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Guerra Fria – Amor, elipses e leviandade política! (MOSTRA SP)

Amor nos tempos da Guerra Fria

(Guerra Fria tem estreia em circuito comercial prevista para fevereiro de 2019, mas está na 42º Mostra Internacional de Cinema)

O embate ideológico entre os Estados Unidos e União Soviética, com suas incursões em guerras locais com interesse particular em promover adesão aos seus respectivos blocos politico e econômico, entre 1947 e 1991, ficou mundialmente conhecido como Guerra Fria. Por sua vez, o novo filme do diretor polonês Pawel Pawlikowski (responsável pelos bons Estranha Obsessão e Ida) carrega exatamente no título a denominação do conflito (Zimna Wojna, no original) e tem como foco uma história de amor que atravessa quase duas décadas entre encontros e desencontros.

Crítica do filme Guerra Fria

Wiktor (Tomasz Kot) é um exímio compositor de um grupo artístico itinerante de Mazurca, na Polônia rural do pós-guerra. Ao visitar uma pequena cidade à procura de novos talentos para sua equipe, ele conhece Zula (Joanna Kulig, de Estranha Obsessão) mulher encantadora e de voz belíssima. O profissional, pouco a pouco, é tomado pelo amor. Devido ao regime autoritário na Polônia socialista, os amantes tentam fugir, mas o fracasso os leva à separação e, consequentemente, um longo caminho para percorrer e assim ficarem juntos.

Um dos principais deslizes de Pawlikowski é justamente na composição e transição das imagens no avançar da história. Aparentemente intencional, as elipses do diretor são abruptas e tomadas por intertítulos centrais que auxiliam didaticamente o espectador a se encontrar temporalmente na história. E é justamente esse o problema: os cortes secos impedem uma fluidez sensorial e nos afasta do realmente importa, o amor entre Wiktor e Zula.

(Sobre o cinema polonês, confira também a crítica de Afterimage)

Leviandade sobre a Guerra Fria

Outro ponto que incomoda bastante é o caráter tendencioso das questões políticas abordadas incessantemente pelo diretor. Em meio à destruição causada exatamente pelos dois blocos polarizados (EUA e URSS), Pawlikowski apenas denuncia os males causados pelo bloco socialista, o que fica evidente no epílogo a partir de uma frase colocada por um dos protagonistas da trama. Em todo momento, pontua-se por imagens ou diálogos a importância do ocidente em detrimento ao oriente e como o capitalismo é capaz de libertar os personagens de seus grilhões no mundo socialista.

E o problema é ainda maior. Composições de imagens dos trens em Varsóvia, o retrato da Juventude polaca, idolatria a Stálin, purificação étnica (mencionado por um dos personagens para resolver um problema na companhia artística) e prisões em campos são alguns exemplos da tentativa forçada, ao que me parece, de estabelecer comparações entre o período da ocupação nazista e a Polônia do pós-guerra. Uma maneira de pontuar uma situação que foi vivida pelos poloneses e que perdura mesmo após o término do conflito e a derrocada da Alemanha.

Pensando em atenuantes para Pawlikowski, talvez ele desejasse denunciar o quanto regimes totalitários destruíram e afundaram o país. Se for o caso, a intenção é boa, mas a execução é infeliz, já que exclui o Imperialismo estadunidense e isenta o capitalismo de qualquer sofrimento causado durante o período. Não há qualquer problema em um diretor se posicionar políticamente, desde que não comprometa ou omita fatos históricos, levando a uma pós-verdade política e negando toda uma historiografia mundial.

Crítica do filme Guerra Fria

Enfim, a Fotografia

É a fotografia um dos pontos fortíssimos de Guerra Fria. Integralmente em preto e branco para buscar um caráter documental, as lentes de Lukasz Zal (do ótimo Com Amor, Van Gogh) são utilizadas em diversos planos com profundidade de campo (menção honrosa ao quadro sobre quadro durante a cena do “matrimônio” na igreja). São estrategicamente posicionadas durante tensões psicológicas dos personagens, criando assim quadros claustrofóbicos e planos abertos para contemplar uma Europa em reconstrução. Nesse último apontamento, não alcança com a imagem a potencialidade do conceito, algo visto em Asas do Desejo, de Wim Wenders, por exemplo, mas é eficiente, pelo menos.

Na média subjetiva entre prós e contras, Guerra Fria é um bom filme. Infelizmente, acaba truncando a narrativa com seus erros de elipses e derrapa na composição histórica, mas é bem sucedido em alguns momentos. Entre acertos e erros, um ponto para Pawlikowski?

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