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Coleção Tabu – Coisas (realmente) de mulher!

 Coleção Tabu traz três jovens quadrinistas falando de temas que têm tudo a ver com o (verdadeiro) universo feminino

Adjetivar uma atitude como “coisa de mulher” é das mais velhas formas de imposição do patriarcado. Papo chato esse, né? E logo na primeira frase da resenha. Só que não dá para fugir de certas verdades e a Coleção Tabu, um dos últimos lançamentos da Editora Mino, é infestado delas. Composto por três HQ’s, Piracema, Juízo e Cina, a proposta de romper com a ordem natural das coisas e fazer com que temas realmente polêmicos sejam levados até os leitores é mais que cumprida pelas autoras Jéssica Groke, Amanda Miranda e Lalo.

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Não existe uma indicação de ordem de leitura, pois as três histórias são independentes. Mas é possível imaginar a coleção como uma espécie de longa-metragem composto por três histórias que conversam entre si, apesar das abordagens e traços diferentes. Esta resenhista que vos escreve optou por começar com Juízo, que já impressiona pela capa. Os tons de vermelho e preto e a boca escancarada da protagonista, Luciana, impactam e também plantam a dúvida: será um quadrinho de terror? Por começar com uma simples ida ao dentista, intercalada por lembranças maternas, a história parece se encaminhar para uma análise da influência que as mulheres que nos cercam na infância exercem sobre toda a nossa existência. Para o bem e para o mal.

Mas Amanda Miranda cria uma atmosfera de cotidiano comum para depois nos dar um belo de um tapa na cara. Revelar a verdadeira temática de seu quadrinho seria estragar a força das imagens que surgem nas últimas páginas. Aliás, Juízo tem poucas páginas, mas elas ficam na nossa memória por um bom tempo, misturadas às imagens da nossa própria vida, com mulheres e sangue. Leia e descubra, sem deixar de admirar a narrativa visual rápida e bem estruturada.

Resenha de Coleção Tabu

Desejo e Morte

Já a trama de Piracema chega de mansinho, num ambiente bem conhecido de quem já foi adolescente: as aulas de educação sexual. Garotos e seus comentários idiotas, professora colocada em uma saia justa e uma garota pensativa. O estilo de desenho de Groke é facilmente reconhecido, ainda mais para quem leu Me Leve Quando Sair. Estão lá a natureza em detalhes, os olhos expressivos e o foco em objetos que dizem mais que um quadro inteiro. A novidade fica por conta do elemento fantástico, em forma de sonho, que transborda o desejo da protagonista. Literalmente.

Poucas vezes o despertar sexual de uma menina foi mostrado de forma tão poética e inteligente. Isso porque o assunto não é novidade, centenas de filmes e livros estão aí para provar. Mas usar o fenômeno da piracema para ilustrar esse momento tão complexo e marcante da vida de qualquer mulher é uma sacada e tanto. Ainda mais com a delicadeza (sem perder a força, que fique bem claro) do traço de Jéssica Groke.

Resenha de Coleção Tabu

Para fechar essa viagem em três estações pelos tabus do mundo, o maior deles: a morte. Cina, de autoria da quadrinista Lalo, já conhecida por seus trabalhos extremamente tocantes e fora dos padrões sobre sexualidade, criou uma personagem que, mesmo aparecendo em menos de 40 páginas, torna-se inesquecível. Cina é uma mulher que quer morrer. Só não espere o estereótipo de alguém atirado no sofá se queixando dos problemas. Cina bebe, gargalha, transa e lava a louça. Uma vida normal, mas que ela quer que chegue ao fim de uma forma simples e indolor. Pesado? Lalo consegue dar leveza até para as cenas mais impactantes, provando que a tão temida morte tem lá a sua poesia. Mesmo que doa e a gente não lide muito bem com ela.

O lado pouco positivo da Coleção Tabu é ser pequena demais. A vontade de ter aquelas três histórias esmiuçadas em mais quadros e balões é grande, pois essa amostra deixa claro que suas autoras dariam conta do recado. Afinal, o tabu que já quebramos foi o de que mulher não sabe fazer quadrinhos. Caso você ainda tenha ressalvas quando a essa afirmação, leia Tabu. E descubra que é você que precisa se quebrar em mil pedaços para se reconstruir.

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