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Shangri-la – O necessário mais do mesmo!

Shangri-la não surpreende, mas sua execução é envolvente e necessária

A ficção científica é sempre uma extrapolação do futuro desenvolvida a partir do presente. Conforme o tempo passa, o futuro “se transforma” – a visão da ficção científica sobre nosso destino se adapta às urgências que vivemos agora. Por isso, mesmo que muitas vezes alguns escritores acabem dando voltas em torno de temas que já foram bem explorados, não custa nada retomar alguns tópicos para, quem sabe, finalmente aprendamos algum coisa. Principalmente quando esses ensinamentos vêm adornados por belas artes. É o caso de Shangri-la, do francês Mathieu Bablet, publicado aqui pela editora Sesi-SP.

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De fato, para os fãs mais calejados do gênero, dificilmente Shangri-la apresenta qualquer coisa que seja de fato surpreendente. Salvo algumas ideias pontuais – como a crítica social feita em torno da figura dos animalóides – toda a apresentação de Bablet gira em torno de aspectos e características vistos em obras inclusive mais recentemente publicadas no Brasil, como Planetes. Mas, como dissemos, isso não invalida o ponto da HQ em si, que é lidar com as possibilidades extrapoladas de muitas das chagas da vida contemporânea – em particular, o consumismo, a alienação e a apatia.

A história em si é relativamente complexa, abordando diversas frentes. O fio condutor é Scott Peon. Scott está investigando estranhos acidentes em laboratórios em órbita para a Corporação Thianzhu. A Thianzu é… bem, basicamente o que sobrou da humanidade. Porque, seguindo a cartilha das distopias sci-fi, Bablet nos apresenta um futuro onde todas as escolhas erradas que nós fazemos hoje terminaram da maneira como nós mais ou menos esperamos que de fato termine hoje: com a humanidade quase extinta. A Terra se tornou inabitável, e o que sobrou da nossa espécie agora orbita o planeta numa espécie de “arca” – uma colossal estação espacial, de propriedade da Thianzhu, que concentra os últimos seres humanos.

Mas é claro que, sendo a estação propriedade de uma mega-corporação, ela é o reflexo da filosofia da empresa. O que significa que tudo dentro da estação gira em torno de um capitalismo cru, descontrolado e, para usar um clichê, selvagem. A estação é uma comunidade auto-suficiente – num sentido perturbadoramente “Philip K. Dickiano” – com um molde fortemente marcado por um consumismo irrestrito e inconsequente, onde um mecanismo de constante oferta e demanda é a única coisa que serve como motivação e dinamismo para uma vida cotidiana padronizada e cristalizada em todos os seus aspectos.

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Tensões presentes

Um espelho distorcido do presente, mais do que qualquer objetivo, sonho ou desejo particular, o que move a massa é o lançamento do próximo tablet Thianzhu a roupa-padrão nova, com mínimas diferenças em relação ao modelo anterior – mas que, em uma existência vazia, é a pedra fundamental do estabelecimento de valores e as camadas sociais diferenciadas que surgem entre aqueles capazes de arcar com esses valores e os que não.

Mesmo as tensões sociais entre essas camadas são arquitetadas artificialmente – a Thianzhu é a versão de Bablet para o Arquiteto, de Matrix, que entende que as pessoas precisam de falhas inerentes à sua organização para que se sintam confortáveis em uma “realidade” que lhes pareça palatável. Uma dessas tensões sociais é justamente um projeto da Thianzhu, o Homo Stellaris, uma versão “evoluída” da humanidade, desenvolvida em laboratório, que será assentada em Shangri-la, um território na lua de Saturno chama Titã.

Em tese, essa nova espécie significa uma chance de preservar a humanidade enquanto espécie, recomeçando do zero em um novo lar. Na prática, Bablet introduz na sua narrativa, associada ao capitalismo imoral da Thianzhu, o poder sobrepujante da ciência, onde um complexo de Deus é associado a um empirismo indiscutido – que, naturalmente, resulta em outra ferramenta de controle das massas, onde um punhado de privilegiados encurrala uma massa de pessoas através da ideia – sempre falaciosa – de que as empresas e a ciência sempre sabem o que é melhor para você.

Um dos aspectos interessantes, e que freia – ao menos em alguma medida – um maniqueísmo simplista entre controladores e controlados, é que a mesa do poder vira a todo momento. Como é um volume grande, Bablet se permite apresentar mudanças de personalidade individual dos seus protagonistas, assim como do status quo dessa claustrofóbica sociedade – mudança essa proporcionada, principalmente, pelo progresso da investigação de Scott, em direção ao inevitável fim, que serve como a eterna metáfora oferecida pela ficção científica: só o conhecimento liberta.

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Arte primorosa

Graficamente, a arte de Bablet é um primor. Com um traço característico mais aproximado do realismo, ele cria imensos painéis extremamente detalhados, que dão dimensão e profundidade para a estação e também para as cenas no espaço. Seus interiores sabem oprimir pela claustrofobia, e seus exteriores assustam pela agorafobia, por assim dizer. Nas cenas internas, também destaca-se uma paleta de cores bastante rígida, transitando entre o ciano e o amarelo, onde o primeiro normalmente marca os momentos de apatia social, e o segundo marca os pontuais questionamentos, que vão adquirindo força com o tempo. Não obstante, as expressões emocionais de Bablet também marcam e comovem, em especial quando relacionadas aos anseios – e também ao destino – do animalóide Johnny.

A única realmente possível em relação a Shangri-la já foi estabelecida: para o fã de ficção científica, é um caldeirão de ideias trabalhadas de forma bastante apropriada, mas surpreendente em quase nada. Todos os alertas sobre os excessos do capitalismo, todas as críticas sobre a desigualdade social, todas as observações sobre a dissociação entre ciência e ética já foram feitas. Exaustivamente. O que pode tornar Shangri-la um pouco mais do mesmo. Por outro lado, visto que nosso planeta e nossa espécie continuam trotando alegre e despreocupadamente em direção ao completo colapso, talvez bater na mesma tecla, até alguém começar a prestar atenção, seja mesmo o que precisamos.

Afinal, a vida é mais do que o IPhone onde você está lendo esse texto…

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