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A proto Ficção – Científica na literatura

O início da ficção – científica como gênero consolidado

Atualmente, é extremamente comum nos depararmos com histórias de ficção-científica (FC) e é relativamente fácil defini-las como tal. Com exceção de algumas particularidades, temos muito claro o que pertence e o que não pertence ao campo científico, podendo assim distinguir fantasia e FC de maneira quase automática – eu disse “quase”.

Não existe um consenso sobre qual é a primeira obra de ficção-científica. A maioria considera que Frankenstein, escrito por Mary Shelley e publicado em 1831, seja o primeiro exemplar moderno do gênero, pois a trama se desenrola a partir de um método científico claro – mesmo que ficcional -, que é a reanimação de um corpo morto a partir de descargas elétricas, procedimento inspirado nas experiências de Luigi Galvani (1737-1798), que consistiam em gerar eletricidade pelas ações químicas ou pelo contato de dois metais diferentes com um líquido interposto. Mas mesmo que a FC tenha ganhado uma característica própria mais forte somente no século XIX, muitas obras anteriores já flertavam com alguns elementos que, atualmente, são comuns no gênero. A essas obras, podemos atribuir a classificação de proto ficção – científica.

Frankenstein de Mary Shelley é considerado o primeiro romance moderno de ficção - científica

Frankenstein de Mary Shelley é considerado o primeiro romance moderno de ficção – científica

 

A Sociedade Alternativa nas proto ficções-científicas

Um tema recorrente da FC é a imaginação de uma nova organização da sociedade, seja para o bem ou para o mal. Vemos isso em livros mais antigos como Admirável Mundo Novo e até em séries audiovisuais como O Prisioneiro (se não sabe o que é, assista nosso vídeo) ou mais recentes como a brasileira 3%. Porém, esse tipo de ensaio já foi realizado há mais de dois mil anos com A República de Platão em 380 a.C..

Em A República, temos um diálogo narrado em primeira pessoa por Sócrates, em que o tema principal é justiça. Durante o texto, é imaginada uma república instaurada na cidade de Calípole, que significa “cidade bela”. Platão, em sua argumentação dialética, coloca argumento e contra-argumento para alcançar uma verdade a respeito do assunto tratado. Esse ensaio sobre uma sociedade plenamente funcional e justa tem seus ecos em obras posteriores, que tentam imaginar como seria este local utópico.

Avançando até o século XVI, temos um dos livros mais famosos da história, que é Utopia de Thomas More, de 1516. Inspirado por Platão, More descreve em sua obra uma sociedade perfeita que é visitada por Rafael Hitlodeu, um inglês comum que convivia com os problemas de uma cidade grande. Em sua viagem à República de Utopia, o protagonista se depara com um povo tolerante, pacífico e feliz. Diferente do cenário britânico da época. O nome Utopia, vem do grego “U”, um advérbio de negação, e “Topos”, que significa lugar. Logo, Utopia seria o “não-lugar”, o lugar inexistente, um título que dá uma carga irônica um tanto quanto dramática para a obra.

Platão (428 a.C. - 348 a.C.) e Thomas More (1478 - 1535) - Figuras importantes na formação da ficção - científica

Platão (428 a.C. – 348 a.C.) e Thomas More (1478 – 1535)

O quão pequeno é o homem perante a vastidão do Universo

No início do século XVII, o telescópio foi inventado. Com ele, o homem pode vislumbrar com mais e mais detalhes a imensidão do cosmo. Desde satélites em Júpiter e as machas solares até a natureza da Via Láctea com sua concentração incontável de estrelas, o telescópio aposentou de vez instrumentos da antiguidade como astrolábios, quadrantes e sextantes. Esse novo olhar para o universo e a nova fase da astronomia deixariam sua marca na ficção.

Em 1608, o astrônomo Johannes Kepler escreve Somnium (do latim, “Sonho”), narrativa que só seria publicada em 1638 por Ludwig Kepler, filho de Johannes. Na obra, acompanhamos um garoto e sua mãe feiticeira que aprendem sobre uma ilha chamada Levania, que seria a nossa Lua, com um demônio. Esta entidade, por sua vez, fala de maneira científica como é viver no ambiente lunar, descrevendo a diferente percepção no tamanho dos outros planetas e suas trajetórias a partir de outra perspectiva. Tal descrição apurada fez com que Somnium fosse reconhecido por Carl Sagan (astrônomo que também se aventurou na ficção com Contato) e Isaac Asimov (O Cair da Noite, O Fim da Eternidade, As Cavernas de Aço) como o primeiro trabalho de ficção-científica.

Já em 1620, o sonho do homem ir à Lua é realizado no mundo ficcional com a obra do bispo Francis Godwin, intitulada O Homem na Lua. A narrativa, escrita em primeira pessoa, acompanha o personagem Domingo Gonsales, que viaja pelo mundo com um construto voador com gansos capazes de suportar um peso elevado. Em determinado momento, Gonsales percebe que consegue subir tão alto que decide ir até a Lua, onde encontra novas formas de vida e interage com elas.

É claro que o modo como o protagonista chega na Lua é pura fantasia, mas todo o entorno do livro trata sobre vida fora da Terra, mesmo tendo um contexto bem próprio com relação ao conflito entre católicos e protestantes da época. Ainda assim essa ideia de seres extraterrenos começou a fomentar as discussões a respeito da possível pluraridade de vida inteligente fora da Terra. Lembrando que no século seguinte tivemos o Iluminismo liderado pela elite intelectual europeia, que iniciou o modo mais racional de se pensar.

Indo para o século XVIII, mais precisamente em 1752, temos Micrômegas, uma obra muito marcante do filósofo iluminista francês François Marie Arouet, mais conhecido como Voltaire. O livro aborda, entre outras coisas, a questão de quão pequeno é o ser humano perante a vida e o Universo, além de falar também sobre vida fora da Terra. A narrativa segue um gigante que vivia em Sirius e que decide vagar pelo cosmo, aventura esta que o faz chegar ao sistema solar, onde passa por Saturno – onde encontra outro gigante – e chega finalmente na Terra, onde é recepcionado por uma baleia – Star Trek IV?!. Assim que encontra um ser humano, o gigante passa a discutir filosofia com ele, evidenciando os pontos de vista totalmente diferentes das duas raças.

Livro O Homem na Lua, de Francis Godwin, publicado em 1638. Podemos notar a ilustração que mostra o construto utilizado pelo protagonista para ir até a Lua.. Mais um componente dos primórdios da ficção - científica

Livro O Homem na Lua, de Francis Godwin, publicado em 1638. Podemos notar a ilustração que mostra o construto utilizado pelo protagonista para ir até a Lua.

 

A consolidação do gênero ficção – científica e alguns autores

Foi a partir do século XIX que a ficção-científica começou a se afastar de vez de seu amálgama com a fantasia com autores como Júlio Verne (20.000 Léguas Submarinas) e H. G. Wells (A Máquina do Tempo), que construíam suas narrativas a partir de construtos e elementos advindos da natureza, deixando o sobrenatural de lado. É possível até mesmo fazer uma analogia a essa transição dentro da própria obra 20.000 Léguas Submarinas de Verne, onde, no início, tínhamos uma expedição que estava à procura de um monstro marinho, que na verdade se revelou o submarino Nautilus, comandado pelo excêntrico Capitão Nemo. Do monstro à máquina. Da superstição à análise. Da fantasia à ciência.

Desde então, tivemos autores como John W. Campbell (autor do conto que inspirou O Enigma de Outro Mundo), Isaac Asimov (saiba mais ouvindo nosso podcast), Arthur C. Clarke (O Fim da Infância, As Fontes do Paraíso), Ray Bradbury (As Crônicas Marcianas, Fahrenheit 451), Philip K. Dick (Um Reflexo na Escuridão, Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas?), entre outros grandes nomes do gênero que devem, e muito, aos antigos por terem criado uma pequena fresta em uma parede sólida. Fresta essa que se tornou um enorme buraco por onde esses grandes autores alcançaram a luz, que os tornou capazes de entregar obras que perturbam, no melhor sentido da palavra, as mentes mais inquietas.

Poster ilustrado de 20.000 Léguas Submarinas, obra de Júlio Verne que abriu as portas da moderna ficção - científica

Poster ilustrado de 20.000 Léguas Submarinas, obra de Júlio Verne

 

Por se tratar essencialmente do ser humano e não necessariamente sobre futuro ou tecnologia, a ficção – científica já era utilizada de certa forma muito antes do estabelecimento do gênero. De Platão à Voltaire, muitos pensadores de diferentes épocas pincelaram em suas narrativas elementos que, posteriormente, seriam naturalmente associados ao sci-fi. Eles podem não ter escrito sobre máquinas para viajar no espaço sideral ou sobre uma sociedade com clones capazes de prover órgãos saudáveis para suas réplicas, mas já colocavam em pauta boa parte das discussões resultantes de tudo isso e fundamentaram os alicerces que iriam sustentar esse exuberante cenário e suas inúmeras possibilidades.

A ficção – científica é um gênero que afeta cada indivíduo de forma diferente. Existem aqueles que gostam de imaginar o futuro e se deliciam com as previsões de suas obras favoritas. Existem aqueles outros que querem ter uma visão positiva da vida através do potencial humano. Outros ainda tem um prazer masoquista de refletir sobre como o homo sapiens é insignificante pela perspectiva cósmica. Independente de qual grupo, ou grupos, você faça parte, é seguro afirmar que a FC é uma ótima ferramenta para a construção de uma discussão filosófica e conceitual sobre a natureza do próprio ser humano.

Já leu nosso artigo sobre 5 contos de Isaac Asimov sem robôs?

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  • Alexander Meireles da Silva

    Parabéns pelo texto Gustavo. Alguns críticos colocam que essas obras da Proto-FC são apenas uma tentativa de se encontrar antepassados nobres para esta vertente do Fantástico, mas é fato que elas lançam questionamentos sobre os mesmos temas que a FC de fato irá abraçar e devem ser divulgadas. Gostaria de mencionar também no campo da Proto-FC os trabalhos HISTÓRIA VERDADEIRA, do Luciana de Samosata; e a quarta viagem de Gulliver na Ilha de Laputa no VIAGENS DE GULLIVER, de Jonathan Swift. Apenas uma correção: a primeira publicação de FRANKENSTEIN é de 1818, publicada ainda de forma anonima. Houve outra edição em dois volumes em 1822 e finalmente a edição “popular” de 1831, que lemos hoje após a revisão da autora e que é a mais publicada hoje quando por vezes não se publicam a versão original de Shelley. Obrigado pelo texto e sucesso!!

    • Valeu pelo comentário e pelos apontamentos Alexander! Sobre a data do Frankenstein, você tem completa razão. Eu até mencionei isso em um programa da Play TV que participei falando sobre o gênero, segue link (https://www.youtube.com/watch?v=QU9k_P9rII4), mas para evitar confusões, acabo sempre falando a data da versão mais popular.

      Fico feliz de ter encontrado mais um fã do gênero e com conhecimentos aprofundados. Hoje em dia, isso é raro. Parabéns, Alexander! Continue acompanhando o site e deixando comentários, críticas e sugestões 😉

      Um abraço!