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Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi – A segregação no pós-Guerra!

Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi toca em um ponto nevrálgico da História dos EUA

Baseado no livro homônimo escrito por Hillary Jordan, Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi (Mudbound) é uma tocante e poderosa história sobre o racismo e a segregação que pairam sobre o Sul dos Estados Unidos desde o término da Guerra Civil Americana. Mudbound (que significa basicamente “ligado à lama”) é ambientado durante o fim da década de 1930 até os primeiros anos da pós Segunda Guerra Mundial.

Crítica de Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi

Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi

Sob tempestades e árduos trabalhos agrícolas, somos apresentados a duas famílias completamente antagônicas. Enquanto a primeira, branca, é dona de um grande lote de terras (o patriarca é racista e associado à Ku Klux Klan), a segunda é negra e vive de um local arrendado pelos primeiros, sonhando em conseguir um dia juntar as economias necessárias para comprar uma propriedade e assim poder lavrar a própria terra.

Contudo, o eixo principal está em dois homens que, representando cada uma das famílias, retornam da Segunda Guerra Mundial para trabalhar e pouco a pouco se ajustar a nova realidade apresentada.

Amizade X Segregação

Jamie McAllan (Garrett Hedlund, de Peter Pan) e Ronsel Jackson (Jason Mitchell, de Detroit em Rebelião e Kong: A Ilha da Caveira) são os tais ex-combates da Segunda Guerra que, ao voltarem para suas respectivas famílias, mergulham no ócio da vida pacata no coração do Mississipi. Após um imprevisto encontro, Jamie e Ronsel iniciam uma amizade regada a whisky e relatos de guerra que, aos poucos, é julgada pela sociedade e pela família, levando a certos momentos de tensão e suspiros na narrativa.

É exatamente essa a provocação realizada pela diretora e roteirista Dee Rees sobre o racismo perverso nos Estados Unidos. A amizade construída pelos personagens Jamie e Ronsel, que a todo momento é questionada por aqueles que o cercam, mostra claramente a maneira como a mentalidade segregacionista é uma construção social e um fortíssimo mal enraizado na sociedade estadunidense. Enquanto os problemas étnicos imperam sobre as duas famílias e há o desenrolar da história, Jamie e Ronsel bebem juntos, conversam sobre amores, família, heróis e saudosismo da guerra.

Crítica de Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi

Sim, aqui a memória da Segunda Guerra tem um sabor agradável. O mais comum é encontrarmos produções em que conflitos são retratados de maneira negativa, o que é completamente justificável. Mas em Mudbound, mesmo com relatos desagradáveis, a guerra é tratada pelos personagens como um “velho bom momento” o que os faz questionar a realidade em que vivem. A Guerra é uma fuga, um refúgio para os problemas raciais. A medida que a vida no campo sulista é tomada por uma fotografia em tons escuros, a Europa (palco da grande guerra) é cheia de luz e mergulhada por tons claros.

Recursos literários

A maneira como Dee Rees conduz a trama é completamente literário. Habilidosa e criativa, utiliza-se de narrações dos principais personagens como recurso narrativo linguístico. Desta forma, parece que são cartas enviadas por soldados à família, ao mesmo tempo endereçadas ao espectador.

Além dos discursos de Jamie e Ronsel, outros personagens trazem força à história a partir de relatos particulares e nos levando a sub enredos na trama de Mudbound. Carey Mulligan (de Shame) é Laura McAllan, mulher urbana que não se acostuma com a vida rural e passa a ter problemas conjugais com o marido, Henry (Jason Clarke, de Exterminador do Futuro: Gênesis e Planeta dos Macacos: O Confronto), que nutre ambição de se tornar fazendeiro, levando-o a uma vida precária em uma pequena cidade no Mississipi, ao lado da esposa e filhas.

Do outro lado das terras da família McAllan, os Jacksons sonham e lutam por uma propriedade particular. Hap é o pai (Rob Morgan, das séries Stranger Things e Demolidor), que, desde muito cedo trabalhando em troca de moradia, prega para a família sobre a incessante batalha da comunidade negra por um lar. Já sua esposa e companheira Florence (Mary J. Blige, de Histórias Cruzadas e Preciosa: Uma História de Esperança) é a preocupada mãe que aguarda ansiosamente que o filho volte da Guerra, ao passo que estabelece uma relação próxima a família McAllan.

Crítica de Mudbound: Lágrimas Sobre o Mississipi

Sobre a Fotografia e Indicação de Rachel Morrison

Por mais que Mudbound tenha problemas de mise-en-scène, a fotografia é muito competente. Conduzida por Rachel Morrison (responsável também por Pantera Negra), é um lindo e ótimo trabalho, mas que não foge muito do lugar “comum”, o que também não diminui sua importância. Há belos planos, por exemplo, da leveza e simplicidade de uma cidade da Bélgica durante a Guerra e do trabalho nas plantações da família Jackson com diversos momentos do nascer e pôr do sol, mas é só. Como já citado, a fotografia de Morrison é convencional, bonita e nada de extraordinário.

Se o trabalho é competente, porém não impactante, Morrison merece mesmo assim um devido destaque: É a primeira mulher a ser indicada a direção de fotografia no Oscar. De uma área reconhecida pelo domínio masculino (e injusto na maioria dos casos, há muito do “comum” na lista de vencedores na história do Oscar) é maravilhoso saber que pela primeira vez na história uma mulher é indicada a categoria de direção de fotografia. É um longo caminho a percorrer, mas, pouco a pouco, paradigmas são quebrados e as mulheres tendem a conquistar o seu espaço.

Com montagens paralelas, Mudbound: Lágrimas sobre o Mississipi é forte em sua história e personagens. Merece destaque e um olhar especial do espectador para a trama étnica dos EUA no mundo do pós-guerra.

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