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Território Lovecraft – O racismo revisitado no pulp!

Matt Ruff cria um Território Lovecraft palpável ao falar de racismo, mas com terror limitado

Território Lovecraft apresenta uma série de contos sobre os negros em plena década de 50, sofrendo a opressão racial e todo o segregacionismo, onde as vítimas só podem contar com seus iguais. E Matt Ruff consegue, de maneira profunda, causar ojeriza ao leitor cada vez que mostra as limitações que o branco impôs ao diferente durante todo aquele período.

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Resenha de Território Lovecraft

Costumeiramente, à sinopse: Atticus Turner decide voltar para sua cidade natal após receber uma carta de seu pai. Junto com seu tio George e sua amiga de infância Letitia, eles partem para o resgate num lugar onde não apenas o preconceito impera, mas como o mal também espreita.

Lançado pela Editora Intrínseca e com 352 páginas, a sinopse deste livro, é bom que fique claro desde já, é apenas o ponto de partida para oito contos e um epílogo que se amarram entre si, variando em histórias secundárias e a principal. Atticus, apesar de seu protagonismo, está longe de ser a estrela principal em cada uma delas. Letitia, Hippolyta, George, Montrose, Horace e Ruby são os outros personagens que, além do vínculo com Atticus, também encontram o ódio branco e o sobrenatural em suas aventuras.

Para melhor localização do leitor, cito abaixo os respectivos contos e seu adendo:

  • Território Lovecraft
  • A Casa Assombrada Dos Sonhos
  • O Livro de Abdullah
  • Hippolyta Perturba o Universo
  • Jekyll em Hyde Park
  • A Casa Narrow
  • Horace e o Boneco Do Diabo
  • A Marca De Caim
  • Epílogo

E que fique cravado mais uma vez nos autos do Formiga Elétrica, como já citado em A Balada Do Black Tom: H.P. Lovecraft era racista e xenófobo. Seu preconceito era latente em muitos de seus contos, como O Chamado de Cthulhu, Reanimator e no famoso poema abjeto intitulado Sobre a Criação Dos Negros. É preciso muito sangue-frio para separar a importância literária do autor, dos absurdos que ele dizia durante toda a sua vida (1890 – 1937). Essa mistura entre realidade e ficção criada pelo autor é um dos panos de fundo de Território Lovecraft.

Ruff faz um trabalho minucioso na maneira que trata o problema racial que se passa nos meados de 1950. O racismo é institucionalizado não apenas pelos civis, mas pelas autoridades. O negro era visto como objeto a ser diminuído e socialmente segregado, enquanto seus direitos, aos poucos, engatinhavam. Não há exagero algum nos percalços que os protagonistas sofrem nas mãos de seus algozes e nesta normalidade tão abjeta a estranheza reina, mas este é um fato que atinge apenas ao leitor. Tanto o negro quanto o branco das histórias vivenciam naturalmente as camadas nesta subserviência e seus devidos papeis. E de certa maneira, o assustador reside nisto: normatização.

Então, a profundidade toma seu ápice quando Caleb Braithwhite, o antagonista da história, é o único branco que trata pessoas de outras classes sociais e etnias com o devido respeito. Obviamente, ele sendo o vilão, é natural que toda sua educação soe como interesseira. Porém, é muito fácil analisá-lo além disso, as subcamadas que o humanizam. Caleb se encontra num meio-termo interessante. Se por um lado ele está lá para ser odiado pelas suas más intenções, por outro, há simpatia justamente pela sua tolerância.

E o melhor contraponto disto, ou seja, um vilão-homem-branco sendo humanista com negros em plena década de 50 é o núcleo feminino da história, isto é, Letitia, Hippolyta e Ruby serem o verdadeiro prazer da leitura de Território Lovecraft. Matt Ruff capta com perfeição todas as nuances narrativas de cada uma, mantendo-as coesas, interessantes, com profundidade e tornando-as mulheres de seu tempo mas que transgridem justamente por não serem apenas negras, mas mulheres negras. Isso significa que há uma dupla barreira a ser vencida: o preconceito e o machismo. Seja numa casa mal-assombrada, numa ótima metáfora que homenageia a dicotomia de O Médico e o Monstro, ou até mesmo com viagens interplanetárias todas elas têm algo relevante a dizer. Não apenas há todas as benesses já citadas como também são dos contos delas os melhores desfechos.

Por outro lado, há pouco a se dizer sobre o núcleo masculino. Atticus, George e Montrose são apenas a representação de algo raso. Não há camadas, o que se tem é parco e não sai do básico. O terror nos contos destes personagens é mais amarrado às inferências. Já o fantástico aqui abunda, porém sem muito impacto.

Resenha de Território Lovecraft

O autor Matt Ruff

O terror, Lovecraft e o gótico

Note-se que neste texto o termo usado para falar do mal cósmico é “terror” e não horror. O terror assusta eventualmente, porém o horror apavora e ensandece, nos tira da zona de conforto ao mostrar o que não queremos ver e nem sempre estamos preparados para tal de maneira tão indizível que virar os olhos para não ler aquilo torna-se uma opção. E esta característica tão vívida do gênero trabalhado por Lovecraft é simplesmente deixada de fora no livro.

Matt Ruff acerta parcialmente ao dar mais plasticidade a este ponto, abstendo-se do senso de loucura, morte e extremos que era peculiar a H.P. Lovecraft. Se este não tinha medo de ousar no absurdo do ápice ensandecido, em Território Lovecraft existe um conservadorismo frustrante. Pode-se dizer que o autor se embebedou de um terror pulp mais discreto. Porém, como já citado em A Floresta Das Árvores Retorcidas, a violência gráfica nestes universos cósmicos da estranheza são não apenas funcionais, mas indissociáveis. É quase como o que já foi dito na crítica de A Balada do Black Tom quando o gore serve como objeto de catarse, o choque cultural entre brancos e negros funciona bem em qualquer apreciação Lovecraftiniana. A grosso modo é isto: Matt Ruff se porta como um Victor Lavalle de sinal trocado e ainda que haja faltas em determinadas áreas de sua escrita, tem suas vantagens em outras. Os roteirismos discretos também brotam, mas a Suspensão de Descrença pode ser facilmente utilizada justamente por se tratarem de situações mais amenas ou que o sobrenatural explicaria usando uma boa dose de elasticidade mental.

Mesmo assim com estes defeitos, as referências às obras de Lovecraft estão lá. Mundos oníricos, viagens a outros planetas, livros estranhos, fantasmas e seres estranhos indescritíveis.Também há alguns elementos da literatura gótica: ocultismo, demônios, a carga emocional carregada e livros com saberes proibidos. Ruff particulariza o lado prometeico dos personagens com cada um desafiando situações além de seus limites, assim como a noção de solidão diante de um mundo e conflitos internos também acontecem. Seria protocolar se estes não fossem consequência indireta do racismo. Há uma sagacidade evidente neste conceito apresentado pelo autor.

Isto posto, Território Lovecraft é um livro instável no terror, preciso de forma entristecedora no drama humano e falho ao dar pouco desenvolvimento ao universo masculino, contudo provém camadas interessantes às personagens femininas, exaltando as mulheres com um desenvolvimento excelente e histórias que brincam com o imaginário de maneira peculiar. É uma obra bem focada no asco que causa a qualquer leitor com o mínimo de humanismo e empatia, ainda que perca em escopo dos pontos já citados acima.

Matt Ruff proporciona um retrato de uma época que infelizmente prossegue atual e onde os monstros reais somos todos nós.

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