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Carolina – Superação verídica!

Carolina - Veneta

Carolina Maria de Jesus, como muitas outras pessoas, nasceu em outro Estado e migrou para São Paulo em 1947, momento em que apareciam as primeiras favelas na capital. Viveu em uma dessas habitações por mais de uma década, no Bairro do Canindé, sustentando-se com três filhos graças à coleta de papel pelas ruas. Uma história bastante comum das grandes metrópoles brasileiras, não fosse Carolina, além de alfabetizada em um cenário com níveis altíssimos de analfabetismo, uma prolífica escritora que aproveitava o material que encontrava nas ruas.

Essa trajetória real e surpreendente é o tema de Carolina, álbum contemplado pelo Proac, programa da Secretaria de Estado de Cultura, em 2014, publicado agora pela Veneta. O quadrinhista João Pinheiro (Burroughs) roteirizou e ilustrou a partir da pesquisa de Sirlene Barbosa, doutoranda em Educação e professora de língua portuguesa. Além de momentos da infância em Sacramento, Minas Gerais, são retratados o cotidiano difícil da travessia pelas ruas do centro da cidade e a vida na favela, convivendo com a hostilidade de outros moradores incomodados pela inveja e por ela escrever sobre suas vidas.

Carolina - Veneta

Carolina Maria de Jesus em 1960!

Carolina foi descoberta pelo jornalista Audálio Dantas, que ajudou a publicar seu trabalho e deu origem ao livro Quarto de Despejo. A obra de estreia foi um sucesso nacional, publicado em mais treze países.  A força de uma persona fascinante como ela já garante muito do nosso interesse. Não é uma história com um final cinematograficamente glorioso, como qualquer um pode descobrir em uma pesquisa rápida na internet, ou mesmo pela própria sinopse na orelha da edição, mas o mérito da pesquisa de Sirlene Barbosa é trazer um pouco mais de luz sobre o assunto, assim como a própria HQ também faz sua parte ao apresentar a história desta improvável escritora a um público bem mais amplo.

Carolina - Veneta

O atrativo de uma história como essa, ainda mais por ser verídica, é grande. O potencial dramático é imensurável e o traço de João Pinheiro é eficiente para evocar o aspecto rústico da vida da protagonista. O problema é que o roteiro, às vezes, opta por caminhos didáticos demais. Com uma narrativa não linear, apresentando Carolina em 1977 enquanto relembra sua vida, a HQ é eficiente ao transmitir as condições precárias que ela enfrentava. A partir do sucesso de Quarto de Despejo é que a narrativa parece não decidir-se sobre seus rumos. Existem momentos belíssimos e poéticos, mas encontramos depois muitos quadros que só tem a função de conter mais uma informação compactada sobre a biografada.

Quanto aos diálogos, alguns deles pecam pela falta de caracterização. No caso da protagonista, natural que suas falas sejam mais rebuscadas, mas em vários momentos encontramos personagens humildes que não convencem neste contexto, com diálogos sem personalidade que apenas cumprem sua função primária. Nestes trechos, é como se víssemos um ator que apenas decorou um texto para sua deixa, sem preocupação dramática alguma além disso.

Carolina - Veneta

Apesar dos deslizes, essa representação dos fatos, mesmo com o conhecimento prévio da realidade, ainda consegue dar o peso necessário para que torçamos pelo sucesso da protagonista. Não é apenas uma predisposição comum que todo mundo tem para torcer pelo desfavorecido, mas João Pinheiro é bem-sucedido ao enfatizar visualmente o problema urgente de moradia e falta de recursos, porém aceito com resignação por aquelas pessoas. Dependendo de qual cidade você mora e por quais caminhos se desloca no dia-a-dia, já sabe do que se trata, mas, evidentemente, naquela época era bem pior.

Além da óbvia narrativa de superação, Carolina, como trabalho em quadrinhos, tem uma qualidade intrínseca indiscutível, que é lembrar o quanto a cultura em geral pode ser libertadora. Também nos faz refletir sobre como nossos obstáculos, quando se trata de seguir uma paixão, são relativos. O caminho da guerreira poderia ter rendido mais aqui, porém cumpre um papel inspirador a quem se dispuser a ler. Já valeu por isso.

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