo, e perceba as coisas que você ama ao seu redor e que você talvez esteja ignorando há tempo demais.

O Homem Que Passeia é, de muitas formas, a representação perfeita da antítese da vida contemporânea. É a proposição da contemplação não para um fim, mas para a experiência; a exaltação da capacidade que todos nós temos de viver o que é frugal e de nos sentirmos parte disso; a celebração do pequeno, do comum, do ordinário e do cotidiano. É afirmação de que reside nos atos efêmeros do cotidiano uma beleza que é única, e que é bela também porque inevitavelmente nos escapa; para captura-la, precisamos dar a esses atos efêmeros uma atenção que poucas vezes acreditamos sejam dignos dela.

Diz-se muito sobre Taniguchi ser um dos mais “ocidentais” autores do Japão. Isso é verdade. Mas não implica no fato de que ele não nos traga uma perspectiva eminentemente nipônica de filosofia para pensarmos sobre. Sua arte emula, sim, características de linha clara: seus traços são limpos e precisos, e crescem nos detalhes; o autor também não se poupa de criar grandes quadros ricamente ilustrados. Entretanto, é preciso destacar a intenção: Essa riqueza não existe para chocar ou sobrepujar. Ao contrário, Taniguchi decididamente cria quadros imensos, mas de singeleza ímpar, como se, ao virar tal página, o amigo leitor fosse convidado a se debruçar sobre o batente de uma janela aberta e apenas apreciar a vista.

O homem e a natureza

De fato, é uma obra quase sensorial. Se o amigo leitor se permitir imergir na obra – se ele se permitir passear com o protagonista pelas suas páginas, o mangá despertará algumas sensações interessantes. A composição visual do autor não é só precisa e detalhista. Ela é, virtualmente, viva. Com o perdão do excesso de lirismo e abstração, mas é como se as folhas pudessem ser tocadas; como se o vento pudesse ser sentido; como se a companhia fosse real.

E essa, ao menos parece, uma maneira essencialmente japonesa de ver a vida– ao menos do ponto vista de uma proposição cultural e filosófica. O que é curioso, pois, quando pensamos nisso, a insustentável leveza de O Homem Que Passeia se destaca ainda mais. A cultura japonesa de trabalho é uma das mais brutais do mundo. Existem palavras intraduzíveis no idioma local que expressam conceitos exaustão e mesmo óbito relacionados ao excesso de trabalho.

Paradoxalmente, sendo herdeiros da filosofia xintoísta, é uma cultura que ainda atribui o divino à natureza; não no sentido de uma reverência cínica à pedras e árvores, mas um entendimento de que somos indissociavelmente parte do nosso meio ambiente e, estando nossas vidas diretamente ligadas a ela, a natureza precisa e merece atenção. Isso não é estranho para quem conhece alguma coisa sobre as artes japonesas em geral: Qualquer um que já teve a oportunidade assistir qualquer coisa de nomes como Yasujiro Ozu e Kenji Mizoguchi encontrará aqui ecos da contemplação proposta por eles em seus filmes.

Mas, mesmo assim, não é possível dizer que O Homem Que Passeia seja totalmente relacionado porque, fugindo um pouco da tradicional abstração nipônica – e peço desculpas se isso parece uma contradição – não se trata de uma obra melancólica ou teleológica. Reafirmo: É um mangá sobre nada, mas não um nada que oprima ou que precise ser preenchido. Ele vive muito bem por conta própria, e te convida para aprecia-lo.

O homem e o nada

É nisso que a obra se excele: Em toda a sua passividade, tranquilidade e leveza, O Homem Que Passeia é uma declaração categórica e contundente contra o ritmo da vida contemporânea. Ler esse mangá é uma verdadeira armadilha: O leitor desatento, apressado, na expectativa de alguma história instigante que tome o lugar das preocupações e distrações do cotidiano, pode considerar essa obra insuficiente. Maçante, chata mesmo. E eu não culparia alguém assim. De fato, eu diria que é nisso que a obra se realiza.

Pergunte a si mesmo: Quando foi a última vez que você parou? Não de trabalhar ou para sair para alguma farra – entende-se: para preencher o vazio do tempo e da rotina, por um entendimento inato e engendrado na sua consciência de que todo tempo precisa ser preenchido, ou estará sendo desperdiçado? Quando foi a última vez que você foi sua melhor companhia para apreciar as pequenas coisas do dia? É inevitável para qualquer um, como eu, que vive em uma megalópole como São Paulo num ritmo muitas vezes alucinante, não se faça essas perguntas ao término da leitura.

Então sim, O Homem Que Passeia é um mangá maravilhoso. Existem alguns problemas na edição da Devir, mas dane-se. Isso não é importante agora. Minha dica para você é: Agora que você terminou de ler esse texto, esqueça-o. Pelo menos por um instante. Tire um tempo para você. E para o mundo ao seu redor também. Acredite: Ele merece sua atenção.

Só… Pare. Sinta. Viva.

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