Home > Cinema > Artigos > Blade: O Caçador de Vampiros – Dos Quadrinhos para o Cinema!

Blade: O Caçador de Vampiros – Dos Quadrinhos para o Cinema!

Blade – A Trilogia do Caçador de Vampiros

O estouro dos super-heróis no cinema, com o consequente domínio da Marvel Studios sob o guarda-chuva da Disney, costuma ter seu marco zero indicado em X-Men (2000), dirigido por Bryan Singer. Justificado, de uma forma ou de outra, mas é difícil descartar a importância que Blade: O Caçador de Vampiros (Blade) teve neste processo, dois anos antes dos mutantes. Como a produção estrelada por Wesley Snipes completou duas décadas em 2018, é claro que o Formiga Elétrica não deixaria isso passar em branco, analisando não apenas o filme original, como também suas duas continuações.

A trilogia de Blade: O Caçador de Vampiros

O Blade de Wesley Snipes em seus três momentos no Cinema.

Ah, mas não sem antes comentar seu surgimento nos quadrinhos, fruto de duas vertentes de sucesso naquele momento. O gênero Terror – mais popular do que nunca no cinema, HQ’s e na TV – e a onda Blaxploitation durante a década de 1970, que apresentou protagonistas negros em filmes  com charme e estética muito característicos.

Blade e a origem nos Quadrinhos

Criado pelo roteirista Marv Wolfman e o desenhista Gene Colan, Blade é um híbrido entre humano e vampiro, com todas as habilidades místicas (como  a longevidade, força, resistência e agilidade sobre humanas) e nenhuma fraqueza característica, a não ser a sede por sangue, o que traz um interessante conflito ao personagem. É conhecido pelos seus inimigos como um daywalker (andarilho do dia), já que pode caminhar sob a luz solar.

Filho de uma prostituta que ganhava a vida em um bordel de Londres, Eric Brooks adquiriu sua condição especial por culpa do vampiro Deacon Frost. Disfarçado de médico durante o atendimento à mãe de Eric, ele estava alimentando-se da mulher durante o parto, o que a matou e passou parte da maldição para o recém-nascido. Acolhido e criado no bordel, Eric acaba depois salvando Jamal Afari, um músico e caçador de vampiros que treina o rapaz nesta arte secular.

Surgido nas páginas de The Tomb of Dracula, a estreia aconteceu na edição #10, de 1973. A partir das instruções de Wolfman, Gene Colan baseou-se em vários atores negros. O ex-jogador da NFL, Jim Brown, que havia tido um papel de destaque seis anos antes em Os 12 Condenados, foi um deles. Assim, a moda da época ditou o visual de Blade em sua primeira aparição, com cabelo afro, jaqueta de couro e um conjunto de facas visíveis, prontas para o uso. Um óculos chamativo era um acessório que também não poderia faltar.

Era um momento mais do que adequado para um título da Marvel com essa temática. Drácula já era uma figura sedimentada na cultura popular e a revista ganhava um coadjuvante sintonizado com a época. Também aproveitava um período com mais liberdade para HQ’s de Terror, quase vinte anos depois da perseguição aos quadrinhos do segmento, culminando na implosão da EC Comics – que, felizmente, manteve sua influência sobre as gerações posteriores – e a criação do Comics Code. O sistema de censura interna das editoras já vinha perdendo força, para alegria dos artistas ativos na indústria.

A trilogia de Blade: O Caçador de Vampiros

Blade teve uma participação recorrente até The Tomb of Dracula #21. O próprio Marv Wolfman resolveu afastá-lo, percebendo que o novato iria ofuscar os personagens principais. Além disso, o roteirista não estava satisfeito com as falas do personagem, que, segundo ele, seguiam um clichê estereotipado. Ele ainda apareceria no título algumas vezes, até seu cancelamento em 1979. De lá até os anos 1990, foram aparições esporádicas em revistas que exploravam a temática sobrenatural, como Motoqueiro Fantasma, mas nunca o bastante para alavancá-lo para o primeiro escalão da Marvel. Nem ao segundo ou terceiro, falando honestamente.

Em uma época que licenciar personagens para o cinema era barato, ainda mais se fosse um herói um tanto obscuro, a New Line Cinema tentou por diversas vezes levá-lo às telas naquela mesma década. Falhou devido a problemas na agenda de dois atores cotados para a produção, Denzel Washington e Laurence Fishburne. Com a entrada de David S. Goyer (Batman: O Cavaleiro das Trevas) para a composição do roteiro e  o quase estreante Stephen Norrington para a direção, Wesley Snipes foi considerado e aceitou o convite. A curiosidade é que, para isso, ele abandonou a turbulenta pré-produção da Columbia Pictures para o filme do Pantera Negra, produção cancelada logo em seguida.

Enfim, vamos aos filmes!

Blade: O Caçador de Vampiros (1998)

A história é simples. Deacon Frost (Stephen Dorff), um influente e poderoso vampiro sangue não puro, deseja libertar a La Magra, uma poderosa entidade vampírica capaz de destruir a humanidade e trazer poderes ilimitados para aquele que o incorporar após um específico ritual (que, curiosamente, envolve o sangue de um andarilho do dia). Blade parte, então, em uma busca para deter Frost e impedir a vinda da entidade ancestral.

Blade conta com a ajuda de seu mentor e amigo Abraham Whistler (Kris Kristofferson), responsável também por desenvolver todo o arsenal do caçador de vampiros, e a hematóloga Karen (N’Bushe Wright). Esta, após ser salva por ele, decide ajudá-lo a combater os vampiros e buscar uma maneira de fabricar um soro capaz de acabar com sua sede se sangue.

A direção de Norrington é elegante. Seu olhar concebeu uma narrativa que toma liberdades em relação aos quadrinhos, como qualquer adaptação, praticamente remodelando o personagem. Não é exagero, já que os elementos do filme acabaram assimilados pelas HQ’s, como a espada (com uma armadilha no cabo arredondado para inimigos desavisados) e o uniforme de Blade (couro preto, com colete e sobretudo, mais adequado ao fim do século XX).

Com bastante experiência no departamento de arte, Norrington criou um visual que perdurou até o filme seguinte, sendo apenas praticamente abandonado na última produção da franquia.  Há traços de modernidade e tecnologia nos ambientes dos vampiros, ao mesmo tempo que coexiste com uma arquitetura clássica no epílogo.  Por outro lado, o lar (na verdade algo próximo de um QG) de Blade é esteticamente industrial, com metais, encanamentos, máquinas e instrumentos fabris.

Originalmente pensado para ser um filme com cenas de ação baseadas em tiroteios, Wesley Snipes convenceu Norrington a trazer referências do cinema de Hong Kong, incluindo cenas com artes marciais, algo que ganha destaque nos momentos finais. A influência oriental foi além dos combates corpo a corpo e envolveu também um filme japonês. Existe um duelo de espadas (com Frost utilizando uma katana), cuja composição, em seus primeiros momentos, se assemelha bastante a uma cena específica de A Espada da Maldição, de Kihachi Okamoto, algo confirmado também pelo próprio diretor.

É perceptível a influência da montagem e outros aspectos de videoclipes dos anos 1990 em Blade. Câmeras aceleradas, profundidade de campo congelada enquanto a ação no primeiro plano se desenvolve estão entre alguns dos aspectos que justificam essa afirmação. Cabe também destacar o uso de CGI quando os vampiros são incinerados após o contato com a prata, além da maquiagem absurda para transformar o ator Eric Edwards no bizarro ser monstruoso Pearl.

Com o sucesso inesperado de Blade: O Caçador de Vampiros, uma sequência era inevitável.

Blade II: O Caçador de Vampiros (2002)

Norrington passou o bastão da sequência para o cineasta Guillermo del Toro. Em Blade II, o personagem é convocado por um lorde vampiro chamado Damaskinos (Thomas Kretschmann) com o intuito de estabelecer uma trégua e aliança entre vampiros e o andarilho do dia. O objetivo é derrotar uma ameaça maior, Nomak (Luke Goss), uma mutação vampírica (uma evolução dentro do gene vampiro, digamos) imune às fraquezas comuns desses seres, detidos somente através de projeções de luz (solar, ultravioleta e similares). Assim como Blade, ele quer destruir por completo os vampiros, estabelecendo o domínio de uma nova raça que ele intitula como Reapers.

Ao saber do perigo iminente à raça humana, o herói decide aceitar a aliança com o lorde vampiro, liderando assim um grupo de vampiros caçadores. Entre eles, Nyssa (Leonor Varela), a filha de Damaskinos, Reinhardt (Ron Perlman), Chupa (Matt Schulze) e Snowman (Donnie Yen). Além de Whistler, Blade conta com a ajuda de Scud (Norman Reedus, o Daryl de The Walking Dead), que desenvolve armas para a luta contra vampiros e Reapers.

Com o enredo mais articulado (afinal, há uma aliança improvável entre Blade e os vampiros), o longa ainda tem a direção de Del Toro, que traz elementos reconhecíveis e autorais que o diferenciam de Norrington. Ao mesmo tempo, se mantém fiel ao que já havia sido estabelecido.

O cineasta traz sua pegada de cinema fantástico para a franquia, além de elementos comuns ao Terror que não foram vistos no primeiro filme. A sequência da casa noturna (aqui percebemos uma linguagem rítmica com o primeiro filme) e do esgoto são, ao mesmo tempo, frenéticas e assustadoras. É interessante notar como, em ambas as cenas, del Toro opta por iluminações próximas ao expressionismo alemão, com luz e sombras bem demarcadas.

A cena do esgoto é, basicamente, a referência do gótico em Blade II.Um cenário que evoca a arquitetura medieval, criando laços com outros ambientes dentro do próprio filme. Por exemplo, o quarto de Damaskinos. Assim como no primeiro filme, a tecnologia e modernidade fazem parte do universo vampírico, ao mesmo tempo que o QG de Blade é esteticamente industrial. Um detalhe importante é que a base dos vampiros e lar do lorde Damaskinos foi pensada como contraste por del Toro. Perceba que, para diferenciar a base do restante de ambientes do longa, é o único lugar que detém arcos longos e colunas arredondadas.

No entanto, o toque mais reconhecível de del Toro está nos Reapers. Desde a concepção visual e como essas criaturas se alimentam, diferente dos vampiros, até a construção de todo o seu organismo (há uma cena de dissecação que atesta a criatividade do diretor) e como ele funciona. Assim como em outros trabalhos do diretor (O Labirinto do Fauno, Hellboy, A Colina Escarlate e A Forma da Água), a direção de arte e maquiagem são excepcionais.

Nomak tem a aparência alterada com a degradação do corpo quando não se alimenta. Damaskinos tem a pele clara, algo próximo ao mármore branco, o que reforça a ideia de sua longevidade. Vale lembrar também o cuidado que o cineasta teve em individualizar as criaturas, mudando completamente a forma como cada uma morre após ser atacada por prata, alho ou qualquer variante de luz.

Diferente do primeiro filme, temos aqui o uso maior de CGI. Em alguns momentos, como o confronto dentro do QG de Blade e uma dupla de vampiros, percebemos que as cenas envelheceram um pouco à luz do que é visto hoje. Entretanto, a batalha entre Blade e Nomak é fantástica. O uso da tecnologia reforça os saltos, giros e troca de golpes. Pelo menos essa sequência, se analisada hoje em dia, facilmente é confundida com uma produção cinematográfica recente.

Blade II vai além de cumprir a expectativa de uma continuação do trabalho de Norrington. Guillermo del Toro faz algo autoral, mas sem desvincular aquilo que foi construído anteriormente. Será que o próximo filme, encerrando a trilogia, teria o mesmo desempenho, pelo menos?

Blade: Trinity (2004)

A resposta é não. Infelizmente, o último filme da franquia é um tropeço atrás do outro. Dirigido por David S. Goyer (roteirista do primeiro filme), Blade: Trinity traz uma ordem de vampiros que, para derrotar definitivamente o andarilho do dia, decidem libertar nada mais, nada menos, que o próprio Drácula (Dominic Purcell, de Prision Break) que, por algum motivo, decidiu chamar a si mesmo de Drake. Desta forma, Blade parte para a caça ao lado de um novo grupo intitulado Nightstalkers, uma ideia reciclada das HQ’s dos anos 1990. Duas importantes figuras se juntam ao lado do andarilho, Abigail Whistler (Jessica Biel), filha adotiva de seu mentor, e o excêntrico Hannibal King (Ryan Reynolds, o Deadpool), formando assim a “trindade” na luta contra os vampiros.

Os leitores que não viram o filme podem pensar agora: “E o mentor e amigo de Blade, Abraham Whistler?” Bem, aí que surge o primeiro tropeço. Logo no início do filme, Whistler morre de uma forma completamente banal! E assim o diretor desperdiça um personagem importante, logo no começo da projeção. O que acontece basicamente no filme inteiro, com personagens morrendo sem qualquer momento para lamento ou sensibilização.

A concepção visual também é deveras atropelada nessa sequência. O estilo industrial do QG de Blade é abafado por uma construção moderna e tecnológica, demarcada por um píer. As características orientais do cômodo de Blade também são descartadas .

A caracterização de Drácula em sua forma real, não humana, impressiona. Elogio que não cabe aos recursos digitais, inferiores ao filme anterior e sem novidades. As coreografias dos combates são repetitivas e Snipes está no piloto automático. Em muitos momentos, a interpretação vai a nível cômico onde deveria ser trágico, o que reflete um problema na direção de Goyer. E o Drake de Purcell é pior ainda, sem vigor e sem causar horror. Fica atrás de Dorff e Goss como vilão do andarilho.

Um respiro é Jessica Biel. A atriz realmente incorpora uma personagem que é tomada por insegurança e temor ao enfrentar o desconhecido. No epílogo, a mutação psicológica da personagem a eleva e a progride. Reynolds não merece destaque, mas faz um bom trabalho. A persona do ator não submerge no papel, sempre brincalhão e servindo de alívio cômico no filme. Talvez o problema seja a inabilidade de Goyer em trabalhar com mais personagens de peso para a trama. É perceptível que Snipes foi ofuscado pelo casal, um erro que um diretor mais experiente teria evitado.

Enfim, Blade: Trinity, infelizmente, encerra a trilogia do híbrido de humano e vampiro de maneira fraquíssima. Entretanto, o saldo é positivo, já que os dois primeiros filmes tiveram sucesso (de público e crítica), elevando o status do personagem na cultura pop e mostrando o potencial dos heróis dos quadrinhos no cinema. Aguardamos ansiosamente um novo filme da franquia e – por que não? – uma participação no universo cinematográfico da Marvel.

E você? O que acha dos quadrinhos e da trilogia do daywalker?

Já leu essas?
Aventuras do Formigueiro - FormigaCast
As aventuras de produzir conteúdo foram a pauta do FormigaCast!
Cultura Pandemia FormigaCast
Cultura em tempos de pandemia na pauta do FormigaCast!
5 diretores que surpreenderam em sua estreia no Formiga na Tela!
Querido Papai Noel - Formiga na Tela
Nossos pedidos para 2022 no último Formiga na Tela do ano!