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Aquele Verão – Pré-adolescência e outras coisas da vida!

Autoras canadenses abordam o fim da inocência em Aquele Verão

Os aspectos mais prosaicos da vida servem bem à ficção, especialmente os momentos de transformação profunda, como a passagem da infância para a adolescência. As primas canadenses Mariko e Jillian Tamaki, roteirista e desenhista de Aquele Verão (This One Summer), respectivamente, escolheram esse exato recorte para criar seu conto intimista de formação. Acompanhando a protagonista Rose, o álbum mostra uma gradual mudança de percepção dela, gerando aquelas inevitáveis decepções que qualquer um já viveu, de forma mais ou menos similar.

Compre clicando na imagem!Resenha de Aquele Verão - Mino

Lançado originalmente em 2014 nos EUA, pela First Second, a HQ chegou ao Brasil pela Mino*. Vale comentar uma curiosidade em torno de sua publicação estadunidense. Esse trabalho foi alvo de censura em dois estados, com livrarias retirando-o das prateleiras por conta de reclamações de pais. Sob a alegação de que as jovens personagens estariam às voltas com temas adultos demais, algo considerado inadequado pelo grupo reclamante, o álbum foi defendido por uma coalizão anti-censura, ganhando reconhecimento após o esse episódio.

*(Confira também as resenhas de Condado de Essex e Três Buracos)

A premissa de Aquele Verão não poderia ser mais simples. Rose passa todo verão na praia de Awago, no Canadá, com seus pais. Uma rotina anual comum, tanto que ela tem uma amiga que encontra somente nestas ocasiões, Windy, um ano mais nova. Em uma dessas temporadas ela vai encarar seu ritual de passagem para a adolescência, quando se dá conta que algumas coisas estão diferentes. Por exemplo, seus pais entrando sempre em atrito por algo que ela mal pode compreender ainda.

Paralelo a isso, ela também terá sua paixão de ocasião. Impossível, é claro, mas a intransigência e os defeitos das pessoas mais velhas começam a ficar evidentes, detalhes que ela demora a assimilar. Windy é um contraponto ao seu estado atual, pois ainda se encontra em um momento bem menos vulnerável emocionalmente. Criando mecanismos de defesa próprios para lidar com essa nova realidade, Rose vai passando os dias deste verão, o mais marcante para sua vida até então.

Sem um grande arco dramático, Aquele Verão aposta no apelo da nostalgia. Mesmo que isso seja, evidentemente, mais forte para a parcela feminina do público, não é algo direcionado a um nicho muito específico. Como o roteiro ambienta seu pequeno drama cotidiano justamente neste momento de saída da infância, acaba se tornando mais inclusivo por isso. Uma sutileza talvez inconsciente da parte das autoras, mas não menos bem vinda por isso.

Reforçando a afirmação do parágrafo anterior, a pegada lírica do conjunto não se sobrepõe ao peso de uma representação mais realista, que pode até soar como tediosa. A insatisfação de alguns leitores pode vir exatamente disso, o que não seria incompreensível. Mesmo assim, os grandes movimentos da trama se desenrolam em um plano invisível para os leitores, que é o interior de Rose.

Resenha de Aquele Verão - Mino

A leveza do traço a serviço da fluidez

Com esse tipo de proposta, o álbum precisava de uma arte que aliviasse o clima crepuscular. Jillian Tamaki acertou em cheio nesse quesito. Fortemente influenciada pelos mangás, a estilização que ela impôs é muito bem pensada, representando visualmente a descomplicação das duas meninas, as únicas desta faixa etária na história, em contraste sutil com os personagens mais velhos.

A construção deste mundo idílico à parte, como Awago é visto por Rose, é muito bem detalhada. Cenários que convencem como lugar real, seja em um plano geral ou em algo bem mais localizado, como uma grelha de churrasco. Completando esse arcabouço visual, a opção pelo monocromático, com um suave tom de lilás, faz todo o sentido para representar o momento da protagonista.

Por conta da parte gráfica, o álbum ganha pontos. Porém, na via inversa, o que deveria ser uma simbiose se torna uma dependência do roteiro. Com mais de 300 páginas, Aquele Verão não cativa a ponto de provocar nossa curiosidade pelo desfecho, caindo em uma cadência automática, ainda que agradável graças à arte.

Esqueça a descabida censura que a HQ sofreu nos EUA e não espere algo que mudará sua vida após o final. No entanto, se procura algo relaxante como um passeio na praia, essa leitura pode ser bem mais gratificante.

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