Home > Cinema > A Luz no Fim do Mundo – Casey Affleck mostra do que é capaz!

A Luz no Fim do Mundo – Casey Affleck mostra do que é capaz!

Casey Affleck na direção e no protagonismo em A Luz no Fim do Mundo

Casey Affleck começou como ator mirim, fez filmes com o Gus Van Sant (To die for, de 1995, e Gerry, de 2002) e recebeu um papel principal pelas mãos de seu irmão, Ben Affleck em Gone Baby Gone, de 2007. Ele era conhecido como o “Affleck mais novo”, aquele que tinha um personagem em Gênio Indomável. Mesmo após ser indicado para um Oscar de Melhor Ator Coadjuvante pelo seu papel em O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford, a carreira de Casey nunca decolou. Em 2017, Casey ganhou um Oscar de melhor ator com o excelente (e trágico) Manchester à Beira-Mar. Ele aceitou o prêmio com barba e cabelos compridos, caracterização devido às filmagens de A Luz no fim do mundo (Light of my Life), sua estreia “séria” como diretor, já que em 2010 ele dirigiu um falso documentário/estudo de personagem com o Joaquin Phoenix (de Coringa) ,seu ex-cunhado, chamado Eu ainda estou aqui.

Crítica de A luz no fim do mundo

O ator, e agora diretor, tem dois filhos e quando tinha uma conversa com eles que achava interessante,  fazia anotações escrevendo cenas com base nelas, até se tornarem o roteiro de A luz no fim do mundo. Casey escreveu, dirigiu, produziu e atuou no filme, afirmando em entrevistas que se eu soubesse que teria sido tão difícil, não teria feito. Mas, ao contrário do que M. Night Shyamalan fez com A Dama na Água e tentar manter o material como fantasia ou infantil, o filme é uma obra madura e realista.

Na trama, dez anos após o mundo ser atingido por uma praga que eliminou quase toda a população feminina do planeta, um pai (Casey Affleck) precisa proteger sua filha, Rag (Anna Pniowsky), dos perigos de um mundo com poucas mulheres. Acampando em uma floresta e mantendo o mínimo contato com outras pessoas, ele tenta manter Rag segura, enquanto seu relacionamento com a filha e suas próprias escolhas são testadas.

A trama do filme é uma mistura de Filhos da Esperança, de Alfonso Cuarón (um mundo onde não há nascimentos há muito tempo), com  A Estrada, de John Hillcoat (um pai tentando manter o filho vivo) e Um lugar silencioso,de John Krasinski (uma metáfora sobre as dificuldades e responsabilidades de ser pai). Os ares de filme independente, com orçamento restrito, dá uma qualidade especial à obra, que nunca chega a se tornar um filme de gênero.

A cena inicial é um diálogo entre pai e filha de 15 minutos. Uma história de ninar contada dentro de uma tenda, que mistura elementos da vida do personagem com elementos da Arca de Noé, e ainda apresenta o tema de uma espécie sem fêmeas, premissa central do filme. Essa não é a única cena longa de diálogo estático do roteiro.  Em duas horas de projeção, mais de 40 minutos apresentam os dois personagens centrais, sentados ou deitados, conversando. Essas conversas são verossímeis e trazem uma realidade para o filme, grande parte graças à escolha acertada da jovem Anna Pniowsky como atriz principal.

Affleck passou meses procurando uma atriz para o papel e é possível notar claramente que o ator contracena com respeito à competência dela, dando espaço para ele se concentrar na própria interpretação. O elenco ainda conta com Elizabeth Moss, que apesar de sua personagem aparecer muito pouco, é um elemento importante para a evolução da história.

Crítica de A luz no fim do mundo

Tensão e suspense

A ideia de “a única mulher da região”, mesmo sendo uma criança de 11 anos, gera uma tensão que permeia o filme todo. O conflito central é o pai tentando proteger a filha e ela tentando conseguir mais independência, constantemente questionando as decisões do pai e o enchendo de perguntas, desde “qual é a diferença entre moral e ética” até “o que os homens fariam comigo se me achassem?” A força da produção está em juntar esse relacionamento, de respeito às diferenças e opiniões de uma criança, com a necessidade de protegê-la de males que ela ainda não tem maturidade para compreender.

A Luz no Fim do Mundo mostra a intimidade do pai com a filha em cenas bem executadas de carinho e cuidado cotidiano, permeadas por pequenas tensões, como determinar que ela não pode usar roupas com detalhes brilhantes, e até um barulho do lado de fora do acampamento pode ser motivo de preocupação. Uma simples porta sendo fechada em um momento do filme gera uma tensão incrível e merecida.

O pai não é um agente secreto aposentado ou um navy seal com PTSD, um sobrevivencialista, um ex-policial…é só um homem comum tentando proteger sua filha dos perigos do mundo, tanto os reais quanto os suspeitos, e que vive constantemente com medo e questionando suas decisões. Rag não é uma criança birrenta ou tem alguma habilidade excepcional que a torna especial. Ela é simplesmente uma criança, que pode ou não ser a última do seu sexo, lidando da melhor forma que consegue com uma situação estressante.

Tenha fé, mas continue andando

A direção de arte do longa é excepcional, criando camadas grossas de pó e uma desorganização pós-apocalíptica realista em todos os lugares. A cinematografia de Adam Arkapaw (da ótima série Top of The Lake, também com Elizabeth Moss) capta com competência as florestas, riachos, montanhas e a neve da Colúmbia Britânica, local onde o filme foi rodado, ajudando a reforçar a sensação de frio e umidade que os personagens sofrem. A trilha de Daniel Hart completa essa melancolia, com um piano suave e um violoncelo sombrio. 

Crítica de A luz no fim do mundo

Algumas escolhas da direção são interessantes, como flashbacks que se misturam sutilmente ao tempo presente, sempre com o intuito de dar profundidade a um personagem ou a mostrar suas emoções. Toda a tensão do filme é merecida e construída de maneira realista, que nos deixa constantemente pensando no que faríamos naquela situação. Tudo é mostrado pelo ponto de vista dos personagens e não recebemos informações além do que eles sabem, deixando algumas curiosidades no final do filme sobre o que poderia ter acontecido em uma situação ou outra.

Um filme íntimo, profundo, bem-feito e cheio de nuances de personagem e de direção, repleto de uma melancolia esperançosa, mas não ingênua, com duas excelentes performances e uma das cenas de luta mais realistas que já vi. Contudo, a dependência dos diálogos para a construção do relacionamento  central pode fazer o filme parecer arrastado pra quem não está acostumado a assistir filmes independentes.

Já leu essas?
Sam Raimi - Darkman
Sam Raimi e o filme perfeito de super-herói no Formiga na Tela!
Alta Ansiedade - Mel Brooks
Alta Ansiedade, de Mel Brooks, no Formiga na Tela!
Doutor Estranho - Full Moon
Doutor Estranho como você nunca viu no Formiga na Tela!
Django - Sergio Corbucci
Django, o original de Sergio Corbucci, no Formiga na Tela!