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Anônimo – Uma ode ao Terror literário!

Recheado de referências, Anônimo é um ótimo exemplar do Terror nacional

Desde que a obra de H. P. Lovecraft virou febre, vários escritores tentam emular aquela sensação de estranheza arrepiante, no limiar de uma realidade tênue percebida pelos protagonistas e compartilhada com os leitores. Nem todos conseguem, é claro, mas quando alguém chega próximo disso, mesmo que em um texto super referencial com teor de homenagem, é bastante gratificante. É o caso de Larissa Prado (de Ruído Lunar e Outros Contos Insólitos) com seu Anônimo.

Compre clicando na imagemResenha de Anônimo

(Confira o podcast sobre Terror na Literatura, com a participação da escritora)

Edição publicada pela editora Viseu em 2019, Anônimo é uma colcha de retalhos para qualquer fã do Terror literário deliciar-se. Através da história de um pobre escritor amador de contos de mistério e Terror, padecendo de estranhas visões por toda vida, é como se Larissa dirigisse piscadelas para nós, mostrando que sua obra é “de fã para fã”.

Acompanhamos essa pessoa anti social por toda uma vida solitária, compensada com muita leitura. Mas a influência destes textos parece tudo, menos positiva, criando uma relação bizarra com certas figuras fictícias (ou não) e uma alegoria até irônica sobre o ofício de escrever e processos criativos peculiares.

Em cerca de 130 páginas, essa leitura rápida nos brinda com citações diretas a Robert Chambers, Lovecraft, Arthur Machen, Stephen King, Edgar Allan Poe e alguns mais. Para os que já se sentem bem versados nos ícones do Terror literário, não desprezem essa iniciativa, pois a autora desenvolve muito bem o arco de seu protagonista, além de uma afiada sensibilidade macabra para descrever imagens fortes.

Muito do apelo que essa história exerce vem da relação do personagem principal com os livros, algo que já garante uma boa dose de identificação com uma de suas facetas menos problemáticas. Larissa elabora sua história a partir da intimidade que leitores vorazes criam com suas obras preferidas, mas – evidente – escolhendo trilhar o caminho que lhe é mais caro e familiar. Assim, como nos ambientes de Chambers e Lovecraft, ela conduz seu torturado protagonista por vias perturbadoras e ambíguas.

Anônimo, apesar de ser uma declaração de amor a um gênero específico, tem sua voz própria e recompensa quem se atreve a acompanhar essa jornada insana. Seja você um veterano conhecedor dos elementos agregados por Larissa ou um iniciante, não importa. Aliás, para os recém chegados a esse universo, parece uma excelente porta de entrada e convite para degustar os mestres do oculto e do inominável, pois ela relaciona as referências utilizadas, não apenas do Terror, ao final da edição.

Resenha de Anônimo

Larissa Prado, autora de Anônimo

O didatismo que pesa

Porém, não é possível ignorar que a estrutura referencial criada pela autora é uma faca de dois gumes, já que o desfile de citações diretas apresentadas esbarra no excessivamente didático. Ao leitor mais experiente, pode soar exagerado que autores da vida real e suas histórias sejam citados nominalmente. Um detalhe que pode incomodar menos, ou até agradar, quem ainda está aprimorando seu repertório, mas é inevitável considerar que havia alternativas para aliviar a história deste fardo.

Caso Anônimo tivesse evitado essa exposição durante sua narrativa, páginas no final listando cada elemento de alusão, referência ou citação teriam servido melhor ao propósito da obra no geral. Não apenas no sentido de compartilhar parte de um processo criativo, mas ainda servindo para iniciantes buscarem mais clássicos.

Mesmo assim, apenas um pecadilho em um conjunto que mais acerta do que erra, o que significa que foi bem sucedido. Larissa Prado entrega mais um bom trabalho com Anônimo, cumprindo a função primordial de qualquer obra do Terror. Ou seja, causando aquelas sensações desagradáveis que adoramos sentir ao longo de uma história.

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