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A Casa Que Jack Construiu – Exploitation “de arte”! (MOSTRA SP)

Novo trabalho de Lars von Trier, A Casa Que Jack Construiu mistura violência e poesia em doses desequilibradas

(A Casa Que Jack Construiu tem estreia em circuito comercial dia 1º de novembro, mas está na 42ª Mostra Internacional de Cinema)

Não se engane com o título deste texto, caro leitor. Quem vos escreve não é nem um pouco à favor do termo “filme de arte”. Se o cinema é a sétima delas, mesmo o filme mais preocupado com diversão do que com conteúdo artístico merece ser visto e respeitado. Após esta explicação, podemos dizer que A Casa que Jack Construiu (The House That Jack Built), novo filme do dinamarquês Lars von Trier (Ninfomaníaca Vol. 1 e sua continuaçãoserá tachado de filme de arte por muitos espectadores. Mas a sua melhor face bebe na fonte de um gênero que nem sempre é visto com bons olhos.

Crítica de A Casa Que Jack Construiu, de Lars Von Trier

Contar a história de um serial killer parece algo que combina com Von Trier. Não é de hoje que violência é um dos seus temas preferidos na hora de criar um roteiro e ele ainda carrega uma fama de temperamental e pouco educado. Tanto que se fez presente no nosso FormigaCast sobre Diretores Porra-Louca. Mas a trama, que gira em torno do engenheiro Jack (Matt Dillon) narrando seus assassinatos para o poeta Virgílio (Bruno Ganz), não conquista o público justamente por deixar o sangue e as torturas como coadjuvantes de luxo.

Logo nas primeiras sequências, onde Jack e sua van vermelha encontram uma mulher, interpretada por Uma Thurman, em apuros por conta de um problema no carro, temos a impressão de estarmos diante de um exemplar do cinema exploitation, aquele que não poupa nudez, sanguinolência, tripas e afins. Ao matar pela primeira vez, Jack é tomado por um desejo incontrolável de fazer mais vítimas e tornar seus crimes obras de arte. Literalmente, já que o moço monta cenas com os corpos para fazer fotografias que, pelo seu olhar, mereciam estar em um museu. Não é novidade misturar morte e poesia, mas neste caso é a narrativa desta obsessão de Jack que faz o filme descambar para a chatice.

Crítica de A Casa Que Jack Construiu, de Lars Von Trier

Cenas lindas…e nada mais

Utilizar um sujeito de aparência comum para dar voz e corpo a um serial killer adepto à bizarrices macabras, como congelar suas vítimas em nome de uma pose que ele julga perfeita, já se fez presente nas telas em produções de baixo orçamento e alto talento como O Maníaco, de William Lustig, e Henry – Retrato de Um Assassino, de John McNaughton. A diferença destes dois exemplares dos anos 1980 para A Casa Que Jack Construiu é que Lars von Trier interrompe as boas sequências de morte para colocar imagens de arquivo que ilustram os devaneios artísticos do protagonista, reforçados pelas perguntas de Virgílio (sim, aquele mesmo da Eneida), que mais parece um psicanalista que um poeta.

A tal casa referenciada no título é um projeto nunca concretizado do protagonista, que vira o mote para a conclusão do filme e sua falsa cena final. Sim, porque o diretor não se contentou em dividir o filme em capítulos, cada um focado em um incidente da vida de Jack, e criou um epílogo para tornar literal a metáfora da jornada do protagonista. É o momento das cenas mais lindas surgirem na tela, referenciando pinturas famosas e trechos de livros. Um encanto para o olhar, mas que não acrescenta nada de relevante para a história. A não ser para nos lembrar que estamos assistindo uma obra de um cínico de marca maior.

Ser provocador está longe de ser um defeito, porém, Von Trier leva isso longe demais e sua crítica para a sociedade e seus reais desejos já não causa um grande impacto, assim como sua auto-referenciação, que chega a provocar risos na plateia. Ele ama a si mesmo e seus filmes, não há dúvidas. Não disfarçar esse amor todo pode ser um ponto extra para sua personalidade, mas não para sua obra.

Crítica de A Casa Que Jack Construiu, de Lars Von Trier

O elenco se salva graças a participação de Bruno Ganz e Uma Thurman, já que Matt Dillon continua com a mesma expressão dos tempos de Drugstore Cowboy, com algumas rugas a mais. A cada novo incidente que surge, o ator parece criar um novo Jack, transformando cada um dos capítulos do longo em uma espécie de esquetes. Há os que irão defender estas mudanças, afirmando que um autêntico serial killer tem muitas faces. Matt Dillon até tenta, mas não convence em nenhuma.

Se a maturidade demora a chegar para alguns cineastas, ela também pode se perder pelo caminho e este parece o caso de Lars von Trier. Assistir A Casa Que Jack Construiu faz tremer as bases, até então sólidas, de um artista que já deu aos cinéfilos obras incríveis como Ondas do Destino, Dançando no Escuro e Dogville. O jeito é correr para a nossa casa e rever essas pérolas.

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