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Mente Perversa – Guerra contra si próprio! (FORMIGA NA MOSTRA)

Longa alemão Mente Perversa aborda os conflitos internos de um pedófilo

Personagens pedófilos costumam ser retratados no cinema a partir da perspectiva da fuga de seus crimes. Homens e mulheres que escondem vestígios e encontram maneiras discretas de colocar em prática situações horrendas. Mas e quando o personagem não apenas tem noção do absurdo de seus pensamentos como luta contra eles numa batalha diária e desgastante? Mente Perversa (Kopfplatzen), primeiro longa do diretor Savas Ceviz, uma das atrações da 43ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, é um retrato triste e um tanto controverso de um homem em conflito com seus desejos.

Crítica de Mente Perversa

Markus (Max Riemelt, da série Sense8), é um bem-sucedido arquiteto com uma rotina tranquila: escritório, academia, jantar solitário no apartamento moderno. Mas, logo de entrada, o filme deixa claro o motivo do estilo misterioso e extremamente discreto do rapaz. Assistindo à televisão, Markus se depara com a imagem de um menino por volta de 10 anos, brincando sem camisa. Ele pega sua câmera fotográfica e lança um clique atrás do outro para registrar o corpo da criança. Em seu laboratório de revelação, descobrimos outras fotos no mesmo estilo. Estamos diante de um pedófilo. O clima de mistério sobre se Markus alguma vez abusou de um garoto se mantém por um bom tempo. Mas logo fica claro que estamos diante de um homem que luta contra suas vontades e se pune por isso.

O clichê dos treinos de boxe como forma de extravasar o desejo aparece algumas vezes, mas incomoda menos que a metáfora do lobo e seu jeito selvagem, animal que Markus observa no zoológico em várias cenas dispensáveis. Mente Perversa é mais inteligente quando acompanha a rotina de seu protagonista nos detalhes, como as idas ao parque aquático da cidade, onde ele fotografa meninos, sempre com o coração aos pulos. Mais que o medo de ser descoberto, Markus luta contra o ímpeto de ir além da observação. É nesses momentos que a câmera assume uma posição subjetiva e percorre os corpos das crianças, causando um desconforto no espectador. Essa opção da direção chega ao ponto de desconcentrar o espectador do drama de Markus, que vive a confusão de não conseguir evitar seguir garotos na rua, mas que desabafa com sofrimento com o próprio médico sobre seus impulsos.

Crítica de Mente Perversa

Tensão indigesta

Riemelt consegue imprimir verdade em sua atuação sem precisar de grandes arroubos cênicos. Assumir o desafio de encarar um personagem que já causa repulsa desde a leitura da sinopse demonstra uma coragem gigante, ainda mais para um nome com um grande grupo de fãs em função de seu trabalho numa série de sucesso. Quando o maior conflito do roteiro se apresenta, a chegada de uma vizinha com seu filho de nove anos, a tensão aumenta consideravelmente e Riemelt faz transição para essa fase crítica do personagem de forma sutil e inteligente, com pequenos gestos dotados de grande significado.

Mente Perversa tem consistência em sua abordagem de um tema tão complexo, mas comete alguns deslizes que atrapalham a imersão completa do público na trama. A facilidade com que a nova vizinha confia em Markus, ao ponto de deixar seu filho sozinho com ele por uma noite inteira horas depois de conhece-lo, soa como a necessidade de criar uma tensão entre o protagonista e uma criança à qualquer custo. Uma simples saída à rua de Markus já oferece mil tentações e deixa quem assiste sem fôlego à espera do que vai acontecer na próxima cena.

A pouca atenção dada ao processo de terapia de Markus faz Mente Perversa perder mais alguns pontos, já que explora pouco a busca de mudança do personagem. O clima pessimista sobre o destino do protagonista aumenta quanto mais nos aproximamos do final do filme, deixando uma atmosfera pesada quando surgem os créditos finais. A opção por não dar respostas fechadas é interessante, mas parece faltar algo após estarmos diante de um homem tão complexo como Markus durante uma hora e meia. Seu olhar e sua dor reverberam para além da sala de exibição. A dificuldade de encarar uma revisão é suprida pelas imagens frias que ficam em nossa memória e fazem Mente Perversa nos perseguir como um desejo proibido ou, no mínimo, indesejado.

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