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Memory: The Origins of Alien – No Espaço, sua genialidade pode ser ouvida!

Documentário Memory: The Origins of Alien é um deleite para os amantes do clássico de Ridley Scott

O que acontece quando mentes inquietas e muito à frente de seus tempos são reunidas para um propósito? Claro que a resposta pode variar, mas sempre caberá à ela qualquer adjetivo que remeta à grandiosidade. No final da década de 60, um grupo dessas mentes, estava finalmente alcançando o clímax de uma jornada científica sacrificante, fazendo o homem pisar em nosso satélite natural. O sonho de Georges Méliès (assim como da humanidade) saiu das telas de cinema e ganhou a realidade. 
Se era possível que as fantasias da sétima arte pudessem acontecer em nossas vidas, até mesmo em uma fronteira antes quase inalcançável como o espaço, por que não explorá-las mais em uma década tão favorável à essa temática? E assim, centenas de mentes inquietas e brilhantes tomaram a imensidão negra do cosmos como cenário para suas histórias. Com o passar dos anos, nessa região tão infinita e misteriosa, que agora abrigava até duelos de sabres de luz, ainda havia uma essência a ser explorada. Assim, em 1979, a sobrevivência impiedosa e sufocante na “claustrofobia” do espaço foi personificada em Alien, o Oitavo Passageiro. O resto é história.
Memory: The Origins of Alien
 
Comemoramos 40 anos da importância dessa obra no ano passado, o que certamente nos traria alguma novidade a respeito desse marco. O que não poderíamos imaginar é que o documentário Memory: The Origins of Alien seria uma história de origem tão respeitosa e necessária à franquia nos tempos atuais. Depois de Prometheus e Covenant, Memory nos trás mais relevância como capítulo de origem, não contando como nasceram os xenomorphos dentro da mitologia, mas sim a história real de como surgiram na mente de gênios artísticos. 

O primeiro passo

 Por que não  começamos pela peça chave desse quebra-cabeça? A figura de Dan O’Bannon, roteirista e responsável pela história original, é trazida até nós por sua viúva, Diane. Ela nos conta sobre a infância rural e isolada de Dan, passada em uma fazenda do Missouri, sem acesso à TV e, tendo como única janela para o mundo, caixas de livros que sua mãe trazia regularmente. Ele era um adorador de fantasia e ficção científica, com predileção fortíssima a Lovecraft e passava muito tempo também na loja de curiosidades de seu pai. Além de nos deixar clara essa predisposição às histórias bizarras e fantásticas, é acrescida a receita de como funcionava a mente de Dan. Sua grande aptidão de trazer suas criaturas ao papel sempre que vinham em sua mente, não por coincidência, a maior parte delas muito parecidas com insetos, um grande medo de sua infância, mas também um objeto de curiosidade. 
 
O documentário segue nos mostrando a empreitada de Dan na comédia de terror Dark Star, a qual escreveu, atuou e ajudou a dirigir ao lado de ninguém menos que John Carpenter, sem ter recebido os créditos da co-direção. Dan aparece contando sobre tudo o que lhe incomodava no filme, depoimento este que Memory toma emprestado de outro documentário, The Beast Within: The Making of Alien, de 2003. Por conta de Dark Star, Jodorowsky convidou O’Bannon para seu ambicioso projeto de trazer Duna às telonas. Nessa empreitada que não foi para frente, Dan conheceu o pintor e designer suíço H.R. Giger, uma mente fundamental no projeto de Alien que discutiremos em breve.
Memory: The Origins of Alien
 Memory é um roteiro que Dan havia escrito, contando em 29 páginas o começo de uma história que depois viria a ser os primeiros minutos de Alien. Com a ajuda do amigo Ronald Shusett, futuro colaborador do filme, ele desenvolveu a história, mas a chave para ir além da página 29 veio de uma inspiração incomum. O paradigma era saber como inserir a criatura dentro da nave no desenrolar dos fatos. Eis que um tormento na vida de Dan, sua doença intestinal, juntamente com o conceito dos ciclos de vida de alguns insetos parasitas que implantam suas larvas em outros organismos, o trouxe a conceitos fundamentais. Estamos falando do Facehugger e do Chestburster. Aos íntimos da franquia, peço paciência pois vou explicar essas marcas registradas do universo Alien, mas por um bom motivo. Facehugger é a forma aracnídea primária do Alien, que sai do ovo e agarra o hospedeiro, introduzindo forçosamente na garganta do hospedeiro um tubo que podemos considerar……fálico!
Com o embrião já depositado na vítima pelo tubo, ele absorverá as caraterísticas físicas da mesma para crescer, mas precisará se auto…..”parir”. Chestbuster é o momento que o Alien bebê rompe o silêncio de sua existência parasita e arromba o peito do hospedeiro por dentro, dando as caras ao mundo. Se hoje os fãs já estão acostumados com esses e outros ingredientes da franquia, certamente em 79 foi um choque assistir essas cenas pela primeira vez. Aqui, não reside somente o fascínio por ciclos de vida invasores de corpos que Dan O’Bannon e Ronald Shusett compartilhavam, mas o subtexto constante de estupro e toda carga sexual que o filme sugere, tem a assinatura de um gênio que já citamos aqui: H.R.Giger.

Giger

 1º de Julho de 1977, data de uma carta de Dan O’Bannon endereçada a Giger. Diane a lê no documentário e trata-se de um convite de Dan ao artista suíço para ingressar na pré-produção de Alien nos estúdios da Brandywine Productions. A história que um dia fora denominada Memory, depois Space Beast, finalmente havia se tornado Alien e ganharia as telas, mas com o desejo por parte de Dan, dos produtores e do então diretor Walter Hill, de contar com o talento de Giger para vários designs específicos. H.R.Giger tem seu trabalho referenciado no documentário basicamente pelo artbook Necronomicon, mostrando páginas e páginas de uma arte carregada de simbologia única. Assim, o xenomorpho e outras imagens do filme saem das ilustrações futuristas, erotizadas, biomecânicas, mitológicas e certamente perturbadoras da obra de Giger, profundamente enraizadas também em seu fascínio pelo Egito antigo. 
 
A fórmula do sucesso estava bem servida com Dan e Giger, mas que tal se acrescentássemos mais um ingrediente? Memory deixa Ben Mankiewicz, apresentador da Turner Classic Movies, nos contar, com um ar irônico, talvez a pior decisão que o então diretor do filme havia tomado. A pré-produção com a Fox e a Brandywine estava a todo vapor e Walter Hill ligou dizendo que desistiria do projeto para dirigir Southern Comfort. “Não era um filme ruim, mas não era Alien“, nas palavras de Ben. Nesse cenário, seria difícil achar uma mente que conseguisse combinar esforços criativos com Giger e Dan? Não meus caros! O que é do bicho, o homem não come, mas pode dirigir. Eis o homem, Ridley Scott se apresenta ao cargo da direção para dirigir o bichão Xenomorpho, já sentando na janelinha e criando os storyboards. Dan apresentou Necronomicon a Ridley. Achar a imagem da criatura naquelas páginas foi tão marcante que parecia algo já pronto para o filme. A figura humanoide biomecânica com a cabeça alongada era a ideia certa para o Alien e Ridley bateu na mesa para ter seu Xnomorpho com aquele design. 
 
Memory: The Origins of Alien
Esses três mentes juntas trouxeram Alien para uma atmosfera completamente única e até então nunca vista para filmes de alienígenas. Ridley era o que o filme precisava para deslanchar de vez. Presente em todas as decisões, apoiou as decisões de Dan para o projeto, filmou de forma a criar uma fotografia claustrofóbica e desenvolveu uma atmosfera de mistério tangível para o público.
 
Em um dos depoimentos de Roger Christian, diretor de arte do projeto, ele repetiu as palavras de Ridley sobre a cena mais importante do filme: “Essa era a cena de destaque que poderia afirmar ou desmoronar o filme”. Estamos falando da cena do nascimento da criatura, a Chestburster e Ridely sabia para quem passar essa missão. Giger deveria absorver e adaptar para o conceito da cena, uma pintura em que o diretor enxergou um potencial simbólico muito expressivo. Fury de Francis Bacon, assim como a obra desse artista, era carregada de um tormento e uma revolta particular. O pintor era fascinado por bocas, foi expulso de casa quando seu pai descobriu sua homossexualidade e suas pinturas eram um grito de desabafo.  Fury era uma crucificação em que a vítima expurgava a revolta contra seu criador vociferando com sua bocarra. A imagem foi poderosa o suficiente para inspirar o trabalho visual de Giger a funcionar em perfeita sincronia com o a dor real que Dan emprestou ao roteiro, sob o olhar vigilante da direção de Scott. O resultado é uma das cenas mais surpreendentes do cinema.
 
Memory não é só um filme atual por seu lançamento recente, mas também por ter como objeto de análise, uma obra cinematográfica única e atemporal. Todos os relatos e estudos apresentados no documentário corroboram a percepção de que Alien era uma história fadada ao sucesso, que aceitou navegar na mente de tantos artistas brilhantes, absorvendo audácia, personalidade, para depois explodir o peito deles e conquistar o sucesso. Todos os envolvidos eram profissionais de extrema importância, mas novamente, podemos dar fazer uso das palavras de Diane concluindo: “A tríplice de Dan O’Bannon, Ridley Scott e Hans Rudolf Giger foi o presente dos deuses.”
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