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O 11 de Setembro referenciado nas séries da Marvel/Netflix!

O 11 de setembro marcou a História americana, evidentemente, também influenciando a própria cultura pop, seja cinema, música e – claro – quadrinhos. Antes de entrarmos diretamente no assunto Marvel/Netflix, vamos comentar um pouco esse impacto na Nona Arte. Neste campo específico, foi mais marcante, principalmente em termos do frenesi e do calor das conseqüências do colapso das duas torres naquele dia. Em uma decisão considerada polêmica por muitos, o 11 de setembro faria parte do Universo Marvel, e chegaria até mesmo a mostrar determinados vilões emocionados com o terror acontecido naquele fatídico dia. Doutor Destino, Magneto e Wilson Fisk se reuniriam, sendo que o Ditador da Latvéria até mesmo chora em relação às vítimas. Logo ele, um ditador e cientista louco, que não mede esforços em sacrificar vidas para chegar aos seus objetivos!

É óbvio! A Marvel atropelaria sua lógica em nome de homenagens, de tentar compreender e confortar a população para a tragédia daquele dia. Contudo, o atentado é bem pouco referenciado, aliás, como referenciar um evento terrorista frente a tantas invasões alienígenas, ataques de mutantes terroristas, etc? Não por coincidência, o melhor quadrinho a abordar o evento real frontalmente é Ex Machina, em que o protagonista consegue impedir o segundo atentado, salvando uma das torres. Melhor que a bagunça cronológica marvelística.

11 de Setembro - Marvel/Netflix

Homem-Aranha encara o desastre da vida real!

O caso seria parte de diversos filmes, como dramas (Reine Sobre Mim, 11 de setembro, W.), ação e espionagem (Cassino Royale, Operação Sombra- Jack Ryan), documentários (Fahrenheit 09/11), etc. Mas observa-se que este atentado não causou o ressurgimento de filmes com heróis anabolizados, como havia nos anos 80, e seria algo esperado tal reinício com atores-brucuts como Jason Statham, Scott Adkins e outros, visto que a gestão da época era de George W. Bush, um presidente extremamente conservador e que deu guarida legal à tortura, tal qual como Ronald Reagan nos anos 80. Ironicamente, foram os filmes de super-heróis que surgiram com força na esteira do 11 de setembro. Por que este tipo de produção ganhou força após os atentados? Deve-se ter em mente que já havia um certo esforço em torno de filmes de super-herói antes da queda do WTC, como é o fato de X-Men (2000), e a produção do filme Homem-Aranha já estava finalizada, sem mencionar séries como Smallville, iniciada no primeiro semestre de 2001.

Em um artigo interessante, o autor Charlie Jane Anders argumenta que os filmes de super-heróis ganharam mais força a partir da queda das torres gêmeas, afirmando que as razões para o sucesso deste tipo de gênero seriam:

  • Super-heróis regularmente confrontam males que são organizados, mas difíceis de identificar, muito semelhantes aos terroristas, que não são parte de nenhuma nação.
  • Elas são histórias em que o bem vence o mal, muito por conta do 11 de setembro ter impulsionado uma demanda maior por histórias leves sobre heróis e vilões, porque as pessoas precisavam de uma nova realidade pós-atentados.
  • Filmes de super-heróis nos permitem falar, embora muito obliquamente, sobre o poder dos EUA e a moralidade de usar métodos extremos para lidar com inimigos desafiadores e escorregadios.

Deve-se notar que os filmes de super-heróis falam um pouco sobre o mundo após o colapso das torres. Homem de Ferro (2008) se passa no Afeganistão, Capitão América: Soldado Invernal (2014) discute sobre a comunidade da informação, e por aí vai. Mas, certamente, a produção que trouxe o ápice do sucesso do Universo Marvel nas telas foi Os Vingadores (2012). A película que inaugurou, para a cinematografia atual, o conceito de Universo Compartilhado, isto é, personagens de diferentes filmes ou mesmo outros espaços de mídia, se encontrando em uma mesma obra cinematográfica. Não somente isto: utilizou personagens nível B dentro do Universo Quadrinístico da Marvel, como o Homem de Ferro, Capitão América, Thor, Hulk, formando um mesmo espaço compartilhado em diversas produções, resultando no filme que, até 2015, seria a terceira maior bilheteria do cinema.

Mais do que isto: o filme da super equipe, seguindo a lógica que Anders disse, é uma grande obra catártica. O ponto alto é a invasão dos Chitauri, alienígenas desejosos de conquistar o mundo graças a Loki, irmão de Thor. Nesta parte do filme, sem pestanejar ou lamentos, o diretor Joss Whedon mostra prédios sendo derrubados, escombros, pessoas feridas e até mesmo mortas. É praticamente uma recriação do 11 de setembro, recordando em detalhes todas as cenas, tudo que ocorrera naquele fatídico dia, mas com uma enorme diferença: os mocinhos estavam lá, para impedir que um  Mal maior acontecesse, bem como para pegar os vilões que perpetraram aquele ato.

11 de Setembro - Marvel/Netflix

Os Vingadores e seu próprio 11 de setembro nas telas!

Os Vingadores é perfeito: Os heróis, encabeçados – vejam só! – pelo Capitão América, enfrentam uma ameaça, um tipo de inimigo, sem a necessidade de lidar com estereótipos, como nos anos 80, em que árabes, latinos, russos e asiáticos (principalmente se estiverem seguindo a doutrina marxista) eram os “inimigos do mundo livre”. Aqui não: Os inimigos são seres alienígenas, inexistentes, mas que poderiam recordar os terroristas, os mesmos que derrubaram as torres.É interessante notar que não houve críticas ou censuras ao fato do  filme, em seu terceiro ato, ter cenas recordando os atentados. O papel de catarse funcionou muito bem em uma história em que vilões poderiam ser de outro planeta, sem entrar em discussões mais profundas, ao mesmo tempo em que o colapso das Torres Gêmeas poderia ser referenciado, mais de dez anos após seu evento. Ou seja: o americano médio tem a liberdade de trabalhar seu trauma, sua fragilidade, graças a um filme de super-herói e pode falar sobre aqueles atentados, como suas conseqüências e sua visão de mundo, de forma mais clara.

É aí que entra a parceria com a Netflix. Em outubro de 2013, a Marvel anunciou uma parceria com o famoso serviço de streaming, programando para 10 de abril de 2015 a estréia de Demolidor. O personagem criado por Stan Lee já havia passado pelas telas em 2003,  nas mãos da Fox, mas o produto foi tão criticado que continuações morreram (salvo um spin-off, Elektra, de 2005, que foi um fracasso de bilheteria e de crítica). A série exibida pela Netflix foi um sucesso arrasador, tanto de público quanto de crítica, pavimentando a entrada de outros heróis, como Jessica Jones  e Luke Cage, ambos estreando em 2016, juntamente com a segunda temporada do Homem sem Medo.

Em todas as séries da Marvel/Netflix, pode-se observar as seguintes características: um tom mais sombrio, mais adulto, mais realista e com menos humor até mesmo do que a maioria das produções da Marvel no cinema. As séries não poupam em sangue, linguajar chulo e até mesmo nudez, bem diferente do MCU e bem mais do que outras séries derivadas dos quadrinhos deles, como Agents of Shield  ou Agent Carter. Ambientadas a partir de três anos após os eventos retratados em Os Vingadores, deve-se notar alguns detalhes que nos recordam, ou tem como base, o dia da queda do World Trade Center.

11 de Setembro - Marvel/Netflix

A primeira temporada de Demolidor apresentou o outro lado do que vimos em Os Vingadores!

Na primeira temporada, quando Foggy e Murdock chegam à sala que será seu escritório de advocacia, a corretora diz que o preço havia caído por conta do “Evento” (nome que seria dado à Invasão Chitauri), e sua frase é: “Hell’s Kitchen quase foi varrida do mapa por conta do evento”. É interessante recordar que Hell’s Kitchen, lar do Demolidor nos quadrinhos e também nesta série, fica em Manhattan (local das Torres Gêmeas) e a maior parte dos bombeiros mortos no dia do ataque da vida real era justamente vinda deste bairro. O tema da reconstrução e se reerguer após os ataques são constantes nas falas dos personagens, mas, como são séries de quadrinhos, algo que Nick Fury havia dito a Tony Stark no final de Homem de Ferro se mostra preciso: havia outros superseres ou vigilantes além dele naquele mundo e é interessante que é isso o que as séries mostram. Um mundo de superseres, além dos Vingadores, agindo à sombra desses e, principalmente, lidando com um mundo em que eles tiveram que lutar contra aliens, juntamente com as consequências disso.

Deste modo, os superseres, bem como as pessoas comuns dos círculos de amizades deles, e até mesmo os vilões, nas séries Marvel/Netflix, trabalham seu dia a dia após o “Evento”, tal qual como policiais, pessoas comuns e criminosos após o 11 de setembro. Por falar em criminosos, ainda na primeira temporada de Demolidor, quando há uma reunião com os associados de Fisk, como Madame Gao, os japoneses do clã ninja O Tentáculo, os russos e Leland Owlsley, é citado que eles estiveram trabalhando na remoção ilegal de destroços dos prédios, causados pela invasão Chitauri. De novo, algo que remete ao Day after  do Colapso das Torres. Nos dias posteriores à queda do WTC, a Máfia estaria roubando destroços de metal do World Trade Center, sem mencionar a retirada ilegal de entulhos. O caso foi comentado no New York Post.

11 de Setembro - Marvel/Netflix

Jessica Jones e o desconforto da população comum com os “diferentes”!

Contudo, uma das conseqüências mais marcantes é a questão da xenofobia, algo que cresceu, principalmente na era Bush e tem como seu principal símbolo atual o senhor Donald Trump. Até mesmo, implicitamente, o ex- presidente Barack Obama, cujo governo deportou mais  estrangeiros ilegais do que o do republicano. É fato conhecido e notório que o 11 de setembro provocou um ódio maior aos estrangeiros, pela questão da islamofobia, entre outros detalhes, e assim, o colapso também dos direitos e garantias individuais. É engraçado como os X-Men poderiam se encaixar perfeitamente aí, principalmente no espaço Marvel/Netflix (em certo momento, Luke pergunta a Jessica onde ela ganhou aqueles poderes, chegando a indagar se ela tinha nascido com eles). O medo, o temor, o ódio aos superseres surge, primeiramente, em uma cena boba de Jessica Jones, em que um casal tenta emboscar a protagonista, culpando-a pelos desastres. Jessica argumenta e indaga por que ela não vai atrás do “Gigante verde, do cara de armadura”, etc.

Mas, a evidência sobre os tempos fatídicos e de como o ódio ao diferente vai surgir e ter força estará em um discurso que Black Mariah faz aos moradores do Harlem contra Luke Cage, dizendo que “não tolerariam aberrações, nem terroristas, no Harlem”. Ora, de súbito, só o role-playing, o faz-de-conta  não era mais possível, o mundo real mostra seu rosto no mundo imaginário, mesmo que por um breve momento. Black Mariah, a prima de Boca de Algodão, uma política inescrupulosa, mostra um discurso contra o diferente, o estranho, o outro, tal qual como surgirão diversos discursos na esteira da queda das torres, multiplicando-se pelos atentados na Espanha, França, além das Guerras do Iraque, Afeganistão, e outras, surgidas daí. Deve-se lembrar que estas séries não são apenas um recordatório catártico do 11 de setembro, mas também podem visualizar a situação que ocorre hoje nos EUA. O melhor exemplo é Luke Cage, principalmente no final da série, em que a questão da violência policial contra os negros americanos chegou ao seu pico pouco antes da produção da série e é duramente criticada ali, bem como debatida. A exaltação de Cage como um negro à prova de balas é notória, fazendo-se presente na questão do como e quando surge a violência policial de cunho racial (e mesmo racista).

11 de Setembro - Marvel/Netflix

Luke Cage e a temática racial!

Entretanto, o que se pode inferir é que essas séries, pela sua abordagem mais adulta e séria, olham a invasão Chitauri como um análogo ao 11 de setembro. Em um universo em que catástrofes ocorrem em todo momento, é interessante notar que a invasão alienígena não é algo generalizado ou trivializado, mas tem um impacto forte nos moradores de Nova York daquele universo. Ele serve como um fio condutor, mostrando que os seres maiores, mais poderosos, executam suas ações e a população comum sofre, ou fica apreensiva, enquanto olha assustada para o lado e percebe que o diferente já se encontra ao seu lado. Deste modo, talvez as séries da Marvel/Netflix sejam os melhores produtos da TV a trabalhar a questão do 11 de setembro e suas conseqüências.

Ouça também nossos podcasts sobre as séries Marvel/Netflix: Demolidor (primeira e segunda temporadas), Jessica Jones e Luke Cage!

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