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Blues for Lady Day – A bela tragédia de Billie Holiday!

Billie Holiday é apropriadamente homenageada neste ótimo quadrinho

Jazz e blues adquiriram uma característica curiosa com o tempo: não existe meia medida quando se fala sobre eles. Quem odeia, odeia para valer; quem ama, como o quadrinista italiano Paolo Parisi, define a própria vida por eles. Como em seu trabalho anterior, também publicado pela editora Veneta, Coltrane, Parisi demonstra que os vívidos deleites, mas muitas tragédias, que inspiram esse viscerais gêneros musicais também dão ótimos quadrinhos. E sua nova fonte de inspiração não poderia ser outra melhor: Billie Holiday, na biografia em quadrinhos Blues for Lady Day.

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Nascida Eleanora Fagan Gough, em 1915, Billie Holiday, conhecida pelo carinho do público como Lady Day, assombrou e comoveu o mundo com sua voz, numa carreira que durou entre 1933 até o abrupto fim em 1959, sendo considerada uma das maiores cantoras do gênero a já ter existido. Mas exaltar a carismática – e muitas vezes polêmica – figura da artista não é a única preocupação de Parisi, pois o caminho de Eleanora até se tornar Billie foi mais do que tortuoso.

Nesse sentido, é necessário destacar as escolhas estéticas do autor italiano. De diagramação extremamente simples, Parisi constrói uma narrativa gráfica através de grandes quadros – dificilmente uma página apresenta mais de três – alternando seu foco entre o ambiente e expressões aproximadas dos personagens. As cores e linhas também demonstram um propósito simples e explícito na exposição narrativa: econômicas, seguindo a tradição da nova ligne claire europeia, elas servem apenas como contornos que “contém” o cinza que praticamente monopoliza todas as páginas. Existe uma sensibilidade agradável e comovente a ser interpretada aqui – a vida de Billie Holiday, segundo Parisi, nunca foi preto-no-branco, nunca heroína ou vilã, mas sim um fruto do seu tempo e das circunstâncias. Um algo que precisa ser observado de perto e compreendido em seus detalhes.

billie holiday

O que é, no mínimo, uma colocação bastante apropriada por parte do quadrinista, já que a vida de Holiday a levou por caminhos muitas vezes sombrios, mas não sem motivo. Dizer que a infância e adolescência de Eleanora antes de ser Billie foi sofrida é um colossal eufemismo. Filha de pais adolescentes da Filadélfia negra do início do século passado, sua vida é uma coleção dos mais doloridos clichês que uma pessoa de sua etnia poderia sofrer: abandono parental, abuso sexual, internato forçado, trabalho infantil e, ainda na flor da adolescência, prostituição. Se existe alguma surpresa em sua história, é menos sua superação graças a um dom inato e mais sua resiliência em seguir em frente diante de situações assim.

A glamourosa marginal sob os holofotes

Parisi equilibra bem as críticas sociais inerentes às condições de vida de Eleanora com a sensibilidade necessária para retratar seu drama de maneira mais aproximada ao leitor, assim como estabelece um nexo causal claro entre todos esses fatores e sua vida já como Billie. Estes se refletem na maneira como Billie interage com a realidade a sua volta e com aqueles que a representam; seus coadjuvantes igualmente famosos como Louis Armstrong e Benny Goodman, mas também as interações comuns do cotidiano, que revelam uma vida de fama e glamour duramente ancoradas em memórias que a assombram e a fazem desenvolver o mesmos vícios que a condenariam.

billie holiday

Como dissemos anteriormente, a preocupação de Parisi aqui é muito mais de envolvimento do que de dissertação; tanto melhor assim. A história de Billie Holiday nos serve sim como sabedoria e alerta de uma realidade que ainda é bastante aguda de muitas pessoas, mas também não deixa de ser uma declaração de amor à arte e a maneira como essa pode, no final, redimir uma existência calcada em um inalienável sofrimento. Existe, de certa forma, uma ironia em ver Billie Holiday ser tão celebrada hoje ao ponto de se tornar a protagonista de um quadrinho, essa arte tão orgulhosamente marginal na maior do tempo.

Em 31 de maio de 1959, Billie foi levada para o Hospital Metropolitano, em Nova York, com problemas hepáticos e cardíacos. Recebeu voz de prisão por posse de drogas enquanto estava no hospital, morrendo, sendo seu quarto invadido pelas autoridades. Policiais ficaram de guarda na porta de seu quarto. Billie Holiday permaneceu sob guarda da polícia no hospital até que morreu de edema pulmonar e insuficiência cardíaca causada por cirrose hepática, em julho do mesmo ano. Nos últimos anos de vida, havia sido progressivamente enganada nos seus ganhos e morreu com 70 centavos de dólar no banco e 750 dólares (pagos por um tablóide) por um artigo sobre sua pessoa – um destino não muito diferente de muitos quadrinistas das eras clássicas.

Billie Holiday era a encarnação do jazz. Mas poderia também ser dos quadrinhos.

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