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Um Lugar Silencioso – Faltou coragem!

John Krasinski não explora todo o potencial de Um Lugar Silencioso

Há dois filmes distintos em Um Lugar Silencioso (A Quiet Place), o novo longa-metragem do diretor John Krasinski (ator também visto na versão americana da série The Office e recentemente em Detroit em Rebelião). O primeiro é um projeto ambicioso que busca explorar as noções de som e música na construção do suspense cinematográfico. O segundo é uma obra convencional que apela a truques comuns ao gênero e parte de um roteiro repleto de convenções. Não é preciso ir muito longe para perceber que o primeiro rende os melhores momentos, enquanto o segundo deságua no ordinário.

Crítica de Um Lugar Silencioso

É verdade que a intenção de Krasinski parece ser uma mistura dessas duas abordagens diferentes. Ao mesmo tempo que propõe ao público algo novo, recorre aos recursos que causam empatia imediata no espectador médio. Até um certo ponto, é uma proposta válida, já que os exemplares mais recentes do chamado “pós-terror” (conceito torto que abarca filmes problemáticos como Ao Cair Da Noite) possuem um hermetismo narrativo muito mais voltado à vaidade estética dos seus realizadores do que a uma exigência temática das histórias contadas. No entanto, a maneira como se dá essa junção em Um Lugar Silencioso acaba por sacrificar as concepções mais inventivas do roteiro.

Os melhores momentos acontecem ainda no primeiro ato, quando, após um prólogo que estabelece o tom da narrativa, Krasinski dedica uma parcela de tempo considerável à exploração da casa (de certa maneira, o filme é uma experiência de câmara) e às regras daquele universo. Permitindo que ouçamos sons baixos quando vemos o mundo através da perspectiva de três personagens (mas isolando qualquer barulho quando o ponto de vista adotado é o da personagem surda e muda), ele manipula com uma certa destreza os sons, o silêncio e a música não-diegética. Percebe-se que tanto a tensão nos instantes mais apreensivos quanto a emoção das cenas mais intimistas decorrem, em boa parte, dessas opções feitas na pós-produção.

Além disso, o emprego da imagem para transmitir informações e algumas ideias particulares ao cenário onde a história se desenrola chamam atenção. Como não há muitos diálogos nos minutos iniciais, tudo o que precisamos saber sobre os personagens nos é mostrado e não dito, escolha que possibilita um trabalho de câmera fluido e preciso. Já cenas como a dança entre o casal principal (interpretado pelo próprio Krasinski e Emily Blunt, sua esposa na vida real) originam sentimentos inteiramente específicos à realidade do filme (a cena não teria o mesmo impacto sem a presença do fone de ouvido, por exemplo).

Crítica de Um Lugar Silencioso

Ó, convencional, clamo por ti!

Entretanto, quando estamos acostumados à realidade da história e a ameça precisa se consolidar, a narrativa se transforma num longo jogo de gato e rato (como tantos vistos atualmente), no qual todas as possibilidades prometidas no início deixam de se concretizar e a experimentação com o som e o silêncio perde sentido, pois, nas situações em que os personagens se encontram, fazer barulho seria um problema independentemente das sensibilidades auditivas das criaturas. A própria questão de gritar como uma forma de desabafo, quando acontece, é sub-aproveitada por um corte abrupto que prioriza a ação em vez do drama.

Para piorar, o roteiro apresenta um conceito (o da microfonia) que não só é mal explorado como também desaparece num momento crucial para aparecer no fim de maneira inverossímil, com o claro propósito de facilitar o trabalho dos roteiristas. Já as motivações nunca se desdobram ou originam outras situações dramáticas, o que torna clara a intenção de criar apenas um elo emocional e instantâneo entre os sentimentos de culpa dos personagens e os espectadores.

Evidentemente, se um Um Lugar Silencioso admitisse desde o início que o seu objetivo era ser um filme igual a vários outros, esses apontamentos não incomodariam tanto, uma vez que fariam parte de um todo uniformemente insignificante. Porém, diante dos resultados obtidos por Krasinki em certos momentos, é de se lamentar que ele não tenha tido a coragem de explorar todo o potencial contido no criativo ponto de partida. É claro que o filme está um pouco acima da média, mas faltou coragem ao jovem diretor. O medo de não agradar uma boa parte do público falou mais alto.

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