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Os 3 infernais – O genérico feito de forma autoral!

Diretor Rob Zombie abre sua caixa de referências, mas não salva Os 3 infernais

Rob Zombie começou seu estrelato como membro fundador da banda de metal White Zombie. Dirigindo os videoclipes do grupo, conheceu sua esposa, Sheri Moon Zombie, que passaria a participar de todos os seus filmes. Seu primeiro longa-metragem custou 7 milhões de dólares, produzido em 2000 pela Universal Studios, A Casa dos 1000 corpos. O filme era autoral ao extremo, brincava com os subgêneros de exploitation e torture porn, apresentando ao público personagens inesquecíveis como Capitão Spaulding, a família Firefly e o Dr. Satan. Frases como “As mulheres Manson eram umas gostosas!” permeiam a obra, que tem uma cena memorável onde uma moça sequestrada é forçada a beijar o rosto de seu pai. Ou melhor, a pele esfolada dele sendo usada como um macacão por um dos personagens. Mas Universal Studios, pioneira de muitos filmes de terror que o diretor idolatra e aos quais faz referência nas suas produções, decidiu não lançar o filme. Rob Zombie então teve que comprar os direitos de volta e o lançou de forma independente em 2003, faturando o dobro do que gastou e gerando o que se tornou um merecido clássico cult. Agora, ele chega com Os 3 Infernais, terceira etapa da história.

Crítica de Os 3 Infernais

Antes disso, em 2005, Zombie lançou a sequência do filme, Os Rejeitados pelo Diabo, com uma mudança drástica de tom, criando um road movie de terror encapsulado em um filme policial, ainda ambientado na década de 70 e com tantas referências e influências que vale uma crítica feita por Quentin Tarantino. Os personagens evoluíram e ficaram menos caricatos, dando uma cara mais realista a toda a produção.

Frases como “Moleque, a próxima coisa que sair da sua boca é bom que seja digna do Mark Twain, porque será gravado na sua lápide”, um final incrível e o estilo direto e contundente do diretor levaram o filme a outro status cult, uma bilheteria respeitável, e credibilidade para o Zombie fazer dois filmes da franquia Halloween. Quinze anos e três filmes odiados pela crítica depois, apesar de As Senhoras de Salem, de 2012, ser visualmente arrebatador e muito criativo, o diretor nos apresenta mais uma sequência de sua propriedade original, contudo, uma que ninguém pediu.

Crítica de Os 3 Infernais

Libertem os três

Após sobreviverem um tiroteio com a polícia e passarem 10 anos na prisão, Otis (Bill Moseley) escapa da prisão com a ajuda de seu irmão Winslow (Richard Brake). Porém, durante a fuga, eles executam um líder do crime mexicano, Rondo (Danny Trejo) e organizam um plano para libertar sua irmã Baby (Sheri Moon Zombie). É quando fogem para o México, matando inúmeras pessoas pelo caminho e sendo forçados a encarar os Satãs Negros.

Bill Moseley, reprisa seu personagem Otis do primeiro e do segundo filme, dessa vez 100% entregue a uma imitação do Charles Manson na vida real. Jeff Daniel Phillips faz o diretor da prisão onde Baby cumpre sua pena, e parece cada vez mais um jovem Powers Boothe. O filme ainda tem uma participação da “rainha do grito” Dee Wallace e Richard Brake (o químico do excelente Mandy, de 2018) assumindo a terceira vaga do título, deixada pelo falecido Sid Haig, que conseguiu filmar somente uma diária para o filme devido a problemas de saúde, que levaram a sua morte em setembro desse ano. Sua é breve e dá um final ao personagem do Capitão Spaulding. Deixando mais de 50 anos de carreira em filmes e TV, sua última participação em um filme, felizmente, é memorável: “Sou só um palhaço, dançando para os pecados da humanidade.”

O primeiro ato de Os 3 Infernais encara como voltar atrás do final do filme anterior e reviver os personagens, mas é desleixado: o roteiro estabelece que os personagens tomaram mais de 20 tiros cada um e sobreviveram depois de uma longa recuperação. O que segue é uma sequência de referências a como o mundo reage ao trio durante uma década, incluindo uma campanha para que sejam libertados, fãs e teorias da conspiração. Infelizmente, toda essa construção é deixada de lado para uma história mais genérica, em que Baby e Otis encontram maneiras de escapar da prisão.

O segundo e terceiro ato são passo-a-passo o mesmo roteiro do segundo filme. Não havia necessidade dessa sequência, muito menos depois de quinze anos do último filme. O Sr. Zombie poderia ter feito um spin-off com o Dr. Satan, aproveitando suas outras criações originais da franquia. Afinal, o personagem teve uma breve cena excluída no segundo filme, em que ele está hospitalizado e arranca o pescoço de uma enfermeira interpretada pela Rosario Dawson. Quem brilha no longa é Sheri Moon, que volta a encarnar a atuação exagerada e insana da Baby do primeiro filme. É difícil não perceber a inspiração da Harlequina dos quadrinhos da DC no primeiro filme, e nesse fica ainda mais evidente, já que a atriz tem mais espaço para trabalhar, usando suas aulas de dublagem para uma performance corajosa.

Crítica de Os 3 Infernais

Entre o genérico e o autoral

O roteiro faz mais do mesmo dos outros filmes, com exceção de uma sequência divertida com o palhaço Sr. Calças Largas, provavelmente o pior palhaço da história da humanidade, que está no lugar errado, na hora errada. A direção perde a mão com excessos de câmera lenta e de closes, que deixam o filme claustrofóbico. As influências do diretor fazem o terceiro ato se passar no Dia dos Mortos, apresentando os traficantes chamados Satãs Negros usando máscaras de “luchador” com pentagramas na testa, mas acabam sendo uma ferramenta de roteiro para finalizar o filme, e não um vilão merecido. Zombie ainda faz um tributo forçado a Eraserhead (1977) e O Corcunda de Notre Dame (1923). A direção de arte faz o melhor que pode com o baixo orçamento, criando uma cidade mexicana e figurinos incríveis. Podiam abrir uma loja só para vender as divertidas camisetas dos filmes.

Os 3 Infernais ficou ficou apenas dias em cartaz nos cinemas dos EUA e já está disponível em Blu-ray desde o dia 15 dese mês, o que nos leva a ponderar sobre o milagre que deve ter acontecido para ele ser lançado nos cinemas brasileiros. Quem gosta do gênero vai assistir no cinema, não importa a nota da crítica. É fácil e fluido de assistir, e um alento para fãs de um terror mais pesado, que não seja sobre uma boneca possuída e cheio de sustos baratos.

As Senhoras de Salem pode ser um gosto adquirido, mas era original, autoral e não devia nada a ninguém. Os 3 Infernais alterna entre um filme genérico e idéias autorais mal exploradas, ou que foram minadas pelo baixo orçamento. Não é o pior filme do ano, mas é o desperdício de uma oportunidade de fazer algo relevante. Devia ter sido realizado dez anos antes, se é que deveria existir. Mas para filmes de Zombie, sempre temos que esperar esperar um pouco pra ver se viram cults.

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