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Coringa – E o palhaço chorou…

Evocando uma época mais cínica do cinema comercial, Coringa é um triunfo artístico

Depois de algumas tentativas de emplacar os personagens da DC nos cinemas, o anúncio de Coringa (Joker) soou estranho. Por vários motivos, na verdade. Primeiro, por ser um filme sobre a origem de um vilão icônico, porém, sem as amarras comuns de uma adaptação de HQ ou universo cinematográfico compartilhado. Segundo, por Heath Ledger ainda ser muito lembrado e associado ao papel, em sua derradeira e esmagadora performance em Batman – O Cavaleiro das Trevas. Terceiro, pelo seu roteirista/diretor trazer comédias como Se Beber, Não Case no currículo. Tão inesperado quanto qualquer reação de seu protagonista é o resultado da empreitada.

Crítica - Coringa (2019)

O filme de Todd Philips acompanha Arthur Fleck, que mora com uma mãe doente e sobrevive com trabalhos temporários como palhaço. Com um passado conturbado e necessidades especiais, ele recebe ajuda do serviço social municipal, entre remédios e atendimento, ao mesmo tempo em que alimenta o sonho de se tornar comediante de stand up. Alguém que desperta piedade já em seus primeiros segundos de tela, quando é inevitável que o espectador já comece a pensar sobre os eventos responsáveis por transformar essa figura atormentada em uma versão alternativa e inédita de um grande vilão dos Quadrinhos.

Falando em Quadrinhos, um dos grandes acertos em Coringa é justamente afastar-se desta fonte e trilhar seu próprio caminho. Existem piscadas para os iniciados, mas soam absolutamente fluidas e orgânicas em um filme que está muito mais preocupado com outro tipo de referência, e dentro da própria Sétima Arte. Já é uma atitude inusitada – e bem vinda – ambientá-lo no início dos anos 1980, algo comprovado por uma fachada de cinema na rua, exibindo Um Tiro na Noite, de Brian De Palma.

Parte da alma do longa reside aí. No ano em questão, o cinema norte-americano vivia os momentos finais da Nova Hollywood, quando clima da década de 1970 deu origem a filmes muito mais pessimistas, subvertendo o modus operandi da Hollywood Clássica. Entre obras fundamentais do período, várias são aludidas de uma forma ou de outra no roteiro de Philips e Scott Silver. A proclamada influência de Martin Scorsese (mais precisamente, com Taxi Driver e O Rei da Comédia) é, de fato, evidente e vai bem além da participação de luxo de Robert De Niro, muito bem aproveitada, por sinal.

A proposta geral de Coringa é uma espécie de tributo a esse tipo de cinema, trazendo também em seu DNA Desejo de Matar, Operação França, Rede de Intrigas e Um Dia de Cão, entre as alusões mais evidentes. Com esse conteúdo, o resultado só poderia ser uma narrativa violenta (visual e psicologicamente) e niilista, que, apesar de ambientada décadas atrás, dialoga perfeitamente com a época em que surge.

A Gotham City que serve de lar para Arthur Fleck é exatamente a Nova York decadente capturada pelas câmeras da Nova Hollywood, grande trabalho do desenho de produção. A fotografia também contribui bastante neste sentido e é caprichadíssima nos momentos mais intimistas em cenários fechados. O trabalho de iluminação é usado como artifício narrativo desde a cena inicial, onde percebemos que existe um esforço da luz em adentrar um espaço escuro.

Crítica - Coringa (2019)

Torturando o protagonista

Todd Philips não poupou seu personagem principal. Depois de um início que já nos dá a medida das agruras desta existência, acompanhamos Fleck por toda uma jornada repleta de desilusões e injustiças de todo tipo. Com um filme que, literalmente, se constrói em volta de um protagonista tão operisticamente trágico e presente em todas as cenas, a trilha sonora de tons fortemente graves da islandesa Hildur Guðnadóttir (de Chernobyl) potencializa o fardo carregado por ele. Seu sofrimento acaba sentido pelo público, que termina a sessão exaurido psicologicamente.

Em termos de substância narrativa, o cineasta também faz jogadas visuais muito interessantes para mostrar a derrocada psíquica de Arthur Fleck. Uma delas, inclusive, liga os dois extremos do filme, chegando até mesmo a aludir o mito de Sísifo, utilizado por Albert Camus em sua filosofia do Absurdismo. Uma prova cabal de seu valor como realizador, algo que o público não tinha sequer como supor pelos seus filmes anteriores. Porém, não podemos negar que ele foi agraciado por ter Joaquin Phoenix sob sua batuta.

O peso da responsabilidade do ator foi imenso, já que o filme todo orbita sua pessoa e depende muito de um desempenho convincente. Phoenix supera quaisquer expectativas e entrega um Coringa diferente de todos os já vistos no Cinema, igualando-se a Heath Ledger neste quesito, mas superando-o se levarmos em conta todo arco dramático do personagem. Com uma magreza que o torna fisicamente esquisito, de uma forma que o distingue naturalmente dos outros personagens, ele entrega uma atuação inesquecível, conquistando em sua ingenuidade infantil no começo, sucumbindo aos poucos sob o peso que lhe foi colocado nos ombros.

O conhecimento prévio de seu destino é um dos pontos que favorece a tensão do filme, trazendo um senso de inevitabilidade geral que permeia todo o longa. O texto também é esperto ao casar eventos problemáticos da cidade, noticiados pela TV e sem conexão direta com a premissa geral, como se estes fossem espécies de maus presságios que se concretizarão no terceiro ato.

Crítica - Coringa (2019)

Não era preciso apelar

Até aqui, já existem vários argumentos que atestam a qualidade de Coringa. Infelizmente, talvez os realizadores não tenham tido liberdade o bastante, já que eles acabaram dando destaque demais a outros personagens para que o público não esquecesse a qual universo essa história pertence, ainda que seja uma nova versão. Havia conteúdo de peso e um intérprete à altura ali, sem a necessidade deste tipo de recurso.

A presença forte de Thomas Wayne, pai do futuro Batman, é um detalhe que força relações a troco de nada. É também nesta dinâmica que o filme enfraquece um pouco seu contundente discurso envolvendo camadas sociais, presente por toda duração. Qualquer outro homem rico da cidade serviria para os propósitos do roteiro, que poderia ter mantido os Wayne presentes, porém, muito mais à parte. São pecados que pouco arranham, mas tiram o selo de perfeição do conjunto.

Mesmo assim, não dá para negar que esta é uma realização e tanto. Com Coringa, a Warner/DC deu um passo diferente e bem sucedido, o que talvez aponte uma nova tendência. Ainda não temos como medir o impacto deste evento, mas é curioso algo deste quilate surgindo da adaptação de um personagem tão famoso das HQ’s, o que deixa outro ponto interessante para discussão.

No meio da crise criativa que assola a indústria cultural, podemos até questionar tanto investimento em material adaptado, bebendo direta e explicitamente da fonte de vários clássicos do Cinema. Ainda assim, é um filme comercial que, neste contexto de pouquíssima ousadia e mesmice conceitual, ousou trazer um protagonista nada heroico, com um final pessimista e sem potencial de virar franquia ou vender brinquedos. Não é o cenário perfeito, mas já está anos-luz à frente da regra aplicada há anos.

Se a trajetória Arthur Fleck provoca um incômodo mental pegajoso no público, a reflexão geral sobre Coringa, como exemplar cinematográfico, nos coloca um sorriso no rosto.

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