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Morto Não Fala – Premissa excelente caindo no genérico!

Terror nacional Morto Não Fala traz uma ideia principal cativante

Dennison Ramalho, do curta metragem Ninjas, ataca novamente adaptando um conto de Marco de Castro. Uma boa notícia para os fãs e entusiastas do Terror brasileiro, que já tinham a referência da dobradinha anterior, ainda mais porque o longa Morto Não Fala, evidentemente, conta com uma estrutura bem maior na produção. Com esses recursos à mão, o roteiro do próprio diretor e de Cláudia Jouvin apresenta Stênio (Daniel de Oliveira, de 10 Segundos Para Vencer), plantonista noturno em um necrotério que tem um dom inusitado: ele é capaz de falar com os cadáveres.

Crítica do terror nacional Morto Não Fala

O texto acerta em não entregar explicações para essa condição, ou mesmo mostrar a descoberta desta capacidade pelo protagonista. O filme começa com Stênio em mais uma noite de trabalho, conversando com recém chegados que ainda não se deram conta de que morreram de forma violenta. Sem qualquer conflito com essa condição, mantida em segredo, ele leva aquela vida comum e sacrificada de morador de periferia, mantendo um casamento em pé de guerra com Odete (Fabiula Nascimento), com quem tem um casal de filhos.

Numa dessas noites comuns, um dos mortos comenta sobre detalhes particulares de uma vida de assassinatos. Stênio encontra aí uma possibilidade de usar essas informações para acertar as contas com alguém de seu bairro, uma decisão da qual ele, claro, vai arrepender-se. Na apresentação do personagem principal e seu conflito, bem resumidos nesta sinopse, Morto Não Fala é bastante promissor, já que evita os deslizes comuns deste tipo de produção. Por exemplo, percebe-se o esforço nos diálogos e em um retrato muito natural dos trabalhadores deste ramo.

Com uma direção de arte convincente para compor esse ambiente realista, além de mórbido para a maioria das pessoas, o primeiro ato da jornada de Stênio, com Daniel de Oliveira saindo-se muito bem na composição, é o melhor do filme, infelizmente. O lamento é por conta da comparação entre começo e restante, já que o desenvolvimento e a finalização do arco dramático acabam cedendo ao que existe de mais batido no Terror.

Depois do incidente que tira dos trilhos a vida do protagonista, Morto Não Fala se permite tornar-se uma narrativa de assombração e possessão. Não faltam portas que se fecham sozinhas, objetos que se movem do nada e, claro, jump scares. Já existe nisso uma quebra de ritmo considerável, agravada por uma duração de 110 minutos. Com a tradicional ameaça que precisa ser detida, o texto também se permite virar do avesso a lógica interna do que foi apresentado no início, cuja sutileza era infinitamente mais interessante.

Isso tudo torna-se ainda mais incômodo pelo tom deveras episódico do longa, ainda que soe compreensível quando descobrimos que esse projeto tem como intenção gerar uma série de TV. Nenhum problema com esse objetivo, mas essa ampliação da trama principal aparenta ter sido escrita às pressas, sacrificando muito dos méritos iniciais. A finalização do filme reforça esse argumento, em uma sequência bastante movimentada, quando a personagem de Bianca Comparato tem uma participação mais fisicamente ativa.

Crítica do terror nacional Morto Não Fala

Tecnicamente bem feito

Entretanto, é preciso reconhecer que por toda essa duração existe capricho geral. Além do já elogiado ator principal e do restante do elenco defendendo bem seus papéis, o filme convence também no retrato da vida na periferia. A fotografia de André Faccioli acerta no tom e dá unidade visual à narrativa.

Os efeitos especiais de Marcelo A. M. P. também são interessantes, trazendo um estranhamento bem vindo aos momentos em que Stênio usa suas capacidades. Nos demais trechos, é perceptível o esforço em criar uma mise-em-scène interessante e esse é, indiscutivelmente um dos pontos que salva a produção. Apesar de um terceiro ato que parece buscar desesperadamente uma afirmação inequívoca como Terror, através dos cacoetes que acabam por nivelar o público por baixo, os méritos técnicos precisam ser reconhecidos.

No saldo final, fica a impressão de que Morto Não Fala poderia ter deixado seu primeiro ato como episódio piloto de uma série. Se teria sucesso e continuaria, não temos como saber, mas deixaria, então, um belo média metragem, com sutis portas abertas para ir em frente. Lamentavelmente, a única certeza que temos é que o mundo do audiovisual, não apenas no Brasil, não é tão simples e tais decisões não são de quem coloca, de fato, a mão na massa. Uma pena.

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