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As Crônicas Marcianas – Quando o nômade encontra o abismo

O homem diante de si mesmo em As Crônicas Marcianas

Dentro do imenso catálogo de histórias de ficção-científica, temos um tema recorrente que é a propagação do homem pelo cosmos. Impulsionado muitas vezes por uma vontade inerente de descobrir e conquistar o desconhecido, o cerne de grande parte dessas histórias demonstra um caráter edificante e otimista. Outras, abordam os perigos físicos dessa exploração. Em As Crônicas Marcianas, Ray Bradbury coloca o ser humano diante do abismo de sua própria natureza.

As Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury: Edição do selo Biblioteca Azul da Editora Globo.

As Crônicas Marcianas de Ray Bradbury: Edição do selo Biblioteca Azul da Editora Globo.

As Crônicas Marcianas (The Martian Chronicles) é uma compilação de 26 contos escritos por Ray Bradbury e publicada em 1950, que narram a epopéia humana de tentar colonizar o planeta Marte. Diferente de A Cidade Inteira Dorme e Outros Contos, onde o autor reúne histórias independentes uma da outra, aqui os contos fazem parte do mesmo enredo, separados apenas por períodos de tempo, que vão de janeiro de 1999 até outubro de 2026.

O ser humano sempre buscou expandir suas fronteiras. Não importava se o terreno fosse frio ou quente, úmido ou árido, aberto ou fechado. Depois de explorar toda a superfície do planeta Terra, restou ao homem desbravar as profundezas dos oceanos e além de nossa atmosfera.

Quando falamos de histórias de ficção-científica sobre exploração espacial, podemos dividir a maior parte das narrativas em dois grupos. O otimista e o pessimista. No caso do conjunto otimista, as histórias mostram o processo de evolução tecnológica e social do ser humano para que sua expansão seja possível. No caso do conjunto pessimista, temos uma abordagem muito mais hostil, colocando criaturas e/ou condições ambientais extremas que impedem a progressão humana pelo espaço.

No caso de As Crônicas Marcianas, inseri-los em qualquer um dos grupos seria uma tarefa não somente árdua como também infundada. Longe de qualquer tipo de apego com a ciência real (mesmo considerando a época em que foi escrito), o livro usa Marte para isolar o homem de seu lar e de tudo que lhe é familiar, restando apenas a si mesmo como âncora da consciência e racionalidade.

Quando o nômade encontra o abismo

A narrativa flui ao longo dos anos mostrando diversas expedições ao planeta vermelho, que vão se tornando cada vez mais intensas com o passar dos anos. Já nos primeiros contos, percebemos que Bradbury coloca o ser humano como uma figura insegura. Por mais que fosse necessário um alto nível de coragem para iniciar a empreitada, ainda assim, os personagens precisam de algo familiar em seu entorno, nem que este familiar seja falacioso, como o nome de uma cidade ou até mesmo a construção de robôs que emulam emoção.

Mas é claro que esses alicerces fluidos não conseguiriam se sustentar por muito tempo. Dessa forma, o início das expedições sempre possuem um caráter mais romântico e próspero. Entretanto, com o passar do tempo, o romantismo dá lugar à melancolia e a prosperidade à entropia.

As Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury: Edição do selo Biblioteca Azul da Editora Globo.

Ray Douglas Bradbury nasceu em Illinois, Estados Unidos, em agosto de 1920 e morreu em junho de 2012.

É claro que cada leitor se impressionará de maneira diferente em cada conto – alguns notavelmente mais fracos que outros. No caso deste que vos escreve, o conceito mais incisivo é a questão de como a natureza humana é frágil e sua autoconsciência é falha. Assim como um nômade, o homem em As Crônicas Marcianas é como um indivíduo sem lar. Mesmo que a Terra possa ser vista no horizonte, ainda assim é apenas um ponto luminoso na imensidão escura do universo.

Dentro desse cenário que antes era enaltecedor, agora o homem se vê sozinho em um palco sem roteiro para seguir, sem objetos de cena para interagir, sem público para acompanhar e sem coxia para se esconder. Só há um único holofote iluminando a criatura solitária, cuja única companhia é o abismo de sua própria consciência.

O receio de Bradbury sobre o futuro cultural e a ligação com Fahrenheit 451

Bradbury sempre foi apaixonado pela literatura. Além de sua enorme bagagem literária, o autor sempre faz questão de inserir em suas obras diversas referências, diretas ou indiretas, a esta forma de arte e seus autores preferidos. Seu livro posterior, Fahrenheit 451, publicado em 1953, é uma prova disso. Mas já em As Crônicas Marcianas, Bradbury deixa claro seu receio com relação ao futuro cultural do homem.

Lembrando que nessa época a televisão estava se tornando a nova febre entre as famílias norte-americanas, deixando o autor apreensivo ao notar que os livros estavam sendo trocados pelos programas audiovisuais. No caso, em um dos melhores contos desta coletânea, denominado Usher II – referência direta ao conto A Queda da Casa de Usher de Edgar Allan Poe (sobre Poe, leia também a resenha de Vou lhe Mostrar o Medo)  – temos a informação de que os livros de ficção foram banidos com o pretexto de serem escapistas e que o homem deveria pensar de maneira mais imediatista.

Com isso em mente, é totalmente plausível conjecturar que As Crônicas Marcianas e Fahrenheit 451 fazem parte do mesmo universo ficcional de Bradbury. Não somente pela questão do banimento dos livros, como também por um acontecimento no terço final de ambas as histórias.

As Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury: Edição do selo Biblioteca Azul da Editora Globo.

Arte conceitual de As Crônicas Marcianas

As Crônicas Marcianas é uma obra densa e sombria que mostra o ser humano em total isolamento. A Terra como um longínquo ponto brilhante no horizonte é aquela pequena luz que traz esperança em meio às trevas, mas no limite tênue com o desespero. De forma nenhuma Bradbury desencoraja a exploração espacial. Ele não estava tentando dizer que o homem não deve ir à Marte ou qualquer outro ponto desconhecido. Ele só isolou o ser humano. Decantou-o. Separou-o de seu ambiente para realizar um ensaio ficcional. Dramaturgicamente, Bradbury foi bem sucedido. Não se pode dizer o mesmo sobre o espécime em estudo.

“Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”

Friedrich Nietzsche – Além do Bem e do Mal

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