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Shazam! – Quero Ter Super-Poderes!

Shazam! é um filme infanto-juvenil intencionalmente bobo – e funciona por isso

E a DC dá mais um passo – talvez seu mais longo e portentoso – em direção à “marvelização” de seus filmes. Não nos entenda mal – veja a nota dada ao filme, e perceba que isso não é uma crítica positiva ou negativa. É um fato. Shazam! tem tudo o que muita gente quer ver num filme da Marvel – agora na Distinta Concorrência. O processo já havia começado com Mulher-Maravilha – filme bastante prejudicado ainda pela mão indireta de Zack Snyder – continuou com Aquaman – um pipocão super-heróico genérico altamente funcional – e parece consolidar-se agora com o filme do diretor David F. Sandberg.

Crítica de Shazam!

Mas, já dando início aos louros do filme, a própria proposta do herói em questão funciona muito melhor – feitas as devidas concessões – para um teor mais infanto-juvenil de comédia. Afinal, a história do personagem nas HQ´s é um atestado do seu sucesso juntos aos pequenos. Em tempos idos, o gibi do então Capitão Marvel era um dos únicos capazes de fazer frente ao kriptoniano favorito da galera, justamente porque sua contraparte infantil permitia ao público-alvo da revista se identificar diretamente com ele. (Numa nota interessante, também cabe apontar que, durante todo o filme, o nome original do herói é solenemente ignorado, o que não deixa de ser uma gag em si). Ou seja, goste da abordagem ou não, existe uma certa fidelidade conceitual aqui.

A trama é uma adaptação mais aproximada da versão Novos 52 do personagem – um pouco mais distante do rip off original do Superman, um pouco mais chegado de todo lance mágico envolvendo o Vermelhão. Isso inclui o vilão do filme, Dr. Silvana (Mark Strong), que aqui deixa de ser somente o clássico cientista maluco para tornar-se um obcecado por magia. Na história, Billy Batson (Asher Angel) é um garoto orfão que tenta de todas as formas reencontrar sua mãe biológica. Logo após de ser adotado por (mais uma) família, Batson acaba convocado pelo mago Shazam (Djimon Hounsou, de A Lenda de Tarzan), que explica que seus poderes falham, e ele precisa passá-los adiante para que alguém possa combater os Sete Pecados Capitais, que se tornaram aliados e agora dão poder para Silvana.

Daí pra frente, o carro anda sozinho. Gostaríamos de poder afirmar grandes feitos ou apontar grandes méritos, mas Shazam!, para bem ou para mal, é um filme redondinho justamente porque não entrega mais do que promete – mas não decepciona no que se propõe. É uma comédia-pipoca com super-poderes, onde uma trama bastante previsível de amadurecimento e superação de limitações através do amor familiar e da amizade é permeada com gags da moda, envolvendo nerdismo de heróis, mídias sociais, etc, etc, etc. Pense num Quero Ser Grande atualizado, com collants e gente soltando raios pelas mãos.

Crítica de Shazam!

Manual prático de como fazer filmes de heróis

Essas gags podem ser realmente divertidas se o filme for assistido com o mais puro espírito alienado de entretenimento descartável, do qual os encapuzados parecem incapazes de escapar na tela grande. Este colunista, em particular, é bastante frustrado por isso – ainda nos perguntamos se um dia vamos ver uma adaptação dos super-heróis mais próxima de Moore e Busiek do que de Mark Millar. Mas sabemos que a resposta é: isso jamais vai acontecer, porque pensar sobre super-heróis envolve pensar, e pensar dói em Hollywood. Então, ficamos com algo que pelo menos não envolve pretensões religiosas bizarramente executadas como BvS.

E não pense que essa é uma interpretação ranzinza do filme. Tudo nele aponta diretamente para a aceitação da galhofa. Desde a escalação do elenco, com alguém mais conhecido pelos papéis cômicos como Zachary Levi no posto de protagonista, até sua apresentação nas imagens promocionais. Lembra-se que a roupa de Shazam parecia algo de mal-feita ou improvisada? Durante o filme, percebemos que a palhaçaria (escrito dessa forma, como a prática dos palhaços profissionais) é absolutamente intencional. Os músculo claramente de espuma e os trejeitos escancaradamente exagerados dão um quê de pantomima para o personagem. Em alguns momentos, como os pontuais elementos de “legitimação dramática” do filme, fica difícil fugir desse direcionamento, mas tal desequilíbrio é compreensível – uma parte do público-alvo desejado, o “fã de quadrinhos”, o que quer que isso signifique, também é contemplada, ao custo de uma coerência conceitual. Isso importa?

Claro que não! Porque o filme é meticulosamente calculado para agradar a garotada que vai assistir, aos pais que querem desligar o cérebro por uma hora e meia, e aos “fãs de quadrinhos” que vão poder ficar abobadamente caçando todos os easter-eggs que tanto amam no filme – e, acredite, tem uma cacetada deles. Ou seja, vai fazer um caminhão interminável de dinheiro, e – se ainda faltava alguma – é a prova cabal de que a DC/Warner, como empresa, faz absolutamente certo de copiar descaradamente a fórmula genérica para produção de filmes de super-herói do que um dia foi a “Casa das Ideias”. Se acha que estamos exagerando, assista aos créditos para ver um plágio sem-vergonha do encerramento de Homem-Aranha: De Volta ao Lar, além das duas cenas pós-créditos protocolares: a que mostra alguma coisinha “relevante” e outra completamente boba.

Crítica de Shazam!

Se dependesse única e exclusivamente da opinião particular desse colunista, o filme teria uma avaliação bem mais baixa. Mas é uma questão de expectativa. E, depois de quase uma década de ascensão dos filmes de heróis, onde estamos revendo os mesmos dois ou três roteiros há quase 30 filmes, só pensando sobre Marvel e DC, já aprendemos que não deve haver nenhuma. Portanto, quando conseguimos ao menos nos divertir com algumas piadinhas despretensiosas em um filme que não ofende ninguém, tá valendo.

Alguém vai se importar com Shazam! em um par de anos? Talvez, quando passar na Tela Quente ou na Sessão da Tarde. Com sorte, todo esse grande fenômeno dos heróis se encerra em breve. E talvez possamos ver abordagens dos super-heróis no cinema tão interessantes quanto suas melhores versões dos quadrinhos.

Até lá, se quiser tal coisa, basta dizer a palavra mágica: Quadrinhos!

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