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Um Cântico para Leibowitz – O eterno retorno da ignorância!

Um Cântico para Leibowitz é uma ode ao esforço humano pelo conhecimento do universo, mas também pela ignorância de si própria

No livro 1177 B.C – The Year Civilization Collapsed, o historiador Eric Cline aponta diversos motivos concomitantes que levaram ao fim de um período de imensa prosperidade na Era do Bronze. Entre esses motivos, inúmeros são de ordem humana. Uma civilização – dentro das proporções – globalizada, etnicamente e culturalmente diversa e financeiramente próspera desaparece. Mas o que realmente choca nessa dissertação são dois apontamentos: primeiro, esse foi apenas o primeiro de pelo menos uma dúzia de colapsos civilizatórios que emperraram a evolução tecnológica e intelectual humana. Segundo, cada um subsequentemente se torna maior e mais perigoso conforme a tecnologia avança, mas a organização humana não. Um Cântico para Leibowitz talvez seja a grande obra distópica sobre esse tema particularmente assustador: a história é cíclica.

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Lançado por aqui pela Aleph em 2014, a trama cobre cerca de 1800 anos no futuro, depois que uma guerra nuclear no século XX devastou boa parte da civilização. O resultado social disso foi um período chamado de Simplificação – os sobreviventes desse holocausto passam a culpar o conhecimento científico que desenvolveu as armas pela sua desgraça, e perseguem e assassinam todas as pessoas consideradas “intelectuais” – repositórios de conhecimento de qualquer forma, mas principalmente o científico. Um dos sobreviventes, Isaac Edward Leibowitz, é um engenheiro elétrico judeu que, após o Dilúvio de Fogo – nome dado ao ataque nuclear – se dedica a recolher e preservar toda forma de conhecimento que encontra. Uma ordem monástica se forma em torno dele – a Ordem Albertiniana de Leibowitz – que se torna um dos pouquíssimos bastiões de conhecimento em um mundo que odeia a inteligência.

O livro se divide em três partes: Fiat Homo (Faça-se o Homem), Fiat Lux (Faça-se a Luz) e Fiat Voluntas Tua (Faça-se a sua Vontade). Na primeira parte, um jovem noviço da Ordem de Leibowitz chamado Francis Gerard faz sua vigília de Quaresma no deserto. Ali, encontra o Judeu Errante, um andarilho que lhe aponta o caminho para um antigo abrigo nuclear. Lá,  Gerard encontra uma série de textos e escritos que muito provavelmente pertenceram ao fundador da sua Ordem. Daí, segue-se um processo de redescoberta da história, que naturalmente dispara diversos conflitos entre os conservadores e os progressistas.

Na segunda parte, um salto de 600 anos no futuro nos mostra um processo de recivilização, com pessoas ligadas à Igreja liderando o desenvolvimento e instalação de tecnologias como energia elétrica, baseadas nos escritos de Leibowitz. Thon Taddeo Pfardentrott é um estudioso que viaja para a Abadia para observar os “escritos antigos”. Lá, ele faz um série de “descobertas” importantes, e pede para que os manuscritos sejam retirados dali, para serem estudados pela maior quantidade de pessoas possível. A grande resistência aqui, claro, se dá em torno da noção de propriedade do conhecimento e da sua utilização para fins de manobras políticas.

Já no terço de encerramento, 600 anos depois a humanidade chegou novamente ao espaço – desta vez, até um pouco além. Com naves estelares e colônias interplanetárias, nossa espécie conseguiu um estágio todo novo de desenvolvimento. Entretanto, novamente, isso teve seu custo: duas enormes super-potências continentais, a Coalisão Asiática e a Confederação do Atlântico, cozinham uma Guerra-Fria durante 50 anos. Quando finalmente eclode, o resultado é o esperado: o total colapso da civilização.

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O autor Walter M. Miller Jr.

Uma história sobre a História

O grande protagonista de Um Cântico para Leibowitz é a História – com “H” maiúsculo, como objeto de investigação. A criatividade de Miller Jr. pode até ser questionada, na medida em que toda a trajetória da narrativa em três etapas é obviamente um grande pastiche da civilização ocidental pós-Queda do Império Romano do Ocidente – os êmulos da Igreja Católica da Alta Idade Média, a Renascença e Iluminismo, assim como a Guerra-Fria das duas super-potências são auto-explicativas. Não obstante, tudo gira em torno de uma analogia/metáfora que em muitos momentos é bastante limítrofe: a “história do Ocidente” metaforizada por Miller é a história judaico-cristã por uma perspectiva eurocêntrica, e posteriormente americana. Não obstante, as constantes analogias com o catolicismo apostólico romano – diversas passagens em latim, aludindo por sua vez a passagens bíblicas, permeiam o livro – tornam a obra pontualmente cansativa, principalmente quando chegamos ao último terço do livro, onde a comparação dessa perspectiva católica com um mundo contemporâneo laico perde força.

É claro que existe uma intenção de Miller nesse sentido: existe um ethos apontado por ele que conecta a busca pela conhecimento a uma certa elevação “espiritual” – embora a instituição religiosa em si seja opressora como sempre, aqueles dentro dela que buscam e preservam o conhecimento o fazem, principalmente, por uma espécie de sentimento de “dever maior”. E isso os torna bons, em contraste com aqueles alienados ou que objetivamente odeiam o conhecimento, ou que se tornaram “desespiritualizados” e que utilizam o conhecimento para fins destrutivos, que representam os antagonistas. Mas o aspecto espiritual-religioso, embora limitado por vezes, é apenas uma das qualidades de Um Cântico para Leibowitz.

Porque, por mais que sua metáfora com a história do Ocidente seja limítrofe, sua narrativa é sólida enquanto se fundamenta em um princípio válido, que qualquer historiador sequer titubeia ao comentar: o desenvolvimento da techne nunca acompanhou o desenvolvimento da episteme. Os seres humanos sempre desenvolveram tecnologia mais rápido do que se organizaram, socialmente e eticamente, para usá-la. Mas o ponto de Miller não é uma defesa do abandono do conhecimento, pelo contrário: é a reafirmação de que, enquanto não alinharmos o conhecimento humano ao conhecimento exato, a história está fadada a se repetir, de forma exponencialmente pior, conforme a tecnologia se torna cada vez mais capaz de erradicar nossa existência.

O eterno retorno de nós mesmos

Retomemos a menção do início do texto – o ano de 1177 A.C. é considerado por alguns arqueólogos e antropólogos como o primeiro momento de que se tem registro em que a organização civilizatória humana esteve realmente em risco. Se considerarmos os cruzamentos entre textos do fim do neolítico, como A Epopeia de Gilgamesh e o Gênesis do Velho Testamento, que apontam para um outro grande desastre civilizatório ainda anterior, temos evidências de processos de auto-destruição da nossa espécie que remontam praticamente à sua origem – muito antes do ponto inicial determinado pela metáfora de Miller. Mas, antes de descreditá-la, pelo contrário – tal informação apenas reforça o argumento do autor de que, com todo nosso conhecimento tecnológico-científico, nós ainda somos absolutamente vulneráveis devido a nossa incapacidade de evoluirmos politicamente e socialmente; de nos organizarmos à altura da tecnologia que desenvolvemos.

Se pensarmos que, em 2018, ainda discutimos doutrinas sócio-políticas como o capitalismo e o socialismo, que possuem 600 e 130 anos, respectivamente, como sendo válidas para nossa realidade; além de também dispormos de tecnologias extremamente mais eficientes do que o uso de combustíveis fósseis, por exemplo, mas ainda damos prioridade a ele por questões sócio-econômicas, percebemos que o argumento de Miller não é fruto de um zeitgeist da Guerra-Fria, mas uma análise objetiva e válida do desenvolvimento histórico humano: com todos os nossos computadores e aeronaves, não nos comportamos nem nos organizamos de forma tão distinta em relação aos povos que desapareceram em 1177 A.C.

Existe a necessidade – já vastamente trabalhada pela ficção científica, mas curiosamente ignorada pelos próprios historiadores – de entendermos a História como o que ela realmente é: a ciência do tempo. Entender nossa própria trajetória como um objeto de investigação racional e, tal qual a física teórica faz, propor especulações que orientem o progresso da própria História em si – e não apenas permitir que ela se desenvolva a revelia. Porque o tempo não é apenas uma corrente do passado que deságua no presente; o presente é apenas uma frágil ponte sobre a qual o observamos passar. Nosso grande problema é estarmos há 10 mil anos observando e entendendo apenas um lado dela. Quando nos debruçarmos o bastante sobre o outro parapeito da ponte, talvez possamos finalmente começar a imaginar para onde esse rio realmente corre – e, enfim, descobrir a melhor maneira de chegar lá. Antes que essa velha ponte desabe de vez.

Podemos um dia escapar da própria História? Alea jacta est. Amem.

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