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O Vampiro – 200 anos de trevas, sangue e literatura!

O Vampiro lançou as bases que caracterizam o monstro na modernidade

Se 2018 foi o ano do bicentenário do romance Frankenstein, ou o Prometeu Moderno (1818), da inglesa Mary Shelley este ano de 2019 traz outra efeméride que deve ser destacada: Os 200 anos do conto O Vampiro (The Vampyre / 1819), do inglês John William Polidori, conto este que introduz o vampiro no território da prosa, vindo a influenciar de forma profunda toda a literatura vampírica a partir de então.

A proximidade de publicação com a obra Frankenstein não é mera coincidência. De fato, a criatura de Frankenstein, nascida a partir de pedaços de cadáveres, e o vampiro sedutor e amoral Lord Ruthven tem sua gênese conjunta na mesma noite de 16 de junho de 1816, em uma das noites mais bizarras da História da Literatura universal.

o vampiro

Mary Shelley, então ainda atendendo pelo nome de solteira de Mary Wollstonecraft Godwin, e John William Polidori se conheceram quando ela e seu companheiro, o poeta inglês Percy Bysshe Shelley, acompanhados de Claire Clairmont, a meia-irmã de Mary, decidiram visitar o também poeta George Gordon Byron na casa de campo alugada por ele na Villa Diodati, nas margens do Lago Genebra, Suíça. Acompanhando Lorde Byron estava o seu médico particular John William Polidori, responsável também por registrar as viagens de Byron atendendo ao pedido de um editor da época.

Impedidos de sair de casa por causa do mal tempo na noite de 16 de junho o grupo decidiu aproveitar a ideia presente em um livro alemão de contos de fantasmas que estavam lendo para criarem, cada um, sua própria história de horror. Percy Bysshe Shelley e Lord Byron, todavia, não se aprofundaram no desafio, resultando de cada um respectivamente o poema Um fragmento de um conto de fantasma e o conto incompleto Um fragmento de um romance (1819). Mary Shelley, por outro lado, se manteve firme na tarefa, o que resultaria nove meses depois no romance Frankenstein. Mas, e quanto a Polidori?

Aproveitando a ideia de Byron em Um fragmento de um romance sobre um misterioso homem – Augustus Darvell – que viaja até a Turquia e lá morre misteriosamente deixando o narrador perplexo com a rápida decomposição do corpo, John William Polidori escreveu o seu conto colocando nele muito do seu relacionamento com Lord Byron e da sua percepção sobre a personalidade monstruosa do poeta.

O Conto

O Vampiro traz como protagonista Aubrey, um jovem e integro órfão de posses cuja entrada na sociedade inglesa por meio das recepções sociais o leva a ter contato com a enigmática personalidade de Lorde Ruthven. Observando atentamente este estranho, Aubrey percebe como Ruthven fascina a todas as pessoas ao seu redor com sua presença ao mesmo tempo em que repele as pessoas que tentam conhece-lo de forma mais aprofundada.

A curiosidade de Aubrey o leva a se aproximar de Ruthven. Este, por sua vez, inicialmente repele o rapaz, mas eventualmente também fica atraído pela inocência do jovem. Seguindo sua natureza, Ruthven decide viajar pela Europa e aceita Aubrey como companheiro de viagem. Gradativamente, porém, Aubrey vai percebendo a natureza corrupta de Lorde Ruthven, evidenciada em situações em que ele promove e incentiva a corrupção das pessoas que entram em contato com ele ao passo que não demonstra compaixão diante da necessidade de outros seres humanos.

Já desgostoso da companhia de Ruthven, Aubrey chega a Grécia e lá conhece e se apaixona pela bela Ianthe, o que o faz se afastar ainda mais de seu companheiro de viagem. A moça conta a Aubrey sobre as lendas da sua região e adverte o rapaz sobre a floresta ao redor deles, um local habitado por vampiros, segundo ela. O jovem inglês considera as histórias como produto de mentes camponesas, mas acaba descobrindo a veracidade das narrativas quando testemunha sua amada ser vítima de uma criatura misteriosa que o ataca também, mas poupa sua vida.

Abalado pela morte da amada, Aubrey entra em definhamento, mas Ruthven surge para cuidar do companheiro e, visando animá-lo, o leva para viajar por outras regiões da Grécia. Durante uma visita a ruínas da Antiguidade a dupla é atacada por ladrões e Ruthven é baleado. Antes de morrer, ele faz com que Aubrey jure que não contará a ninguém sobre sua morte e pede que seu corpo seja colocado ao luar. Ao acordar no dia seguinte, Aubrey constata que o corpo de Ruthven desapareceu e decide retornar a Inglaterra.

De volta a Londres, Aubrey descobre que sua irmã está noiva do Conde de Marsden e se desespera ao descobrir que o aristocrata é, na realidade, Lorde Ruthven. Este, por sua vez, lembra Aubrey da promessa de manter o seu falecimento em sigilo. Aubrey constata que seu companheiro não apenas é um vampiro, mas também é o responsável pela morte de sua amada Ianthe. Angustiado pela perspectiva de ver a irmã se tornar a vítima de um vampiro e incapaz de salvá-la por estrar preso a um juramento, o jovem termina enlouquecendo.

Influências profanas

O desenvolvimento da personalidade dos dois personagens – Aubrey e Lorde Ruthven – não deixa dúvidas sobre a influência que Lorde Byron exerceu sobre Polidori no que período em que este prestou serviços ao poeta. Assim como o órfão de O Vampiro em relação a Ruthven, Polidori também nutria um misto de fascínio e repúdio pela personalidade sedutora e amoral do jovem aristocrata romântico, cuja poesia e comportamento o tornou tanto uma sensação quanto um escândalo nos salões londrinos.

o vampiro

Polidori, pintado por F.G. Gainsford.

Neste aspecto, percebe-se na leitura do conto a presença de elementos homoeróticos que refletem a tensão que existia entre o médico e o poeta, servindo de matéria prima para se construir a ambiguidade sexual do vampiro, que já havia sido apontada no poema Christabel (1798), de Samuel Taylor Coleridge, em relação à vampira. Assim, é a partir de O Vampiro que escritores e escritoras passam a explorar, na ficção, o fato do vampiro não estar sujeito às normas de gênero dos vivos, visto ser ele um morto-vivo. Esta faceta do personagem seria explorada em maior ou menor profundidade ao longo do tempo, seja em contos como A verdadeira história de um vampiro (1894), de Eric Stenbock ou em romances como Drácula (1897), de Bram Stoker e Entrevista com o vampiro (1976), de Anne Rice.

Além da natureza sexual, o conto de John William Polidori também introduziu o elemento aristocrático e amoral do vampiro. Antes de O Vampiro essas criaturas eram representadas majoritariamente como cadáveres putrefatos que saiam de seus túmulos para se banquetear nos vivos, remetendo ao folclore da criatura no leste europeu do século 18. Todavia, com Lorde Ruthven, surge o predador sofisticado que pode circular livremente entre os vivos espalhando sua corrupção ao escolher sua vítima.

Outros elementos em O Vampiro não tomaram raízes na literatura dos sanguessugas. No conto, Lorde Ruthven é morto por tiros durante uma emboscada de ladrões e é trazido a vida pelo poder da luz do luar. No entanto, os escritores e escritoras das décadas posteriores ao Romantismo resgataram da tradição folclórica a estaca e a decapitação como meios específicos para se matar um vampiro. Afinal de contas, como um morto-vivo pode morrer de tiro? Da mesma forma, o poder ressuscitador da Lua, introduzido no Christabel de Coleridge, não encontrou terreno para prosperar nos séculos seguintes.

Nascido da noite monstruosa de 16 de junho de 1816, O Vampiro, de John William Polidori pode ter sido obscurecido em fama pelo seu companheiro monstruoso em Frankenstein, mas, como visto aqui neste post, sua influência continua a assombrar escritores e escritoras que adentram o mundo dos vampiros.

E se você quiser ler tanto o conto O Vampiro quanto o conto inacabado Um fragmento de um romance, de Lorde Byron, fica a dica para conhecer a coletânea Contos clássicos de vampiros, publicado pela Editora Hedra, que conta com um longo texto introdutório deste que vos escreve. Até a próxima!

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