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Os Assassinos – Revisitando o clássico de Don Siegel!

Os Assassinos e a polêmica em torno das adaptações

Quando o mercado cinematográfico é invadido por adaptações literárias, seja de clássicos ou novos sucessos de venda e crítica, sempre surge a dúvida sobre onde andam as ideias originais. Temos vários exemplos na história do cinema de livros que viraram ótimos filmes e, em comum, eles costumam ter a pouca preocupação com as linhas escritas que os inspiraram. Os Assassinos (The Killers), dirigido por Don Siegel e lançado em 1964, poderia ser encaixado neste estilo, mas o diretor faz com que ele dê um passo à frente.

Os Assassinos (Don Siegel, 1964)

Lee Marvin não poderia estar mais à vontade no papel…

Já na apresentação dos créditos, a informação é clara: Os Assassinos é inspirado num conto de Ernest Hemingway. Dar ao espectador este dado é a primeira malandragem de Siegel. O filme só possui do conto o seu ponto de partida, que é a história de dois matadores de aluguel impactados com a reação de uma de suas vítimas. O fato de um homem não reagir diante de uma arma apontada para seu peito inquieta quem recebeu uma bolada de dinheiro para atravessar aquele corpo à bala. E é o que temos de Hemingway impresso na película. Nomes, diálogos, ritmo e trama são únicos, frutos das mentes de Siegel e do roteirista Gene L. Coon. Este último, aliás, teve uma carreira longa na TV e escreveu até para Star Trek: A Série Clássica.

Aqui vale uma pausa para uma historinha. Don Siegel havia recebido um convite para realizar uma adaptação fiel do conto em 1946, mas não pode aceitar por conta de seu contrato com o estúdio Warner. O resultado foi que Robert Siodmak assumiu o posto e Os Assassinos com Burt Lancaster e Ava Gardner agradou público e crítica por sua fidelidade à obra que lhe deu origem. Siegel, comportando-se como um garotinho mimado, resolveu que ia levar para as telas não o conto, mas um ponto de vista dentro do conto. Não satisfeito em mudar o olhar que guia a trama, ele também aboliu o universo do submundo do boxe e trouxe a atmosfera das corridas de carro, assunto mais em voga na época que as luvas e os ringues.

Teria Hemingway se revirado no túmulo ao ver o filme de Siegel? Não temos como comprovar, mas a fama de rebelde do autor de As Neves do Kilimanjaro é um sinal de que ele iria se divertir na sala de exibição. Os Assassinos tem a marca de Siegel em cada plano e isso significa que não há espaço para firulas cênicas ou mortes dramáticas e demoradas. É tiro certeiro como bala que já cheira a sangue, já dizia a Nação Zumbi. Há uma poesia viril desde a cena de abertura, onde os óculos escuros de Lee (Clu Gulager) refletem o rosto de Charlie Strom, interpretado com precisão e charme por Lee Marvin. Conhecido por dar vida a personagens durões, o ator intercala a frieza de matador com as dúvidas de um homem de meia-idade que repensa a própria vida diante de uma vítima que não reage. Mata à sangue frio, mas não consegue esquecer os olhos que sequer piscaram diante de sua arma.

Os Assassinos (Don Siegel, 1964)

Será que alguém imaginou que um dos atores deste elenco, um tal de Ronald Reagan, seria presidente dezesseis anos depois?

Siegel, o romântico

Aliás, são os olhos de John Cassavetes, o intérprete do piloto Johnny North, que não saem da cabeça de Charlie. Um dos muitos olhares de Os Assassinos, que nos perseguem, mesmo quando não estamos diante deles. Siegel filma o personagem de costas e podemos sentir a apreensão. Não que o tom de voz não ajude, mas não mostrar os olhos confusos de Lee Marvin ao telefone deixa tudo mais apreensivo. Estamos presos àquela câmera, que filma um beijo sem precisar dar close nos lábios de Angie Dickinson. O cheiro do desejo importa mais que o toque em si. Dickinson exala sedução e se mostra um perigo desde sua primeira aparição. Só os homens à sua volta não percebem o veneno e é isso que move a história. No fundo, é em torno de sua personagem, Sheila, que tudo gira. É ela a assassina, provocadora do tipo de morte mais triste que existe: a morte da alma do homem apaixonado. Siegel, quem diria, é um romântico.

Os Assassinos, assim como outros exemplares policiais das décadas de 1960 e 70, como A Quadrilha, de John Flynn, À Queima-Roupa, de John Boorman (também protagonizado por Lee Marvin) e Um Lance no Escuro, de Arthur Penn, é dotado de uma franqueza e um apuro visual que há algum tempo anda sumido das telonas. Parece que vivemos tempos onde um tiros não podem ser disparados sem altos efeitos ou ângulos insólitos cujo valor está acima do conteúdo da cena. Esta que vos escreve, por mais que goste de uma inovação, ainda prefere Lee Marvin e sua pistola com silenciador encarando a câmera. Um tiro que crava fundo no peito.

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