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Terror na literatura – Um resumo sobre sua evolução

Antes de de falar diretamente sobre o terror na literatura, são necessárias algumas considerações. O gênero terror é, ao mesmo tempo, amado e odiado. Em meio a diversas obras tenebrosas, no sentido pejorativo, temos algumas que se destacam por sua enorme qualidade, inventividade e contundência. Pensando que o medo é algo inerente ao ser humano, até em termos evolutivos, falar sobre esse gênero e suas transformações de acordo com o momento sociocultural, é também estudar a condição humana.

Em termos físicos, o terror é o gênero que causa as reações mais intensas em nosso corpo. Em situações extremas, nosso cérebro libera a dopamina, um neurotransmissor que em algumas pessoas pode agir de forma a gerar uma sensação prazerosa e em outras uma sensação bem desagradável. Isso é uma das coisas que explica como há aqueles que adoram esportes radicais e aqueles que não, por exemplo.

Muito antes dos clássicos modernos do gênero, o terror chegava à civilização por meio de suas crenças. O mundo e a natureza eram explicados através da religião e dos mitos, em que seu teor tenebroso era usado como forma de doutrinação. Em algumas religiões, como a hebraica-cristã, o conceito de inferno é um lugar horrível que seria o destino pós-morte daqueles que são pecadores, estimulando as pessoas a seguirem à risca as regras da Igreja. Em outras, como a nórdica, existe a ideia de que, após a morte, o guerreiro levaria consigo tudo aquilo que conseguisse juntar em vida, fomentando assim os saques e a invasão de outros territórios. Nesses casos, o conceito não era empregado em uma ficção de entretenimento, mas era realmente como o mundo funcionava para quem vivia sob determinadas crenças.

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Pintura representativa do Iluminismo de Louis Boizot e Jean-Baptiste Chapuy (1795). Na imagem, a Liberdade, munida com o cetro da razão, lança raios sobre a Ignorância e o Fanatismo.

A partir do século XVIII, o pensamento racional ganhou força com o Iluminismo, liderado pela elite intelectual europeia. A partir daí, o mundo passa a ser explicado por métodos racionais. O avanço de diversas áreas da ciência possibilitou que o homem conseguisse compreender o funcionamento da natureza e conseguir manipulá-la a seu favor, originando a Revolução Industrial. Com o avanço tecnológico desta época, o ser humano passou a depender cada vez menos das variáveis naturais.  Foi nesse século que surgiram as primeiras obras da literatura gótica, onde são apresentados os primeiros elementos sobrenaturais como fantasmas. Antes, não havia o conceito de sobrenatural, pois qualquer coisa que fugisse do comum era creditado à vontade divina. Neste momento, a natureza tinha suas regras definidas, portanto, qualquer coisa que fugisse da causalidade natural seria considerado sobrenatural.

O Castelo de Otranto (The Castle of Otranto) de Horace Walpole foi escrito em 1764 e é considerado o primeiro romance gótico. Com visões fantasmagóricas, fatos inexplicáveis, paixões e intrigas, os elementos dessa obra iniciaram o caminho pelo qual este estilo de literatura seguiria, servindo até mesmo de influência para Edgar Allan Poe e Bram Stoker, entre outros autores importantes.

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Ilustração de O Catelo de Otranto

No século XIX, a ciência e a psicologia começaram a ter uma importância muito maior nos enredos do gênero. Em Frankenstein de Mary Shelley, escrito originalmente em 1818, temos a clara influência da ciência, pois o monstro criado por Victor Frankenstein ganha vida por um método científico, mesmo que não verdadeiro. Isso fez o romance ser considerado como o primeiro exemplo moderno de ficção-científica. No caso, Mary Shelley se inspirou nas experiências de Luigi Galvani, que consistiam em aplicar uma carga elétrica em corpos já mortos, fazendo com que seus músculos se contraíssem. Mesmo que a eletricidade não traga os mortos de volta à vida, é fácil imaginar a grande fascinação das pessoas na época e como isso pôde influenciar suas criações.

Outra obra marcante do século XIX foi O Médico e o Monstro (Dr. Jekyll and Mr. Hyde) de Robert Louis Stevenson, publicado em 1886. A história utiliza elementos psicológicos soturnos que formam o cerne de seu terror. Nela, o Dr. Jekyll inventa uma poção que permite que seu lado mais reprimido seja aflorado na persona de Mr. Hyde. Muitos dos conceitos apresentados precedem ideias que foram, posteriormente, formuladas por Sigmund Freud e Carl G. Jung. Saiba mais sobre este importante livro assistindo nosso vídeo.

Drácula, de Bram Stoker, (1847-1912) foi publicado em 1897 e elevou muitos aspectos da literatura gótica. Além de popularizar a figura do vampiro, ele também estabeleceu diversos elementos e regras que foram, e ainda são, utilizados à exaustão em obras posteriores sobre os seres noturnos. Sua estrutura narrativa, composta por fragmentos dos diários dos personagens, mesmo que não incomum à época, ainda assim traz a questão do terror mais implícito e a partir de relatos enviesados, deixando o leitor sempre na penumbra dos acontecimentos, sem conseguir ter a real clareza dos fatos.

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Mary Shelley (1797-1851), Robert Louis Stevenson (1850-1894) e Bram Stoker (1847-1912)


O século XIX também foi a época de vida de Edgar Allan Poe (1809-1849), importante poeta e romancista que produziu diversas obras influentes até hoje para o gênero terror, mistério e policial. Suas histórias são base para inúmeras adaptações cinematográficas, mas mesmo que algumas tenham qualidade, o estilo que Poe imprimiu na narrativa é único e inadaptável – até o momento, pelo menos. A característica de sua escrita foi tão marcante e transgressora para a época que até lhe rendeu conflitos instigantes com demais escritores, fato que é muito bem explorado no suspense biográfico Vou lhe mostrar o medo, de Nikolaj Frobenius.

No final desse século, temos um autor muito importante que foi Ambrose Bierce (1842-1914). Dois de seus contos mais influentes são Um Habitante de Carcosa (1886) e Casa das Máquinas (1899) – ambos publicados na compilação Sombras de Carcosa – Contos de Terror Cósmico. No primeiro, temos uma nova concepção de local sombrio que não é necessariamente o inferno, mas um lugar desolado e nebuloso, onde a falta de explicação e racionalidade formam o clima incômodo da narrativa. Em Casa das Máquinas, Bierce já estabelece a conturbada relação entre criador e criatura, muito usada em obras de ficção-científica mais modernas, a partir de um autômato jogador de xadrez que enfrenta seu mestre. O teor implícito da obra de Bierce traz uma inquietude muito forte, de modo que mesmo após fechar o livro, o leitor ainda fica um bom tempo refletindo sobre o que exatamente o deixou tenso, sem nunca chegar a uma resposta concreta.

Contemporâneo de Bierce, Robert W. Chambers lança, em 1895, O Rei de Amarelo, obra que foi influência para diversos autores como Howard Philips Lovecraft – relação um tanto contestada, apesar das similaridades –  e Stephen King (para quem leu a série A Torre Negra, vai se lembrar do Rei Rubro). Nela, temos uma peça cujo segundo ato deixa todos que leem insanos – se lembrou de À Beira da Loucura de John Carpenter? O importante aqui é como temos o início da questão da existência de elementos que estão muito além da capacidade mental humana, de modo que um pequeno vislumbre já é o suficiente para perturbar o cérebro de maneira irreparável.

Como você já deve ter percebido, as obras de Bierce e Chambers são extremamente influentes em diversas áreas da cultura como quadrinhos, cinema, games e séries – a primeira temporada de True Detective é um dos exemplos mais diretos disso.

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Edgar Allan Poe (1809-1849), Ambrose Bierce (1842-1914), Roberr W. Chambers (1865-1933)

No início do século XX, Lovecraft traz um novo conceito para o terror que é o horror cósmico. No caso, seus monstros são seres pluridimensionais, que fogem de qualquer capacidade de compreensão do ser humano. Diferente de obras mais explícitas e diretas, os contos de Lovecraft trafegam muito mais no estilo de investigação, onde a insanidade do protagonista aumenta de acordo com o quão imerso no mistério ele está. Além de suas histórias, o autor também foi um grande estudioso do gênero, algo que podemos conferir em seu recomendado ensaio O Horror Sobrenatural na Literatura. Saiba mais sobre o autor em nosso artigo H. P. Lovecraft: O Horror em suas cores mais macabras.

Na segunda metade do século XX, o elemento dramático ganha bastante espaço no gênero. Em O Exorcista (The Exorcist) de William Peter Blatty, publicado em 1971, o foco é o drama da personagem Chris McNeil, cuja filha é supostamente possuída por um demônio, e nos conflitos internos do padre Damien Karras. A possessão em si não é o cerne da obra, mas sim os dilemas pessoais de seus personagens. Foi graças a esse viés que o livro tornou-se tão importante e deu origem à sua adaptação homônima, que foi o único filme de terror a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme – confira nosso vídeo sobre O Exorcista de William Friedkin.

Também seguindo por uma linha mais focada no drama de seus personagens, temos o escritor vivo mais famoso do gênero, Stephen King. Por mais fantasiosas que sejam algumas de suas histórias, todo o cerne das narrativas é focada no dilemas e conflitos pessoais e morais das pessoas em sua prosa. Por mais efetivo que seja na concepção das criaturas, o terror é passado principalmente por meio da empatia gerada, tornando o elemento soturno muito mais influente na mente do leitor. – já leu nossa análise de Jogo Perigoso?

Esse estilo que constrói o terror através do drama dos personagens toma mais forma no século XX pois é uma época em que as pessoas são mais informadas e incrédulas, de modo que apresentar um elemento sobrenatural de cara acaba não sendo efetivo. Através do desenvolvimento dos personagens, o conceito aterrorizante passa a ser um fator de dramaticidade, tendo assim um poder simbólico e de abstracionismo muito maior, conseguindo atingir até o público mais cético.

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H. P. Lovecraft (1890-1937) – William Peter Blatty – Stephen King

O terror sempre foi um gênero alvo de preconceitos, mas é inegável a influência na cultura em geral. Muitas obras e diversos autores são extremamente importantes para a literatura, pois trouxeram novos estilos e conceitos que desafiaram por muitas vezes os modos convencionais de escrita e pensamento. Explorar elementos sombrios, extrapolando os limites da imaginação e compreensão do homem, é a melhor forma de analisar o próprio ser humano e seu lado mais obscuro. Por essa razão, as histórias mais contundentes têm o poder intrínseco de nos perturbar. Nem todos gostam dessa perturbação. Existem espelhos mais reais que os de vidro, que refletem coisas que vão muito além da carne.

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