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Elevador 16 – Subindo!

Rodrigo De Oliveira saúda o sobrevivencialismo démodé em Elevador 16

O gênero de zumbis é revisitado quase que insistentemente. Atualmente poucas são as obras que conseguem trazer algum ineditismo ou relevância. Por isso, o livro de Rodrigo De Oliveira traz uma questão importante com Elevador 16: Quão relevante o brasileiro consegue tornar os mortos-vivos?

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Protocolarmente, à sinopse: Mariana, em seu trabalho, está descendo de elevador com mais 15 colegas quando de repente ele para entre dois andares. Ao mesmo tempo, dez pessoas que ali estão desmaiam subitamente enquanto Absinto, um planeta errante, está de passagem pelo Sistema Solar no ponto mais próximo da Terra. Quando aqueles que perderam a consciência abrem os olhos, elas não têm nenhuma consciência de humanidade, sequer de empatia pelo próximo. Apenas a fome insaciável de carne humana.

Elevador 16 foi lançado pela Faro Editorial em 2015 e contém 60 páginas.

NOTA: Como um spin-off de As Crônicas dos Mortos, Elevador 16 é uma obra independente da hexalogia original, podendo – e devendo – ser analisada separadamente.

É fato que a literatura de Rodrigo de Oliveira recicla diversos temas já apresentados à exaustão através das décadas. A gore de A Noite dos Mortos-Vivos e uma certa relação entre vivos e mortos, além das atitudes questionáveis de personagens de The Walking Dead, até apontar um dedo de Lars Von Trier com Melancolia (que continua um filme incrível). É possível enxergar outros pequenos pontos, mas me atenho a estes três exemplos pelo peso e, principalmente, qualidade, algo que esta obra a ser criticada é deficitária.

Isto significa que Elevador 16 é péssimo? Não, porém está aquém de qualquer possibilidade de leitura qualitativa. O livro, em essência, é apenas e tão somente uma ode à sobrevivência e a mesmice. Qualquer início de contexto psicológico é raso e quase inexistente, focando muito mais na ação desenfreada, quase plástica.

Textualmente, há um emaranhado de características Naturalistas e Realistas, mas é extremamente involuntário e quase despropositado. Rodrigo parece não conhecer ou, minimamente, não entender o impacto destas estéticas literárias. Isto faz de Elevador 16 focado somente em uma vertente – o frenético – permitindo algumas pequenas facilidades. Entretanto existe um apontamento aqui: Ser fácil não é ser bom, muito pelo contrário. Na maior parte do tempo, significa aderir à própria preguiça e às convenções literárias, junto de suas muletas narrativas. Rendido ao clichê do gênero como dinâmica de grupo, mortes previsíveis e certas personalidades aprofundadas de acordo com o quanto cada personagem durará na trama, diálogos artificiais e um ou outro roteirismo que desafia a Suspensão de Descrença do leitor. Tudo isso coopta o descartável, para não dizer que se aproxima do cafona, previsível e com aquela sensação de história regurgitada.

A protagonista Mariana, apesar de um pano de fundo inicialmente interessante, não passa da primeira camada. Mesmo na única vez que ela tem uma atitude condenável – o que é um alento ao leitor – o efeito é perdido. Não existe ponderações ou algum tipo de reverberação. Ela é simploriamente dicotômica e com pouco a agregar, nem mesmo suas relações ou consequência das mesmas ajudam. É o que é e pronto, o que aponta pobreza endêmica. Normalmente há sempre mais a dizer sobre os personagens principais, mas aqui há apenas isso. A falta de foco narrativo, sentido durante a história, também faz de Mariana uma vítima.

Algumas arestas precisam ser urgentemente resolvidas também. O título e a sinopse do livro estão em desacordo com o que realmente acontece na história. O elevador citado é apenas o começo e não seu meio e fim. A Apresentação (Em tempo: Um livro é composto por Apresentação, Conflito, Clímax e Desfecho) é feita desleixadamente com personagens já presentes vão sendo apresentados apenas depois que a ação é iniciada. Também não há uma definição clara de Conflito plenamente desenvolvido, assim como o Clímax é tão focado no micro que não causa muito. É episódico, mas apenas isso. É sem impacto, mas com muita preocupação em impactar. O Desfecho é feito às pressas, desprovido de peso e com pouco apelo dramático.

Ao trabalhar assuntos tão batidos e com pouca ou nenhuma sagacidade evidente, o que sobra neste livro? Seria apenas este um chamariz para a já citada hexalogia ou Rodrigo de Oliveira realmente busca dizer algo que honre a relevância construído por anos a fio em meios que a antecedem? Seja qual for o caso aqui, é evidente que é potencial quase inteiramente desperdiçado. É cru, por vezes desmerecido de atenção, até mesmo incauto.

A despeito de qualquer intenção de inspirar-se em boas obras do gênero, o autor aparenta muito mais querer pincelar partes boas de sua capacidade narrativa para chamar atenção, o que se torna insuficiente. É possível algum acerto nisso para uma leitura que não se leve à sério, com suas doses de deboche e ironias. Porém, ao se colocar no patamar de obra de horror-gore-sobre-a-crítica-social-da-massificação-da-burrice-e-coletividade-da-insanidade, a tentativa de elevar-se é muito mais do que repetitiva, mas também vazia e prepotente sem escopo para tal. Assim, o livro busca uma constante tentativa de se autopromover na tensão. É necessário dizer que consegue ocasionalmente, mas não com a força que gostaria ou sequer com a envergadura de suas aspirações. Toda vez que a literatura apela para zumbis apenas como objeto de catarse, algo substancial se perde e aqui não é diferente.

Enfim, às qualidades!

Após estas críticas contundentes, é importante dizer que nem tudo é um desastre ainda que as qualidades tenham pouca consistência. A leitura é ágil e mesmo com 60 páginas, pode ser lida em pouquíssimo tempo. A violência gráfica é eficiente, detalhada e quebra, pontualmente, alguma expectativa. E o mais importante: Elevador 16, mesmo dentro das previsibilidades inerentes a que está fundida, ainda parece querer surpreender novatos. E talvez esta seja a maior qualidade do livro: Causar uma boa impressão em quem ainda está adentrando neste universo metafórico e visceral. Por isso o horror, apesar de repetitivo, é divertido. Ver as mortes acontecendo, ou mesmo algumas outras coisas deixadas à revelia da imaginação do leitor também é de bom tom. No geral é uma porta de entrada, mas mais como objeto do que valia.

Isto posto, Elevador 16 é um livro que deixa a desejar. Rodrigo de Oliveira trabalha o básico e consegue entregar a média do protocolar, se aproximando perigosamente do fraco e generalista, o que é o pior que o gênero de horror com mortos-vivos pode oferecer. É sem surpresa, sem substância, sem essência ou relevância. Buscando emular algum brilhantismo com um aceno “Made in Brazil” que tenta impressionar, mas que também já que não era novidade desde 2015. Todavia, ainda traz o básico do básico que pode dar um pouco de prazer, ainda que seja esquecível depois. Não marca, não afeta, além de haver problemas textuais sérios em suas páginas que podem ser percebidos de longe e que se intensificam perto de seu final, ficando repetitivo e fácil de deduzir o desfecho. Diverte muito mais apenas pelo sadismo de ver até onde as coisas vão, inerente de quem gosta do filão do que por ter personalidade própria, o que é sempre lamentável. A zumbificação nunca ficou tão evidente na literatura.

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