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Dr. Mordrid – Uma versão obscura e picareta do Dr. Estranho!

A Full Moon teve seu próprio Dr. Estranho, ou quase isso…

Ah, a década de 1990… Um tempo inimaginável, pelo menos em um detalhe bastante específico: Adaptações de personagens dos Quadrinhos *. Anos-luz distante da realidade de hoje, filme de super-heróis era um negócio desprezado pela própria nata da indústria, mesmo com o então recente mega-sucesso do Batman de Tim Burton. Por outro lado, exatamente por isso, licenças eram adquiridas em troca de um pingado com pão na chapa. Uma mão na roda para produtoras como a Cannon, que viveu uma saga e tanto durante a década anterior, envolvendo um certo aracnídeo**, e a Full Moon, que deveria ter produzido um filme do Dr. Estranho, mas acabou fazendo um genérico para o mercado direto de VHS.

*(Isso até foi pauta em um Formiga na Tela) **(Ouça nosso podcast sobre Filmes de Super-Heróis Não Realizados e entenda o caso)

Conheça o Dr. Mordrid, um Dr. estranho genérico!

A capa do filme lembra os antigos cartuchos de games. Ou seja, você não encontra nada muito parecido com isso quando o assiste…

Você não leu errado. Além daquele telefilme vergonhoso do Mago Supremo da Marvel, lançado em 1978, onde nosso Doutor lembrava o Belchior, o personagem teve mais uma chance no mundo do live action, bem antes de Benedict Cumberbatch encarnar o personagem no blockbuster de 2016. Bem, pode parecer exagero dizer que Dr. Mordrid, de 1992, é um filme do Dr. Estranho, mas, apesar do nome, ele é precisamente isso. O que, de forma alguma, significa que seja bom, esclarecendo logo de uma vez, mas vamos ao que interessa.

Se os nomes Full Moon e Charles Band não lhe trazem qualquer lembrança, cabe uma explicação. Quem assistia ao Cine Trash, apresentado por Zé do Caixão na TV Bandeirantes, lá pela segunda metade da década de 1990, com certeza viu algum filme da produtora, talvez até dirigido ou escrito – ou ambos – por Band, que era o proprietário e a força criativa. Produzindo a toque de caixa, as franquias Puppet Master e Subespecies, entre outras, colocaram a empresa no coração dos fãs de filmes B, condição que a Cannon desfrutava antes de seu colapso.

Naquela época, nada incomum que um cara como Band tivesse os direitos de uma propriedade da Marvel. Ele mesmo nunca escondeu sua admiração pelos Quadrinhos, algo perceptível em outras de suas franquias de aventura/sci fi, como Dollman e Trancers. Essa faceta é mais evidente hoje, com a iniciativa Full Moon Comix, com direito até a um universo compartilhado. Era só fazer o filme, mas sempre existe um prazo para iniciar a produção nestes contratos, que estourou e a Full Moon viu sua oportunidade desaparecer em um passe de mágica.

Qualquer negociante sensato assumiria sua negligência e, caso a vontade fosse tão grande mesmo, pagaria novamente e faria o maldito filme. Charles Band resolveu fazer, mas economizou uns trocados na brincadeira, simplesmente deixando de renovar os direitos. Bastava mudar os nomes dos personagens e ninguém precisaria mais se preocupar com propriedade intelectual alheia e processos decorrentes. O problema é que uma olhadela de relance no pôster de Dr. Mordrid já denuncia a mutreta, pelo menos para os iniciados nas HQ’s do Dr. Estranho. Convenhamos que, em 1992, ninguém dava a mínima para essa galera…

Ainda em seus estágios de pré-produção e com a Empire, empresa anterior de Charles Band, por trás da produção, o filme chamava-se Dr. Mortalis. Artes conceituais foram produzidas, chegando aqui a uma informação tão curiosa quanto irônica. Esses desenhos foram feitos por Jack Kirby, que acabou nem creditado no filme. O Rei merecia algo melhor que o envolvimento com uma produção deste quilate, mesmo já quase no fim da linha.

Conheça o Dr. Mordrid, um Dr. estranho genérico!

Ah, Kirby…. Você não precisava disso…

Steph.. Anton Mordrid, o Mestre do Desconhecido

Band co-dirigiu o filme com seu pai, Albert. Os créditos de abertura, enquanto a câmera vai mostrando um pouco do santuário do herói, já dão a letra da extraordinária cara de pau da iniciativa, quando um “baseado em uma ideia original de Charles Band” aparece na tela. O roteiro de C. Courtney Joyner, colaborador habitual da casa, não se ocupa logo de cara da origem do protagonista, que tem seu passado revelado em flashback.

No papel-título, ninguém menos que uma figurinha que já era sinônimo de filme de baixo orçamento. Jeffrey Combs, dos petardos trash da Empire, Re-Animator e Do Além, envergou o manto de mago interdimensional protetor da Terra. Como é bom dar uma disfarçada, Anton Mordrid não é um médico que buscou sua cura em uma cidade mágica, mas alguém com séculos de vida e criado nas artes místicas em outra dimensão. O herói foi enviado ao nosso plano para evitar que um mal supremo passasse para cá, vivendo discretamente como senhorio em um condomínio em NY. Aliás, enviado por quem?

Os leitores que conhecem a mitologia dos Dr. Estranho podem se surpreender com essa ambição em um filme barato. O mentor do Dr. Mordrid é algo que mistura dois personagens das HQ’s, o Ancião e a entidade cósmica Eternidade. O Monitor (será que Band quis fazer aqui uma referência à DC?) é representado como um par de olhos no meio de uma constelação, avisando logo na abertura do filme que um perigo se aproxima, que o mal espreita e todo esse bla bla bla.

Conheça o Dr. Mordrid, um Dr. estranho genérico!

Aqueles efeitos especiais que a gente adora!

Mais picaretagem neste roteiro. O filme todo tem apenas 74 minutos, o que significa que não há tempo para explicar a origem do vilão. Logo, que tal fazer o antagonista compartilhar EXATAMENTE a mesma trajetória do herói, apenas mostrando que ele foi corrompido sem enrolação? Pronto. Kabal é outro mago criado como irmão de Mordrid, só que é malvado e pretende dominar nosso planeta libertando uma horda demoníaca presa no plano dimensional de onde os dois vieram.

Kabal é um vilão genérico de qualquer produção B, assim como poderia ter seu nome trocado para qualquer feiticeiro do mal que você já viu em HQ’s da Marvel. Adicionando um pouco mais de ridículo a este caldo, o intérprete do místico sádico é Brian Thompson, que muita gente lembra como o maníaco que Stallone enfrentou em Cobra. Um ator que se sente em casa em filmes como esse. Aliás, sua primeira aparição merece um comentário especial para o figurino, misturando trajes ciganos com óculos escuros da moda oitentista.

Para seu objetivo, ele precisa da Pedra Filosofal, exposta no Metropolitan Museum, o que significa que o duelo final será travado ali. Não custa lembrar novamente que era o começo da década de 1990, onde mesmo dinheiro a rodo não dava conta de determinados efeitos especiais. Dr. Mordrid teve um orçamento de U$ 2 milhões, que é estratosférico dentro do seu modelo de produção, mas leve em consideração que estamos falando de algo que deveria, pelo menos, lembrar o que Steve Ditko criou em 1963. Claro que falhou miseravelmente, mas a solução foi hilária.

Já que qualquer psicodelismo mais forte estava fora de questão, sobrou a apelação. Mordrid envia sua forma astral, que não muda nada visualmente, ao museu, no momento em que Kabal conjura seu feitiço. Para defender-se, o malvado anima um esqueleto de tiranossauro, que o herói revida animando um esqueleto de mamute, gerando uma disputa bizarra. Pensou em stop motion? Só poderia ser isso mesmo, mas a sequência toda potencializa a galhofa com o envolvimento dos guardas do local.

Neste momento, temos a oportunidade de vislumbrar o grupo de demônios que queria escapar para tocar o terror por aqui. Mais stop motion que aparece rapidamente, com duas ou três pequenas criaturas, que nada tinham de apocalípticas, logo voltando para o buraco de onde tentaram sair. Toda a sequência que culmina com a derrota do vilão, que morre bem fácil para alguém com seu grau de poder, é inesquecivelmente tosca.

Conheça o Dr. Mordrid, um Dr. Estranho genérico!

Brian Thompson fazendo o que fazia de melhor!

No recheio desta trama frouxa, o herói arruma uma ajudante/interesse amoroso e se enrola com a polícia, só para ter um pouco mais de trabalho em um roteiro tão carente de momentos dramáticos. Kabal também tem um casal para servi-lo, sendo que a moça está ali somente para os tradicionais seios à mostra. Quase certo que, com uma duração maior, esse recurso seria mais fartamente utilizado. Alguém esperava um filme família da Full Moon?

O Bem triunfa no final, evidentemente, deixando as portas abertas para que o Dr. Mordrid retornasse em novas aventuras, que nunca aconteceram. Este primo paupérrimo do Dr. Estranho ficou para posteridade como um capítulo menos conhecido da trajetória dos super-heróis fora das páginas dos Quadrinhos, além de mais um testemunho da cara dura dos realizadores do lado B da indústria.

Como a internet é um manancial eterno de inutilidades, você nem precisa de um Olho de Agamotto para conferir se este texto fez justiça à produção. Abaixo, direto da dimensão negra de 1992, Dr. Mordrid completo para seu deleite, graças às Sombras do Serafim. Só que com as legendas em italiano, pois em português seria pedir demais, mesmo invocando o poder de Oshtur.

P.S.: Existe um mangá recente que, curiosamente, tem o mesmo nome do mago safado da Full Moon. Felizmente, não se trata de uma adaptação do filme, apesar do sobrenatural envolvido. 

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