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A Glória e a Graça – Podem me dizer onde elas foram parar?

A Glória e a Graça e as ótimas intenções do cinema brasileiro…

Dirigido por Flavio Ramos Tambellini, A Glória e a Graça tem uma premissa que se aproxima de Manchester à Beira Mar . Com a proximidade de sua morte, Graça, a irmã mais velha vivida por Sandra Corveloni, tenta se aproximar seu irmão, Luiz Carlos, para que ele assuma a guarda de seus sobrinhos, Papoula (Sofia Marques) e Moreno (Vicente Kato), quando ela morrer. O dilema está no fato de que o irmão hoje se chama Glória e é travesti. Um plot bastante interessante, valorizado pela escolha de Carolina Ferraz para o papel de Glória, que encarou o desafio muito bem. O trabalho corporal, a voz grave, o rosto masculinizado, tudo muito bem colocado pela atriz, que também produziu a “fita”.

A Glória e a Graça é mais um exemplo de que nosso cinema precisa de mais do que boas intenções

A Glória e a Graça

Infelizmente, o que é muito bom na sinopse se perde na execução. Fora Carolina, o filme não traz nada do que promete. Eu, particularmente, não critico filmes brasileiros com o mesmo peso que os filmes norte-americanos ou franceses. O mercado dos EUA produz mais de 10 mil filmes por ano, enquanto os franceses entregam quase mil, mas tem mais de um século de tradição. O Brasil comemorou recentemente a marca de 143 películas lançadas em 2016. Com isso, quero dizer que para extrair filmes de qualidade em um universo de 10 mil opções, é muito mais simples do que fazer o mesmo em menos de 150 filmes.

Independente disso, é preciso separar do “bolo” certos conceitos que já deveriam ter sido assumidos pelos nossos profissionais. Quando falamos de um gênero como road movie, o caso de Reza a Lenda, por exemplo, ainda estamos engatinhando na parte técnica e precisamos de mais experiência de execução para que os bons trabalhos comecem a aparecer. Só que esse não é o caso do gênero Drama. O Brasil já faz isso bem. E temos bons exemplos de tratamentos bem feitos e delicados, como Central do Brasil”, Hoje eu quero voltar sozinho ou Que horas ela volta?.

A Glória e a Graça é mais um exemplo de que nosso cinema precisa de mais do que boas intenções

Por que ainda nos deparamos com roteiros tão superficiais como esse?

Assinado por Lusa Silvestre (do excelente Estômago, de 2007) e Mikael de Albuquerque, o roteiro de A Glória e a Graça peca muito ao tentar criar uma discussão sobre um tema ainda polêmico (mas nem tanto), porém com personagens bastante superficiais, diálogos redundantes e cenas gratuitas.

Graça, uma das protagonistas do filme, é rasa e não tem qualquer carisma, sendo sempre ofuscada pela irmã. Ok, Carolina está bem, mas é a falta de profundidade de Graça o que destoa. Uma maldade com a atriz Sandra Corveloni. Alguns personagens são totalmente desperdiçados como Fedra, da boa atriz trans Carol Marra, uma das poucas boas surpresas. Piorando o conjunto, os diálogos são corriqueiros, quase sempre repetindo o que se vê em cena, e – com raras exceções – são pouco inspirados (eu não aguentava mais ouvir o nome “Papoula”).

O filme quebra uma regra essencial do cinema: “Show, don´t tell!” (traduzindo livremente, “Mostre, não conte”). A maioria dos conflitos se refere a fatos do passado que são, quase sempre, lembrados em conversas à mesa. Algumas cenas e acontecimentos não fazem a trama avançar e não acrescentam nada ou soam forçados, como o romance de Glória. Isso é algo que não é preciso mais explicar para quem quer escrever para cinema. Se a cena não faz falta na história, não precisa estar lá. Para subverter essas regras, é preciso entendê-las.

A Glória e a Graça é mais um exemplo de que nosso cinema precisa de mais do que boas intenções

Tecnicamente, também existem diversos problemas. O uso dos planos não acompanha a linguagem cinematográfica. O som não é usado como ferramenta. A trilha não traz emoção. A direção é pouco natural.
Esses problemas vão se acumulando ao longo do filme, sacrificando no espectador a sensação de verossimilhança necessária para que um filme alcance seu objetivo. Não deu. Apenas, não deu.

Essa é uma crítica dura. E, a meu ver, necessária. Já não existe mais espaço para filmes que não tenham técnica aliada ao conteúdo. O cinema nacional precisa crescer, mesmo com apenas 150 filmes ao ano.

A Glória e a Graça não faz jus ao nome. Ambas se perderam no caminho.

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