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Ghost World – R.I.P. minha adolescência!

Ghost World é um breve e brilhante resumo o universo adolescente comum

Sempre fui muito conectado ao período da adolescência. Tanto porque a minha foi particularmente divertida, quanto, por ter sido professor durante um bom tempo, eu tenha lidado com ela nas mais variadas formas, encarnadas nos meus alunos. A trajetória de cada um é única e especial, mas uma coisa é certa e comum a todos: é sempre muito difícil. Desnecessário dizer porque, afinal, o público mais experiente do Formiga já passou por isso: a mudança de forma, aquele calor pelo(a) menina(o) bonita(o) da sala, as amizades diamantinas que, com o tempo, se provam mais frágeis do que se imaginava – e, é claro, a cereja do bolo: aquele humor maravilhoso característico do período. Por essas e outras, é difícil para nós, adultos, nos recordar de forma verossimilhante desse período. Um dos poucos a conseguir foi Daniel Clowes, com seu Ghost World, publicado aqui pela Editora Nemo.

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Enid e Rebecca são duas adolescentes comuns, vivendo vidas adolescentes ordinárias em uma cidade não identificada dos EUA. Descrito dessa forma, claro, a HQ não parece ter grandes motivos para receber uma resenha crítica. Olhe de novo. Porque são justamente esses momentos pivotais da vida que oferecem o maior escopo para serem investigados; justamente porque eles são, ao mesmo, comuns a todos, mas experiências distintas de cada um. Dessa forma, Clowes constrói pequenas narrativas semi-independentes, se debruçando sobre esse processo de amadurecimento e entrada da vida adulta, acompanhando com o escárnio típico dos adolescentes sua perspectiva diante de mudanças tão velozes e tão intensas.

O autor toma o cuidado de criar duas adolescentes comuns, mas fugindo de estereótipos; nada de líderes de torcida, mas também da übbernerd introvertida que só sofre bullying. Enid talvez seja a que mais se aproxima dessa última ponta do espectro – mas apenas porque faz questão de parecer frágil. Sua condição auto-imposta de “fora-do-radar” lhe permite colocar toda sua capacidade “maligna” para fora; sua principal diversão é armar situações bizarras para ver a reação das pessoas que caem nelas. Das duas, ela é que mais se aproxima daquela visão cínica, pseudo-niilista típica dos adolescentes autodepreciativos. Entenda dessa forma: Enid era aquela sua amiga que ouvia emo no colégio, e enchia o saco de todo mundo com isso.

Já Rebecca é a parceira; mas muito mais cúmplice, do que executora. No geral, ela só está por perto para ver o circo que Enid armou pegar fogo. Ela tem um prazer especial em apreciar o humor irônico de ver as vítimas de Enid se dando mal. Entretanto, das duas, ela transita muito melhor no espectro de estereótipos adolescentes de colégio suburbano – sua amiga é uma outsider, sim, mas ela cuidadosamente cultiva amizades em outros círculos. Isso faz com que Rebecca acabe tendo um desenvolvimento psíquico e de personalidade que poderíamos considerar mais “normal” – ou seja, mais padronizado.

Comédia, ma non troppo

Sobre esse último aspecto, é salutar observar que Clowes não faz qualquer tipo de juízo moral sobre as duas, ou mesmo sobre os coadjuvantes – normalmente, vítimas do cinismo de Enid e das risadas subsequentes de Rebecca. De fato, todas as ações são tratadas com a mais absoluta normalidade, e as inúmeras tentativas de Enid de tentar reafirmar sua perspectiva becketiana da realidade, como seus personagens maiores-que-a-vida – como John Ellis, Johnny “Apeshit”, ou “os Satanistas” – no fundo, acabam sendo apenas uma válvula de escape para o maravilhoso humor que balanceia a angústia inerente das personagens. É como se Woody Allen escrevesse um roteiro para John Hughes, mas baseado em uma obra de Salinger.

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De fato, em um golpe de vista desavisado, alguém diria que se trata de uma HQ de comédia. Parcialmente. Porque, assim como provavelmente aconteceu com quase todos nós, aquelas pequenas diferenças que existiam entre nós e nossos então melhores amigos se exacerbaram, tornando-se personalidades e interesses completamente distintos, fazendo com que nos afastássemos. Fiel à sua perspectiva realista da narrativa de Enid e Rebecca, Clowes traça o mesmo caminho. E entenda, amigo leitor, que isso não se trata de um spoiler; esse tópico é constantemente realçado pela própria narrativa, pois é daí que surge o maior pilar dramático da HQ. Pois mesmo Enid e Rebecca percebem que existe uma distância entre elas, que só é suspensa porque esse microcosmo que é o ensino médio dita suas próprias regras.

E essa é a perspectiva tão aguda que Clowes oferece, e torna Ghost World uma obra magnífica sobre o amadurecimento: porque ela própria amadurece no decorrer de suas narrativas. Embora seja um conjunto de histórias semi-independentes, elas parecem construídas assim para ressaltar que a vida é feita de momentos apoteóticos, mas que não é – quase nunca, na verdade – definida por eles. A adolescência, como um todo, não deixa de ser um desses momentos. Porque, diante da perspectiva mais abrangente da vida completa de uma pessoa, esse processo de amadurecimento nada mais é do que uma etapa, que deixa para trás memórias nubladas e saudosistas. Clowes, de forma hábil e singela, nos faz ver – com a nossa mente adulta e nostálgica – através dos olhos angustiados e incertos da dupla que, no decorrer das histórias, deixa de ser adolescente para se tornar uma jovem adulta; mas de maneiras completamente diferentes.

E, longe desse microcosmo do ensino médio, que funciona como uma espécie de crisálida, emergem dois seres diferentes. Que, no geral, não conseguem mais se entender. Até por isso, no final da HQ, cai uma ficha dolorida: a escolha da paleta de cores de Clowes – branco, preto e azul, muito similar a de O Escultor – já denunciava, desde o início, o tom geral na qual a HQ ia se realizar no seu encerramento; um de melancolia e resignação diante da inevitabilidade das mudanças da vida. Consolida-se, assim, o processo de amadurecimento de Enid e Rebecca; junto com seus leitores, elas passam a entender que aquele maravilhoso mundo encerrado em si mesmo tem prazo de validade, e que o outro mundo, do lado de fora, pode ser mais difícil do que nós imaginamos. E, pior, nossos velhos escudeiros dificilmente estarão lá para nos ajudar.

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Talvez seja essa – que conste que essa é apenas a visão deste colunista – a melhor interpretação para o misterioso título da HQ: a adolescência nada mais é do que um mundo fantasma, espectral e frugal que, tal qual uma visão fúnebre, nós somos obrigados a enterrar e deixar para trás. Ghost World é uma pequena janela para dentro de nossas próprias memórias – não da maneira como gostaríamos de lembrar, mas provavelmente da maneira como realmente foi.

Mas cara, como eu adorava curtir um som dentro da sala de aula naquela época…

(Ah sim, se você assistiu um filme chamado Ghost World, de 2001, com uma trama bem parecida, sim, é baseado na HQ. E quem não viu, mas quer ver a Scarlett Johanson novinha, aqui vai uma prévia!)

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