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HEX – A bruxa numa sociedade à beira de um colapso!

Tecnologia e horror se misturam na obra HEX

HEX é um livro onde seu autor, Thomas Olde Heuvelt, consegue transformar o sobrenatural em experimento social. E, dentro disso, há algumas camadas que dizem mais do que o simples pavor do desconhecido tão familiar que é apresentado.

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Como de praxe, à sinopse: Black Spring tem um segredo do resto do mundo. No vilarejo, Katherine van Wyler, uma bruxa com mais de trezentos anos, perambula pelas ruas, entra nas casas e ninguém pode fazer nada para impedi-la. Mas podem monitorá-la através de câmeras e do aplicativo HEXapp, que ajuda a manter a entidade longe dos Forasteiros e dos ouvidos curiosos para decifrar seus sussurros mortais. Mas toda essa frágil paz pode ser destruída por um grupo de adolescentes que quer testar os limites do perigo, tornando o mal incontrolável!

Escrito em terceira pessoa, com um Narrador-Onisciente que consegue dar ao leitor além de apenas descrições, como sensações dos personagens e pontuais digressões sobre o futuro de cada um de acordo com o andar da história. Apesar do seu núcleo principal ser representado majoritariamente por Steve Grant, há outros que dividem seu protagonismo como Tyler Grant (filho mais velho de Steve), Robert Grimm e Griselda Holst. Há outros como Jocelyn e Matt (respectivamente, esposa e filho mais novo de Steve), Jaydon Holst (filho de Griselda) e outros membros da HEX que ajudam de forma secundária e bem alinhados à trama para que a mesma ande sem maiores problemas. São coadjuvantes significativos, em sua maioria, com funções e pesos bem específicos.

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Tyler e seus amigos têm uma dinâmica clara de iconoclastia contra os velhos costumes, assim, em contrapartida, Steve é o pai que tenta moldar o filho para a dura realidade do vilarejo e o futuro dentro de Black Spring, pois todos são amaldiçoados e estão fadados a nunca poderem sair de lá sob risco de se matarem. Jaydon e Griselda são a antítese dos dois primeiros e vivem uma relação espinhosa. Robert Grimm é um homem na meia-idade que comanda a equipe HEX e que é a simbologia de quem está preso ao sistema. Odeia como precisa proceder, mas sabe que não há outra forma. Tem um humor ácido e depreciativo, mas é centrado para lidar com suas tarefas de monitoramento de Katherine.

Katherine van Wyler é assustadora, com intenções que eventualmente não fluem tão bem e é por vezes confusa narrativamente, mas, quanto personagem, choca e incomoda bastante. O andar vagaroso, dedos esqueléticos, olhos e boca costurados enquanto sussurra maldições e com uma extensa influência pela cidade e pessoas, ficando à interpretação o real tamanho de seu poder. Isso tudo contrasta com sua figura frágil que sofre humilhações, é empurrada, cutucada, sexualmente abusada e muitas vezes desdenhada. E é difícil não criar conexão com ela. Indo mais além, digna de nota é sua origem relacionada com a colonização real da Holanda à então inexplorada América do Norte mais galgada na história do que em magia.

Fantasia Urbana

Não seria exagero dizer que, como subgênero de Fantasia Urbana, o livro se sai muito bem ao valorizar uma de suas características principais transformando Black Spring no principal protagonista. Tudo é sentido de forma macro por todos, onde cada acontecimento só faz aumentar a tensão. Ao mesmo tempo que a normalidade com que eles encaram a existência da feiticeira assusta muito mais, ao mesmo tempo que os cidadãos de Black Spring tenham sua segurança e paz sendo destroçadas vagarosamente.

Resenha Hex Darkside

O autor Thomas Olde Heuvelt

Como não há altruísmo, é possível notar uma subversão da Jornada do Herói, que aqui é coletivizado pelos protagonistas e pela cidade como um todo. E é uma deturpação interessante. Onde o “passo” exige vitória, haverá derrota, onde exigir recompensa, virá punição e concomitantemente os personagens precisam se encontrar. Até Katherine é parte disto.

HEX pode ser contextualizado também sob outras quatro vertentes mesmo que algumas estejam apenas nos detalhes:
1) Distopia;
2) Político;
3) Tecnológico;
4) Romântico.

A obra pode ser comparada à uma Distopia com suas características de violência, exploração de ignorância, visão pessimista do mundo e autocracia. Um destes elementos vem na forma do Decreto de Emergência, que funciona como um antagonista oculto, uma vez que, intencionalmente, nunca é explicado sua total extensão. Mesmo assim é possível ver sua abrangência e força, ficando na entrelinha das inferências dadas pelos personagens, causando um ar de reverência com suas punições públicas, prisões arbitrárias, autoritarismo e marginalização de Direitos Humanos. Um erro em falso e os personagens podem sofrer sanções pesadas em nome do Status Quo.

(Confira também a resenha sobre o livro A Fogueira da Bruxa!)

Reside, assim, uma clara referência política ao conservadorismo extremista e sua expansão em Black Spring. Nesta ótica, Colton Mathers que de início fica nas sombras com pequenas citações de outros personagens, é mostrado depois explorado no poder ditatorial na equipe da HEX, quanto moral do Conselho que lidera e sobre a população como um proselitista religioso e com falso senso de democracia que usa para comandar as massas.

A tecnologia aqui é fundamental, seja em sua dependência como aplicativo para monitorar os passos da bruxa e câmeras pela cidade, ou em sua ausência na figura da censura que a internet vigiada e altamente limitada é disponível para seus moradores. Causa agonia e torna o leitor refém da situação. Por ser uma ficção especulativa, essa dualidade entre uso de meios de comunicação com magia equilibra bem as doses de hipérboles do livro e contrasta com as superstições encontradas durante a história.

Já no amor, desenvolve-se o sacrifício, o amor juvenil, o amor geracional ou o medo pela sua perda. Neste caso, a sua abnegação é bem conduzida, com o autor mostrando causa e consequência. Chega às vias do extremo, mas bem trabalhado desde o início nas conversas da família Grant. Isso tudo é refletido violentamente durante o clímax  da obra e que, com sucesso choca o leitor. É pesado, terrível, mesquinho e convidativo à reflexão, principalmente das últimas 100 páginas.

Mas a obra também apresenta alguns defeitos. O livro se arrisca ao trabalhar com personagens em apenas uma ou duas de suas camadas primordiais e outras pouco menos. Ainda que sejam personas relacionáveis, há um certo esforço para que isso aconteça plenamente. A narrativa tem algumas falhas de concatenação com alguns finais abertos demais e personagens que desaparecem perto do desfecho. Algumas confusões na passagem de tempo acelerada afetam o senso de direção do leitor e falta didática mais clara em outros momentos de descrição da cena. Pesam, mas, ao menos, não tiram da imersão. As citações politicamente incorretas sobre zoofilia, racismo, islamismo e autismo podem incomodar os mais sensíveis aos temas. Eu consegui extrair seus contextos (Não os aprovo, mas ainda acontece na sociedade, logo, representá-los na ficção é possível) porém são, no mínimo, escolhas discutíveis.

Foi encontrado um erro de digitação na edição física da Darkside na página 43, onde Jaydon Holst é erroneamente chamado de Jason Holst. De resto, é graficamente perfeita.

Por fim, o livro perturba pela normatização do sobrenatural, realismo e declínio social onde Katherine é o menor dos males. É possível ver como Thomas Olde Heuvelt busca dialogar com seu público em uma escrita honesta, enquanto se diverte demolindo a saúde mental dos personagens. E para o diabo com a moralidade: HEX é um divertidíssimo sadismo literário!

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