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John Carpenter: Uma carreira que destaca o Terror!

John Carpenter merece figurar entre os maiores diretores do terror

Quando se fala em diretores de terror, sempre vem à cabeça nomes como Dario Argento (Suspiria, Prelúdio para Matar), Wes Craven, Mario Bava (Seis Mulheres Para o Assassino, Banho de Sangue, Black Sabbath), George Romero (Martin), etc… Mas sempre devemos lembrar de incluir John Carpenter entre os principais nomes do gênero, ou mesmo do cinema norte-americano. Carpenter é um tipo de diretor que quase não se vê mais nos dias de hoje. Mas quais as características que o tornam de extrema relevância para o cinema e terror? Vamos por partes:

Filmes John Carpenter

Objetividade nos temas

Como podemos perceber em Eles Vivem, por exemplo, uma das principais características do diretor é ir direto ao ponto. Olhando por esse ângulo, a maioria dos seus filmes traz uma situação de risco envolvendo um determinado grupo de pessoas. Carpenter apresenta de maneira clara e sucinta os seus protagonistas e qual a situação de conflito. Sem deixar muito claro todo o conceito por trás, mas sempre ressaltando as consequências caso os heróis não consigam lidar com o problema. 

Os Aventureiros do Bairro Proibido leva sua trama desta forma também. A situação ou toda a lógica interna deste universo não é totalmente explicada, mas o caminhoneiro Jack Burton (Kurt Russell) precisa dar um fim em Lo Pan (James Hong) antes que ele complete seu feitiço, ou o mundo pagará caro. No fim, não é apenas isso que importa? Apenas saber qual é a situação e as consequências? Como Carpenter é bem direto, o espectador sente a tensão. Quem não ficou tenso com a situação de O Enigma de Outro Mundo ou de Halloween? Isso já mostra um grande domínio na condução narrativa.

Personagens excluídos da sociedade

A maioria dos personagens de Carpenter, principalmente os protagonistas, são os renegados da sociedade, o que os torna perfeitos para a situação criada. Isso já é uma herança dos westerns e ele retoma isso em sua obra. O principal exemplo disso é o herói de Fuga de Nova York, Snake Plissken (Kurt Russel). Um sujeito sujo, frio e violento que tem um passado sombrio, mas o sujeito certo para a missão justamente por isso. A bomba em seu organismo, que explodirá caso ele tente fugir ou fracasse na missão, é motivação suficiente. Não à toa, o responsável pela logística por trás de Snake é interpretado por Lee Van Cleef, o eterno Mau de Três Homens em Conflito. Mais uma referência, hein?

Filmes John Carpenter

Halloween (1978)

Construção da tensão

Poucos diretores sabem criar tensão como Carpenter. Dificilmente ele apela para os irritantes jump scares, porque há um trabalho preciso da direção em construir o suspense. Vamos usar como exemplo Halloween: para o cinema atual é um filme muito lento, pois aparentemente nada acontece até o clímax. Mas as aparências enganam, já que, durante todo o filme, a narrativa trabalha com a sugestão, apoiada na trilha sonora e no trabalho de câmera. Nunca sabemos realmente onde Michael Myers está.

Falando em “lentidão”, o próprio Enigma de Outro Mundo exibe o mesmo cuidado. Mesmo com as aparições pontuais dos monstros, há uma preocupação do diretor em deixar clara a geografia da estação, além de demonstrar o isolamento dos personagens no meio do Ártico. Para isso, os planos e os movimentos de câmera dentro do local, criam a sensação de claustrofobia, enquanto os mais abertos, no meio da neve, sempre mostram os personagens pequenos em meio à paisagem fria.

Essa construção mostra um refinamento do diretor. A cadência pode ser lenta, mas funciona, porque na hora da ação esses elementos tornam as cenas mais aterrorizantes e tensas graças a isso. É o que mostra o domínio do diretor sobre o seu público. Outro grande exemplo dessa segurança narrativa é Á Beira da Loucura, sua homenagem ao escritor H.P. Lovecraft, deixando o espectador experimentar um pouco da loucura do protagonista vivido por Sam Neil.

Filmes John Carpenter

À Beira da Loucura (1994)

Violência apenas quando necessária

John Carpenter é um diretor que sabe fazer bem a transição do terror para o horror. Só pra deixar clara a diferença entre esses gêneros, Terror é o que provoca medo e tensão no público, enquanto Horror é o que causa repulsa direta. Praticamente, hoje não existe mais distinção entre eles, ficando tudo mesclado na classificação de Terror. Mesmo como um diretor diretamente associado ao gênero, Carpenter só apela para a violência mais explicita quando é realmente necessário.

Como o já citado Enigma de Outro Mundo, um filme grotesco, nojento e extremamente violento, essa característica serve para aumentar o terror, não para forçar o espectador a ter medo, já que há uma construção narrativa por trás disso. Outros filmes, como Príncipe das Sombras e Vampiros, podem servir como referência desta característica do diretor. O primeiro por mostrar as pessoas perdendo o controle e exibindo seu lado mais selvagem e irracional, quase como se fosse um filme de zumbi. Enquanto o segundo….Bom, o nome já é auto explicativo e os vampiros desse filme não são do tipo romântico ou sutil. Atacam, principalmente, a veia perto da virilha e os mercenários pagos para caçá-los são tão violentos quanto. Mais uma prova que Carpenter sabe lidar com essas sutilezas e diferenciações do gênero.

Filmes John Carpenter

O Enigma de Outro Mundo (1982)

Sem medo de ser B

Outro mérito nesta filmografia é não ter medo de assumir que os filmes tem orçamento pequeno, já que ele mesmo nunca quis ser um funcionário da indústria, apesar de alguns trabalhos nessa condição. Christine – O Carro Assassino é o exemplar mais facilmente categorizado como Terror B. Apesar do bom gosto (a escolha dos planos, o carro lindo e os planos bem feitos), ele entra nesse quesito por conta da pobreza das suas atuações, principalmente o protagonista vivido por Keith Gordon, com um festival bizarro de caras e bocas enquanto enlouquece por conta do carro. Fuga de Los Angeles também mostra esse lado B de Carpenter, já que parece ser uma mera sátira do primeiro filme. Qualquer duvida, é só ver a cena em que Kurt Russel e Peter Fonda surfam em uma onda gigante, o efeito é tão feio que chega a dar vergonha.

Enfim, essas são as principais características de John Carpenter, servindo como argumento para lembrá-lo como um dos maiores diretores de terror da história. Sempre considerando, é claro, que ele fez outros filmes de gêneros diferentes, como o romance sci-fi Starman O Homem das Estrelas, seu único filme com uma indicação ao Oscar (Melhor Ator para Jeff Bridges), o já citado Aventureiros do Bairro Proibido, uma aventura juvenil, e a comédia Memórias de Um Homem Invisível, esse o seu maior projeto de estúdio.

Dificilmente Carpenter voltará a dirigir. Seu último filme foi Aterrorizada, lançado em 2010. Por conta da sua personalidade forte, seu espírito independente e sua ousadia, ele não seria bem vindo ao atual sistema norte-americano, que não permitiria certas cenas. Isso é triste, pois é um dos diretores mais originais de sua geração.

P.S: Se possível escutem as trilhas criadas por John Carpenter. Mesmo simples, são muito eficientes em termos de construção de atmosfera. E divirtam-se com o clipe de Aventureiros do Bairro Proibido. Carpenter é o baixista e vocalista da banda…

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