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Deadpool – Metalinguagem da zoeira!

Deadpool foi comentado no Formiga na Cabine!

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Seja nos quadrinhos ou no cinema, super-heróis sempre caminharam em uma linha muito tênue. Existe um certo componente burlesco intrínseco neste tipo de personagem, exigindo muita habilidade para atingir o objetivo proposto, que varia entre tons de  verossimilhança e seriedade, mas todo mundo percebe quando o resultado, seja qual for, não está de acordo com a intenção inicial. No caso de adaptações para as telonas, também existe aquele caso específico em que o herói ou o vilão (ou os dois) acabam descaracterizados – visual e conceitualmente – na transição de mídias. Mais de uma década depois do início da tendência super-heroica em Hollywood, surge uma situação curiosa e bem vinda, onde a própria fonte já é uma paródia em sua essência, e a sua adaptação não só aceita essa característica como a abraça.

Deadpool

Deadpool é um personagem de sorte. Surgido em um dos períodos menos criativos das HQ’s da Marvel, e da indústria em geral, criado por Fabian Nicieza e o execrado Rob Liefeld, este anti-herói mercenário chega a ser uma espécie de símbolo do que havia de errado na década de 1990, assumido até mesmo como um plágio de outro personagem da Distinta Concorrência. Como tudo é aproveitável e nunca some de verdade neste mercado, ele continuou por aí, mas sua série foi reinventada incorporando elementos de metalinguagem. Passou a ser para o Universo Marvel, mais ou menos, o que o Louco é para a Turma da Mônica, protagonizando histórias insanas com quebra da quarta parede e a plena consciência de estar dentro de um gibi, o que permite brincar com vários clichês desta mídia. Já não era uma ideia nova, mas isso – mais a violência característica – garantiu sua popularidade.

Parte da mitologia dos mutantes da Marvel, cujos direitos estão hoje com a Fox, ele já deu as caras no cinema no horroroso X-Men Origens: Wolverine, completamente irreconhecível. O ator Ryan Reynolds, fã de quadrinhos, não ficou contente com aquilo, claro, mas sete anos depois ele tem a chance de voltar ao papel, desta vez encarnando uma versão fiel… ou melhor, MUITO fiel, valendo até tirar sarro com a aparição anterior nas telas, sem poupar até mesmo outra péssima experiência de Reynolds envolvendo um personagem de HQ. Uma dica: tem a ver com um anel e a cor verde.

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Deadpool, o filme, é a estreia de Tim Miller comandando um longa metragem. Vindo de dois curtas animados (Aunt Luisa e Rockfish – o segundo você encontra completo no fim desta postagem), ele encarou a responsabilidade de entregar uma aventura tresloucada, violenta e engraçada, a partir do roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick, de Zumbilândia. Lembremos que é um filme de origem, portanto, mais complicado de desenvolver. Wade Wilson é um ex-soldado das Forças Especiais, atuando como mercenário. Tagarela e piadista, ele apaixona-se por Vanessa – a brasileira Morena Baccarin – e é correspondido, entrando na fase mais feliz de sua vida até que se descobre com câncer terminal. Um desconhecido oferece a chance de curá-lo com um doloroso tratamento experimental que ativa seus genes mutantes e desenvolve um fator de cura que regenera tudo, até membros amputados. A contrapartida é que ele é deformado no processo, o que o faz caçar os responsáveis para que consertem seu rosto.

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A premissa tem como recheio a presença de dois X-Men, Colossus e Míssil Adolescente Megassônico, a fim de recrutar o protagonista para o grupo, e se não prima por grandes dilemas, motivações e reviravoltas (nem poderia, não é?), o filme já assume sua ironia cômica em seus créditos iniciais, ganhando a atenção do espectador de cara e entregando logo uma grande e sangrenta sequência de ação. A estrutura não-linear, que já nos apresenta o protagonista com o uniforme e todas as habilidades e revela seu passado aos poucos, é um recurso manjado, mas funciona em favor do ritmo e impede que a narrativa pareça uma minissérie em duas partes.

Se nos quadrinhos o personagem brinca com o meio onde se encontra, nada mais natural que sua versão de carne e osso inclua os filmes de super-heróis entre os alvos de suas piadas. O verborrágico Deadpool não poupa quase nada, seja envolvido em algum diálogo – questionando a falta de orçamento da produção, por exemplo – ou falando diretamente ao espectador. A quebra da quarta parede é um recurso usado com esperteza, enfatizando a insanidade do personagem e muitas vezes nos lembrando de que aquilo não deve ser levado a sério, após uma cena com maior potencial dramático… ou seria menor potencial cômico? Bem, não importa.

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Com Colossus e sua ajudante garantindo mais tiradas pela sua presença e atitudes, os vilões Ajax e Dust, respectivamente Ed Skrein e a ex-lutadora de MMA Gina Carano, cumprem a sua função de malvados canastrões que o clima da história pede, além de serem ameaças físicas de respeito – e motivo de piada – para o protagonista e seus aliados, na grande sequência que fecha o filme. Esta, aliás, apesar dos seus méritos, acaba cedendo ao clichê sem a intenção de sátira, soando comum demais dentro de uma produção tão inusitada.

Como o filme todo é uma metralhadora humorística, seria pedir demais que acertasse o alvo em todos os disparos. Alguns diálogos simplesmente não funcionam, às vezes forçando uma piada que já estava perdida, ou mandando uma tirada previsível demais. Não chega a comprometer a carga de diversão prometida, mas é uma pena, já que Tim Miller conseguiu criar cenas de ação com humor físico bem sacado, trabalhando com um orçamento bem menor do que a média deste tipo de produção.

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Na contra mão total dos filmes de super-heróis com classificação branda para toda a família, violento, desbocado e irreverente (mais do que você imagina), Deadpool é, no mínimo, um filme honesto e o esforço dos envolvidos é visível. Além disso, a Fox mostra disposição em investir em algo diferente – que significa menos comercial – no segmento, o que é animador, mas se isso indica um novo caminho ou tendência geral, só seu sucesso confirmará. Falando em planos para o futuro cinematográfico do mercenário, não perca a hilária cena pós-créditos, homenageando um clássico juvenil oitentista da Sessão da Tarde.

Segue completo Rockfish (2003), segundo curta de Tim Miller:

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