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Como Star Wars Conquistou o Universo – Banquete para fãs!

Como surgem os mitos, os ícones, as religiões? Em que momento se estabelece um novo paradigma da cultura, da ciência, da filosofia? Em que momento do trajeto percebemos que alcançamos um dos pontos mais importantes da estrada? Mito, ícone(s), ciência, religião, filosofia, cultura… são muitas as esferas que os mais obcecados fãs da saga Star Wars já encaixaram sua paixão, uma das relevantes e influentes produções que o cinema já apresentou. Para amantes, detratores ou indiferentes, não há como negar que as aventuras de Luke Skywalker contra o mega vilão Darth Vader são umas importantes referências da cultura pop da segunda metade do século XX.

Como Star Wars Conquistou o Universo

Mas como um filme que tinha tudo para passar despercebido se tornou a força de marketing que conhecemos? Foi tudo um golpe de sorte ou resultado de um trabalho acurado e objetivo de um diretor metódico, uma equipe dedicada e um estúdio com forte faro empresarial? Haveria influências externas, diretas ou indiretas? Estudar o universo de Star Wars é conhecer um pouco do funcionamento da própria máquina cultural ocidental e é isso o que o jornalista norte-americano Chris Taylor propõe com seu magnífico Como Star Wars Conquistou o Universo: o Passado, o Presente e o Futuro da Franquia Milionária (How Star Wars Conquered The Universe), livro lançado em dezembro de 2015 pela Aleph. A obra é um compêndio de mais de 600 páginas com tudo o que gira em torno da franquia iniciada por George Lucas em 1977, de referências culturais indiretas até o assustador poder da máquina mercadológica hollywoodiano, incluindo as relações dos fãs com a saga e também de seus pares na indústria do cinema.

Como Star Wars Conquistou o Universo é um banquete para os fãs apaixonados que com certeza encontrarão aqui informações até então desconhecidas por muitos pesquisadores, mas é também uma refeição completa para quem apenas curte o fenômeno cinema ou a comunicação como ciência do comportamento. Mas não se engane por este parágrafo. Com a experiência que quem estuda e conversa com o público jovem há mais de 20 anos, Chris Taylor nos entrega um texto leve e saboroso, que proporciona uma leitura fácil e dinâmica, acessível até mesmo para aqueles não muito habituados às batalhas da Aliança Rebelde contra o Império. Taylor atua como um maître, nos servindo esse lauto jantar após reunir os ingredientes e os pratos preparados aos longos dos anos. Mantendo a metáfora, vamos entender o livro na organização de um banquete cultural.

O maître

O escritor Chris Taylor se inspirou na compra da Lucasfilm pela Disney em 2012 para fazer o mais completo trabalho sobre a série cinematográfica que tinha conhecimento. Jornalista por profissão, reuniu farto material documental para respaldar sua obra. Taylor é editor do maior site especializado em novas tecnologias, comunicação e redes sociais do mundo, Marshable. Neste espaço virtual, ao lado de trabalhos em revistas como Time, Business 2.0, Fortune-Small Business e Fast Company, dedicou-se ao estudo de relação da cultura pop com o mundo dos negócios e os fenômenos da comunicação de massa.

Como Star Wars Conquistou o Universo

Chris Taylor

Pelas características de seu trabalho de pesquisa, o jornalista também pode ser considerado um historiador da franquia de George Lucas. Possui forte bagagem acadêmica, após estudar nas universidades de Oxford, Inglaterra, e Columbia, nos Estados Unidos. Atualmente mora em Berkeley, no estado da California. Esteve no Brasil no ano passado para participar na CCPX 2015, onde discorreu em painéis e participou de diversas entrevistas para divulgar seu trabalho e interagir com fãs dos filmes. Chegou a resumir o sucesso de Star Wars simplesmente justificando que a saga “é mais divertida que as outras franquias”. Não é exatamente o que seu livro propõe, ao contextualizar o estrondoso alcance deste filme dentro de uma série de fatores multidirecionais, muitos deles totalmente ocasionais.

Entradas

Um dos grandes trunfos de Como Star Wars Conquistou o Universo  é o caminho percorrido pelo autor até chegar aos capítulos principais do livro. A expectativa, no entanto, de forma alguma é irritante (ou melhor, quase nunca é). De início, somos brindados com uma interessante contextualização cultural dos Estados Unidos nos idos do século XX. O autor deixa claro que o sucesso de Star Wars não foi uma erupção repentina em meio a planície, mas um evento que estava na esteira de uma série de fatores que culminaram na atração do público norte-americano (consequentemente, no restante do mundo à sua órbita) pelo universo espacial. Como entrada, Taylor resgata a popularidade de escritores como Julio Verne e H.G.Wells na virada do século, período em que os avanços tecnológicos assombravam o mundo. Em poucos anos, a literatura abre espaço para formatos mais palatáveis ao público jovem e surgem os primeiros aventureiros espaciais nas páginas dos quadrinhos, com destaque para Flash Gordon, outro ícone da cultura pré-segunda guerra.

O autor nos entrega todo um cardápio de produções que poderiam ter influenciado Lucas na infância, mas que com certeza preparam o terreno para diversas obras posteriores, não importa a mídia, no fluxo dos acontecimentos políticos e da corrida espacial que fizeram temas ligados a ficção científica ou às fantasias especiais (gêneros que Taylor gosta de distinguir) se tornarem os mais populares entre os jovens da metade do século passado.

Como Star Wars Conquistou o Universo

Flash Gordon foi uma das inspirações!

Ainda no menu inicial, somos apresentados ao jovem George Lucas e seus primeiros anos na cidade de Modesto, California, desde a infância até o começo do trabalho com as câmeras. Nesse ponto, Taylor se destaca entre os fãs da série, que preferem idealizar um Lucas sobre-humano, e retrata um homem simples e falho que, apesar do inegável talento criativo, contou também com a sorte e com ajuda de muita gente para chegar onde chegou.

Aperitivos

Os complementos paralelos do livro talvez sejam seu ponto fraco, pelo menos para quem não é aficionado por este universo. Em muitos momentos o autor interrompe a linearidade na narrativa de construção do filme para apresentar os eventos paralelos que a franquia gerou. Não que seja desnecessário ou descartável conhecer mais sobre a história da Legião 501 ou 501st Legion, um dos maiores e mais importantes fãs clubes da série, ou sobre Jedaísmo, a religião que se formou a partir das referências dos filmes, mas dedicar uma grande quantidade de páginas sobre estes temas acaba por parecer encheção de linguiça, até porque poucas informações relevantes são apresentadas e muitas delas são até repetitivas.

Sobre Jedaísmo, especificamente, poderia se dedicar uma publicação à parte ou um anexo exclusivo separado do restante do relato. De qualquer forma, trata-se de um acontecimento cultural muito interessante e com diversas implicações e referências contemporâneas, infelizmente tratadas superficialmente, mas que não poderiam fugir ao estudo, como a Cientologia, religião popular em Hollywood e teorizada pelo escritor de ficção cientifica L. Ron Hubbard.

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Ah, os fãs…

Prato Principal

Como toda refeição principal em um banquete, o prato-atração nunca vem sozinho ou se resume a uma só opção. A começar por todas as mentes que de alguma forma participaram diretamente da criação do universo de Star Wars, ou serviram de influência indireta ao incentivarem os sonhos e a carreira de George Lucas, como o supercultuado diretor Francis Ford Coppola. Ao entrar na construção do filme propriamente dito, o leitor mergulha em todos os aspectos da criação e conhece as mentes envolvidas por trás desse processo, muitas das quais Lucas não poderia abrir mão, mas que não foram e não são devidamente creditadas pelo sucesso. Poucos sabem, por exemplo, da importância de Marcia Lucas, ex-esposa do diretor, no trabalho da tão marcante edição dos três primeiros filmes da saga e na também na gestão da Lucasfilm, empresa que se dependesse unicamente de seu mentor, não iria muito longe.

O livro destaca nomes aos quais muito se deve a popularidade da franquia, como John Dykstra, responsável pelos efeitos especiais do primeiro filme, e Charles Lippincott, gênio do marketing por trás da estratégia de divulgação da série, até hoje influenciando técnicas para promoção de filmes mundo afora. A obra também ressalta a importância da amizade, mas também da competição, de Lucas com Steven Spielberg para melhoria técnica dos demais episódios da saga.

Taylor surpreende o leitor com diversas informações de bastidores da produção, como as diferentes versões de roteiro que foram produzidas para a trilogia original que hoje soam bizarras para o público. Com linguagem leve e divertida, Chris Taylor cita as dificuldades da produção e o pessimismo do estúdio e da equipe técnica quanto aos resultados da produção, culminando em um lançamento tímido em poucas salas, que em pouco tempo caiu no gosto do público.

Como Star Wars Conquistou o Universo

O pai da criança teve bastante ajuda!

No quesito curiosidade, Como Star Wars Conquistou o Universo é fabuloso e um prato cheio para os starwarsmaníacos se lambuzarem e os amantes de cinema se divertirem com a complexidade da produção de um filme – ou melhor, de um fenômeno cinematográfico. São muitas as histórias sobre como as revelações do roteiro ou o comportamento de personagens eram tratados nos bastidores para assegurar o impacto do resultado final sobre o público. Também não deixa de lado o Universo Expandido, destacando como até hoje esse lado da série é um dos principais exemplos de crossmedia e de pluralidade midiática, atingindo os mais variados veículos nos mais distantes pontos do mundo.

Sobremesa

O epílogo do livro é atualizado ao se ousar comentar o momento atual que a série vive, após não ter mais o nome George Lucas na produção e com a Disney nas rédeas da Lucasfilm. O autor analisa com segurança a nova fase começada no ano passado com O Despertar da Força. Mesmo sem muitas informações sobre a produção na época de publicação (o livro é anterior à estreia do sétimo filme), o autor apresenta diversas informações de bastidores envolvendo polêmicas com a divulgação e o comportamento de George Lucas. O autor antecipa informações do roteiro, até então guardado a sete chaves, mas sem estragar surpresas de quem ainda não havia visto o filme. Chris Taylor também retoma diversos “personagens” e referências citadas ao longos das páginas anteriores. É um encerramento saboroso que deixa um sabor de quero mais, mesmo depois de uma leitura tão extensa.

Como Star Wars Conquistou o Universo

Serviços de mesa

No quesito “serviços”, a editoria da Aleph está de parabéns. Nada de mesa, prataria, porcelanas ou taças de cristal. A edição de Como Star Wars Conquistou o Universo é muito bem feita, com papel de qualidade, bom acabamento e complementada com muitas fotos que enriquecem o texto de Taylor, já tão descritivo. As notas de rodapé são frequentes, mas estão onde devem estar – no rodapé – e não reunidas no final do livro, hábito irritante que algumas editoras tem adotado. Há, no entanto, um capítulo final de notas referente ao embasamento das muitas declarações de pessoas que o texto apresenta. Um índice remissivo também ajuda os leitores a encontrar temas específicos em meio a essa longa jornada que foi essa leitura.

Um livro que merece um lugar especial na estante de todo cinéfilo, mesmo não sendo fã deste clássico. Claro, é algo feito de fã para fã, que será melhor saboreado por quem é vidrado naquela galáxia tão, tão distante. Mas quem curte cinema não pode deixar de dar uma chance para este texto leve e divertido, que – com certeza – fará você ver esse importante capítulo da história cultural do cinema com outros olhos

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