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Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? – Conceito Vs Conceito!

Até que ponto conseguimos definir o que é real ou não? Será que o contraste entre o natural e o artificial é tão forte como pensamos? Ou será que todos esses conceitos são mais fluidos do que aparentam e seus limites são apenas linhas tênues que, por ventura, podem deixar de existir?  Tais questionamentos sempre estiveram presentes nas obras de Philip K. Dick (como bem visto na compilação de contos Realidades Adaptadas), e em Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (Do Androids Dream of Electric Sheep?), o natural e o artificial se mesclam em um amálgama que acaba com qualquer linha divisória definível.

Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas

Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas?

Publicado originalmente em 1968, Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? conta a história de Rick Deckard, um caçador de recompensas que precisa de dinheiro para adquirir um animal de estimação de verdade, substituindo sua ovelha elétrica, algo que elevaria seu status perante a sociedade. A tão esperada oportunidade surge quando Deckard aceita o trabalho de perseguir e ”aposentar“ seis androides fugitivos.

No livro, houve uma guerra atômica que devastou a Terra, deixando o planeta coberto por uma poeira radioativa que dizimou inúmeras espécies da fauna e flora terrestre. Com a maior parte da população emigrada para as colônias interplanetárias, a Terra se tornou um local decadente e sujo, lar de uma sociedade sem esperanças e nem pensamentos além de seu próprio tempo presente.

Ridley Scott, diretor da adaptação cinematográfica Blade Runner, ao lado de Philip K. Dick

Ridley Scott, diretor da adaptação cinematográfica Blade Runner, ao lado de Philip K. Dick!

Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? trata essencialmente sobre artificialidade. Isso se prova logo no início, quando a mulher de Deckard utiliza uma máquina geradora de emoções, permitindo que a pessoa escolha a quantidade de determinada emoção que deseja sentir naquele momento. Nesse sentido, fica clara a artificialidade dos sentimentos humanos, mas os próprios sentimentos também não são frutos de nosso meio e definidos por ele? Um exemplo disso são as muitas culturas que reagem à morte de alguém com felicidade e celebração, enquanto outras se comportam de maneira oposta na mesma situação. Nesse caso, os sentimentos são definidos pela cultura em que o indivíduo está inserido e não inerentes ao ser. O quanto disso, de alguma forma, também não é artificial e fabricado?

 Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?

Imagem conceitual do mundo criado por Philip. K. Dick!

Outro ponto importante é a questão ética e moral dentro da trama. Deckard tem a missão de ”aposentar “ – um eufemismo para destruir ou matar, dependendo de como o leitor interpreta a obra – os androides, mas conforme avança em suas ações, o caçador de recompensas começa a se questionar e ser questionado sobre a moralidade de suas atitudes. Afinal, de uma forma ou de outra, os androides possuem vontade e sentimentos próprios. Tirando o prazo de validade definido e o modo de concepção, como diferencia-los do próprio Deckard?

Alguns modelos mais novos destes seres artificiais recebem, inclusive, uma memória implantada que os faz pensar que são humanos. Por mais que sejam falsas, até onde isso os difere de seres humanos no tempo presente da história, a ponto de serem julgados como meros objetos descartáveis? Afinal, as pessoas também têm seu grau de artificialidade.

 Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?

Sean Young no papel da replicante Rachael, uma androide com memórias falsas!

Sendo assim, a obra também flerta com os conceitos de realidade individual e coletiva. Até onde a memória pode ser engolida pelo consenso geral, fazendo com que não signifique mais nada para o indivíduo, mesmo que tenha sido responsável por defini-lo? Seria a própria realidade uma escolha puramente consensual? O cérebro humano é capaz apenas de detectar uma parte mínima do espectro eletromagnético. O modo como o ser humano percebe o mundo é falso. De que forma esta percepção não nos torna cegos para a visão do todo que compõe o que chamamos de real?

Nossa percepção do espectro eletromagnético é mínima.

Nossa percepção do espectro eletromagnético é mínima!

Dentro de várias passagens da obra, notamos esses questionamentos sobre até onde o artificial se difere do natural e até onde este não seria uma evolução da naturalidade, de modo que no futuro – ou no presente, dependendo da interpretação do leitor – tudo seria artificial, inclusive as pessoas, mesmo que não tenham conhecimento disso.

Mesmo com esse imenso leque de discussão sobre artificialidade e separação daquilo que é ou não real, Philip K. Dick repete os mesmo problemas de ritmo de outros de seus romances (como comentado na análise de Fluam, Minhas Lágrimas, Disse o Policial). As partes mais filosóficas se intercalam com longas – e até cansativas – passagens de perseguição e subtramas que não fazem muita diferença para a obra como um todo. Uma comprovação de que a narrativa do autor funciona muito melhor em contos do que romances. Isso de nenhuma forma diminui o grau conceitual e a importância da história, mas atrapalha um pouco a fluidez da leitura.

 Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?

A adaptação cinematográfica é muito diferente do texto original, mas possui outros questionamentos que o tornam tão contundente quanto!

Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? aborda questões filosóficas e questiona a maneira corriqueira que percebemos determinados conceitos. Perguntas sobre o que define o ser humano, realidade e artificialidade relativa permeiam toda a obra e provam que Philip K. Dick falava de um mundo imaginário, muito mais parecido com o nosso do que realmente enxergamos… Ou gostaríamos de enxergar.

(Ouça nosso podcast sobre os contos de Realidades Adaptadas!)

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