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Ed e Lorraine Warren: Vidas Eternas – Não dá para acreditar!

Ed & Lorraine Warren: Vidas Eternas é estritamente para fãs

Terror é um gênero complicado de ser trabalhado. Ele depende de uma imersão, de um envolvimento do espectador com o tema, pois o medo, na vida real, é uma experiência intensa. Quando se tenta reproduzir isso na ficção, é preciso criar uma aura de ameaça que desperte no leitor um êmulo crível desse sentimento tão bem conhecido por todos. E é nesse degrau que Ed & Lorraine Warren: Vidas Eternas, publicado aqui pela DarkSide, tropeça e cai.

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Ed e Lorraine: Vidas Eternas

Curiosamente, o material original que inspirou toda esse febre em torno dos Warren, a franquia Invocação do Mal, foi uma grata surpresa. Há anos não se via um terror sobrenatural minimamente envolvente. Entretanto, a patética indústria de entretenimento fez o que se espera dela: acelerou continuações e transformou uma ideia original em franquia pasteurizada. E dá-lhe jump scares, efeitos especiais ruins, histórias rasas, etc.

O que é curioso é que um dos trunfos do primeiro filme era sua aura. Transitar entre o real e o sobrenatural de maneira fluida criava uma tensão constante, que envolvia o espectador de maneira orgânica, como um bom terror tem que ser. Quando extirpadas dessa qualidade, suas continuações se tornaram as típicas bobeiras que adoram aqueles que confundem sustos frívolos e irrelevantes com terror propriamente dito.

Vidas Eternas peca pelo inverso. Não dispondo dos recursos imagéticos do cinema, o livro se atém a uma descrição elusiva dos eventos vividos pela família Smurl e a subsequente intervenção dos Warren nos eventos etéreos. A ideia é reafirmar continuamente, através de um pseudo-ceticismo, que os eventos podem ou não ter sido reais, e o que define isso é a disposição à crença do leitor.

Ed e Lorraine: Vidas Eternas

O casal Warren

Suspensão da crença

E isso é, aos menos aos olhos deste colunista, um “chove-não-molha” que é a antítese do terror. Os melhores exemplares desse gênero dragam o espectador para seu universo, muitas vezes contra sua vontade, causando sentimentos conflitantes sobre acompanhar a narrativa até o fim. Quando você precisa decidir se quer crer ou não no que está descrito a sua frente, quebra-se a aura da obra, e essa disposição à crença sofre com o mesmo pseudo-ceticismo a que se propõe a narrativa: se eu não preciso acreditar, por que devo me assustar?

Assim, embora seja um relato interessante, e até bem escrito, com um bom ritmo de progressão, o livro não consegue dragar o leitor para seu universo interior. Parece apenas um roteiro não-desenhado de um volume de Contos da Cripta: tem lá seus momentos interessantes, mas não é uma experiência vívida e intensa de medo, como ofereceu o primeiro volume cinematográfico que deu origem à franquia.

Escrito pelo jornalista Robert Curran, que compilou relatos de residentes do entorno da casa dos Smurl, tudo parece uma reportagem sensacionalista. Os saudosos leitores do Notícias Populares já viram coisas mais grotescas e assustadores relatadas ali. Francamente, o bebê diabo de São Bernardo do Campo é muito mais assustador do que a figura de capuz negro do livro.

É seguro dizer que Vidas Eternas é um livro para complecionistas. Apenas os fãs mais interessados da franquia de Invocação do Mal vão realmente fruir do livro em todo seu potencial. Fãs do terror literário casuais também podem extrair alguma diversão.

Só não acredito – palavra deliberadamente escolhida – que alguém vai sentir medo lendo isso.

 

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