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Em Chamas – Um sentimento visceral! (MOSTRA SP)

O filme Em Chamas constrói clima de incerteza através de metáforas

(Em Chamas estreia no circuito comercial em 15 de novembro, mas está na 42º Mostra Internacional de Cinema)

Minucioso em sua essência, centrado em personagens enigmáticos e com diversas metáforas. A ponto de nos fazer duvidar da realidade, entremeado com sequências longas e realistas que aumentam a tensão dos eventos, mesmo sem nos dar ideia do que pode acontecer e com uma incômoda intranquilidade no ar. Assim podemos definir o filme Em Chamas (Beoning), mais um belo exemplar do cinema sul-coreano para o público brasileiro apreciar.

Crítica do filme Em Chamas

(Confira também as críticas de outros filmes da Mostra – Guerra Fria e A Casa que Jack Construiu)

O filme é uma adaptação do conto “Queimar Celeiros”, presente no livro “O Elefante Desaparece”, de Haruki Murakami, mesmo autor de 1Q84. Conta a história do jovem aspirante a escritor Lee Jong-su (Ah-In Yoo) e seu relacionamento com a inconstante e sonhadora Shin Hae-mi (Jong-seo Jeon). A jovem pede a ele que olhe seu gato enquanto ela viaja pela Africa, onde conheçe Ben (Steven Yeun, de Okja), um homem misterioso que, mais tarde, revela ter um segredo sombrio.

O diretor Chang-dong Lee se preocupa em demonstrar com todos os detalhes a construção dos personagens, seu mundo e a criação da psique de cada um deles, até que a tensão se torne palpável. Tomadas longas e pontos de vista denotam a dedicação do diretor e sua equipe e sentimos nos olhares dos atores o vazio existente. As metáforas utilizadas, que inicialmente parecem inofensivas, criticam a incapacidade de relacionamento humano em um país que passa por crise econômica e política entre as ameaças do governo Trump ao seu vizinho Coreia do Norte. Essa incerteza se reflete na sociedade.

Jong-su, nosso personagem principal, prefere ser um espectador de sua própria vida do que agir, inclusive em sua vida íntima. Por conta disso, não podemos afirmar o que é real ou o fantasia a partir do momento em que Ben lhe confessa sobre seu pequeno segredo criminoso. Acompanhamos somente seu lado da história e a paranoia do protagonista vai se intensificando a cada momento. A atuação de Steven Yeun é incrível, criando um homem com tendências psicopatas, seduzindo o público com sua ambiguidade.

Crítica do filme Em Chamas

Intenso e hipnotizante, Em Chamas faz jus ao seu nome

Em Chamas se passa entre Seul e Paju, divisa com a Coréia do Norte, onde é possível ouvir os informes do país vizinho, impedindo o silêncio manter-se por muito tempo. É nesse ambiente em que a tensão vai se acumulando. O filme tem a capacidade de nos fazer duvidar do que há em tela todo o tempo, mergulhamos na paranoia proposta do roteiro. Algo de ameaçador paira no ar, com inúmeras pistas de que vai acontecer algo ruim em algum momento . Seja em forma de linguagem corporal ou através de conversas banais, nós, como espectadores, somos instigados a pensar sobre o que está realmente acontecendo. Não há jogadas de roteiro comuns ou respostas fáceis.

Sutil ao mesmo tempo impactante, o longa revela a dualidade do mundo em que vivemos, mostrando em uma simples cena, onde a câmera se afasta da janela do quarto em que o escritor está finalmente criando sua história, que esta foi mais uma entre as milhares que há na cidade. Quantos celeiros não são queimados?

Seu final é duro, despertando ali uma faísca tragicamente libertadora para o protagonista e para nós, que acompanhamos a sua jornada. Em Chamas é um filme extremamente detalhista, o que o torna pesado e lento, mas, quando menos esperamos, estamos imersos em seu mundo.

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