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Fantasmas existem? – O medo do sobrenatural através dos tempos!

Entre as muitas criaturas que povoam a literatura fantástica, os fantasmas ainda imperam

Os fantasmas existem? A falta de uma resposta definitiva para esta questão evidencia o lugar de destaque do ser fantasmagórico dentre outras figuras fantásticas intrinsecamente vinculadas a uma época quando era comum se acreditar em tais seres.

Artigo Fantasmas na história da literatura

Gilgamesh: um épico fantasmagórico

Hoje, tanto lobisomens quanto vampiros se tornaram personagens sedutores da cultura pop, ultrapassando as fronteiras da literatura gótica para assombrar comerciais, filmes e história em quadrinhos. Dentro deste quadro, muitos poucos hoje temem ou creem em bruxas, fadas, lobisomens e vampiros, mas todos hesitam diante da perspectiva da existência do fantasma. Por quê?

A persistência do medo em relação aos fantasmas encontra sua explicação na ancestral e perene angústia do ser humano sobre as dúvidas que cercam sua finitude. O que acontece conosco depois da morte? Para onde vamos?

O primeiro registro do contato entre vivos e mortos remonta justamente ao mais antigo texto literário da humanidade: o épico babilônico Gilgamesh, cuja datação inicial pertence ao século XVIII a.C. Na história, o semideus Gilgamesh lamenta a perda do amigo Enkidu após uma luta com o touro divino enviado pela deusa Ishtar.

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Em sua busca sobre o entendimento da morte, Gilgamesh encontra Utnapishtim, sobrevivente do grande dilúvio babilônico, que explica ao herói a inevitabilidade da morte humana e como a ingestão de uma planta pode lhe conceder a imortalidade. Ao fim da narrativa, Enkidu surge do reino dos mortos e descreve o mundo subterrâneo ao seu amigo guerreiro.

Destacam-se na cultura clássica as viagens ao mundo dos mortos nas quais os heróis se encontram com o espírito dos entes queridos. Neste sentido, o Canto XI da Odisséia (VIII a. C.), de Homero e o sexto livro da Eneida (I a. C.), de Virgílio são as histórias mais conhecidas.

No primeiro, seguindo o conselho da feiticeira Circe sobre uma maneira de retornar ao seu reino após anos perdido no mar, o herói Ulisses viaja ao Hades, o reino dos mortos grego, em busca de uma consulta com o sábio Tirésias. Lá, ele encontra o espírito do rei Agamenon, morto pela esposa, que adverte Ulisses sobre o perigo das mulheres.

Na sequência o guerreiro se emociona ao encontrar o espírito de sua mãe, falecida de desgosto pela falta de notícias do herói. É Anticleia que informa ao filho a situação caótica em que se encontra sua casa devido à ausência do legítimo dono.

Vários nomes, um único medo

As inquietações de pensadores e artistas da Idade Média sobre a verdadeira natureza dos fantasmas se refletiram na variedade de termos originados no mundo clássico e germânico que designam este ser. Em Língua Portuguesa, “fantasma” foi herdado diretamente da palavra anglo-francesa do século XIV fantosme, cuja raiz se encontra no latim phantasma (“fazer aparecer”, “revelar”), uma derivação do grego phantázein.

Semelhante, então, ao sentido da palavra “monstro”, cuja origem se encontra no verbo latino monere (“avisar”, “mostrar”), o fantasma se coloca como um aviso sobre algo que foge à normalidade. Chama a atenção neste ponto o fato de que “fantasia” e “fantasma” possuirem a mesma origem em phantázein enquanto algo que não é real, que só existe na imaginação.

Ao lado de phantasma e phantázein a proliferação de termos greco-romanos usados para designar as diversas classes de espíritos, algo notado nas obras homéricas e na epopeia de Virgílio, destacava a importância destas criaturas na Antiguidade. Na Ilíada (VIII a. C.), Homero narra como Aquiles foi visitado por um eidolon (“imagem”), ou seja, um fantasma que surge em sonhos. No caso do herói grego, o fantasma era do falecido amigo Pátroclo.

Já em Roma, algumas classes de fantasmas faziam parte do cotidiano dos romanos, tais como os benignos manes, que possuíam altares nas residências e as funestas lemuria, cuja ira era apaziguada com o lançamento sobre o ombro esquerdo das favas negras (uma espécie de planta), consideradas o alimento dos mortos.

Na Língua Inglesa, a palavra ghost (“fantasma”), usada pela primeira vez nesta forma em 1606 (no inglês antigo o termo era gæstan), revela a dualidade destes espíritos, visto sua origem no alemão antigo (ghoidoz) significar “alma”, “espírito bom ou mau” ou “demônio”.

A palavra ainda possui ligação com o sânscrito hedah (“fúria”). Ghoidoz também originou geist (“fantasma”, em alemão moderno). Digno de nota é o fato de que na língua alemã o espírito barulhento e inquieto recebe o nome de poltergeist.

Formas fantasmagóricas

Lentamente, com a instituição do Purgatório e a disseminação de sua função como local de penitência dos mortos, a Igreja Católica medieval conseguiu atribuir uma significação moral a aparição dos espectros, integrando-os em uma perspectiva de salvação eterna.

Artigo Fantasmas na história da literatura

A Ghost Story, filme dirigido por David Lowery: figura clássica do fantasma

A situação, todavia, mudou radicalmente com a Reforma Protestante do início do século XVI e a afirmação dos reformistas de que os fantasmas eram disfarces do diabo, visto que as almas dos mortos apenas poderiam estar no Paraíso ou no Inferno. Com o passar do tempo a crença nos fantasmas passou a ser um dos princípios que distinguiam católicos de protestantes. Posteriormente, no entanto, até alguns teólogos católicos também se tornaram céticos quanto a existência dos fantasmas.

A ausência quase completa de aparições de espectros na Bíblia contribuiu para a falta de sedimentação desta crença na doutrina cristã medieval. Diz-se quase completa porque o Livro dos Reis apresenta um legitimo relato de fantasma na forma de um caso de necromancia, ou seja, de um processo de comunicação com os mortos visando a descoberta de eventos futuros.

Protagonizado pela pitonisa de En Dor, o relato mostra como o rei Saul, sentindo-se abandonado por Deus, decide consultar a feiticeira sobre o destino de uma batalha a ser travada no dia seguinte contra os filisteus. Seguindo a vontade do monarca, a feiticeira invoca a aparição do fantasma de Samuel, que informa a Saul que ele morrerá no dia seguinte.

Com relação a aparência, o fantasma geralmente apresentava os traços e a idade quando do falecimento da pessoa. Se o indivíduo morresse em decorrência de um ferimento, era comum que o fantasma apresentasse sangramento no local. Outra recorrente propriedade dos fantasmas era a capacidade dos espectros de se apresentarem como objetos ou animais, tais como cães, cavalos e pássaros.

Chama a atenção também a importância dada a vestimenta da aparição, visto que na cultura medieval ela também indicava a vinculação social do indivíduo. Isto quer dizer que se em vida o cavaleiro pertencia a alguma das ordens de cavaleiros estabelecidas, seu espectro deveria refletir este status revelando-se em plena armadura.  Sobre essa crença, foi a partir do palco teatral e não do altar cristão que o fantasma sofreu sua secularização mais radical após o fim da Idade Média.

Principalmente quando tratava dos espectros de cavaleiros e outros membros das abastadas classes sociais de seu tempo, o teatro renascentista inglês costumava representar os fantasmas como armaduras ruidosas que se movimentavam por um complicado sistema de roldanas e elevadores. Desta forma, conseguia-se evocar o senso de antiguidade que a imagem trazia. Esta situação perdurou até o século XIX, quando o fantasma na armadura se tornou um desgastado e dispendioso clichê, levando a inevitável morte artística deste personagem.

Mas como matar aquilo que não está vivo? Sendo assim, no lugar do cavaleiro fantasmagórico surgiu a imagem do lençol flutuante como manifestação do fantasma (muito mais fácil de ser manipulado no palco). Possivelmente inspirado nas mortalhas que envolviam os corpos dos mortos, o lençol trouxe impessoalidade a esta figura ao mesmo tempo em que manteve o mistério e o temor despertado pela sua presença. Nascia assim a famosa imagem presente em desenhos animados, histórias em quadrinhos e outros produtos da cultura de massa de hoje.

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