Home > Cinema > Artigos > Horror no Real – Quando uma realidade assustadora inspira filmes indignos!

Horror no Real – Quando uma realidade assustadora inspira filmes indignos!

Marcada por filmes B, a franquia Amityville tem na origem um caso de horror intrigante

Muitas já foram os acontecimentos reais que renderam filmes memoráveis. Na quase totalidade das vezes, a ficção, justamente por não se posicionar como documentário, se dá a liberdade de pintar os fatos para deixá-los mais “divertidos” ao público durante duas horas de sessão. Em todos os gêneros, não faltam exemplos de filmes que chamam a atenção para histórias obscuras – ou para as quais não deteríamos especial atenção se não fossem pela ótica criativa de um diretor. No horror e no suspense, a liberdade criativa se torna ainda mais estridente, não faltando filmes inspirados em acontecimentos macabros que resultaram em obras muito populares.

A fidelidade ao original, sempre entre em debate quando estamos diante de uma adaptação, seja ficção-ficção ou, o tema em questão, realidade-ficção. O que mais chama a atenção, no entanto, é quando a mente criativa do diretor e a fortuna dos grandes estúdios não conseguem fazer com que o imaginário supere o fato original. De forma assustadoramente comum, o real pode ser muito mais intrigante e assustador que muitos clássicos do cinema.

Os casos em que a ficção se sobrepõe à realidade, como no maior clássico do terror mundial, O Exorcista (1973), dificultam a análise do fato original, muitas vezes reinterpretado para cristalizar o sucesso das superproduções. O filme de Willian Friedkin, adaptado do livro de William Peter Blatty, foi uma ficção inspirada em um obscuro caso de possessão demoníaca sobre a qual Blatty havia lido quando ainda era estudante na Universidade de Georgetown, em Washington, EUA. O artigo ao qual o futuro escritor teve acesso, relatava o exorcismo de um garoto na cidade de St. Louis na década de 1940.

horror

O mais conhecido filme baseado em “fatos reais”.

O que se sabe sobre o processo de expulsão da influência demoníaca sobre um menino de 13 anos por padres luteranos foi alardeado posteriormente ao sucesso do filme. Blatty havia baseado toda a sua investigação em publicações dos jornais e relatos de pessoas que não estiveram presentes no ocorrido – um fato que, até então, nunca obtivera especial atenção da mídia, ou de especialistas no assunto. Por mais intrigante que o caso tenha sido, o estrondoso sucesso desse clássico contamina uma análise mais crítica dos fatos.

Situação essa que não vale para outros casos que tiveram expressiva cobertura da mídia, e resultaram em filmes que na maioria das vezes não são dignos dos fatos que o deram origem. Muitos péssimos filmes tiveram origem em casos surpreendentes, de tornar a noite de sono intranquila.

Uma das franquias mais prolíficas do terror B norte-americano é a série Amityville, que já rendeu nove produções “oficiais”, sendo quatro para o cinema (a mais recente delas, o tosco Amityville: O Despertar) e as demais diretamente para vídeo ou televisão. O primeiro filme da série (The Amityville Horror, 1979) que no Brasil teve lançamento tardio e diversos títulos (A Mansão do Diabo, Amityville: A Cidade do Horror, Terror em Amityville) é um clássico do terror de casas assombradas, alcançando boa bilheteria, fãs exaltados e até uma indicação ao Oscar de Trilha Sonora em 1980.

A história é uma adaptação do livro homônimo do escritor norte-americano de horror, Jay Anson, lançado dois anos antes, sobre os percalços sofridos pelo casal Lutz, e os três filhos da mulher durante o mês em que viveram na casa que havia sido cenário de uma chacina brutal. Livro e filme usam e abusam do sobrenatural para impressionar o público, mas a história real possui ingredientes que poderiam assustar muito mais o  espectador desprevenido.

O real

Em 1964, o proprietário de uma pequena revendedora de carros, Ronald Joseph DeFeo, comprou com a esposa uma casa de nove cômodos no distrito de Amityville, na região metropolitana de Nova York. A casa teria custado entre US$30.000,00 e US$68.000,00, a depender da fonte, mas mesmo assim uma pechincha para os padrões da região – uma avaliação feita em 1974 estimou a propriedade em mais de US$ 112.000,00.

Durante 10 anos, o casal e os cinco filhos viveram de forma discreta, embora visitas da polícia não fossem incomuns devido aos arroubos de violência do mr. Ronald contra a família. À parte dessa questão, a década decorreu sem que os DeFeo chamassem a atenção de vizinhos e parentes para qualquer assunto natural ou sobrenatural. Isso até a madrugada de 13 de novembro de 1974.

No começo daquela noite, Ronald Joseph “Butch” DeFeo Jr, de 24 anos, filho mais velho do casal, entrou em bar da cidade com ares de desespero, pedindo ajuda por temer que algo de ruim tivesse acontecido com sua família. Um grupo de amigos de Ronald foi até a casa, localizada na Ocean Avenue, 112, e encontraram um cenário de horror. Todos os cinco membros restantes da família estavam mortos: os pais Ronald DeFeo, 43 anos, Louise DeFeo, 42 anos, e os quatro irmãos de Ronald, Dawn, 18 anos; Allison, 13 anos; Marc, 12 anos e John Mathew, 9 anos. Todos tinham sido baleados com um rifle modelo Marlin 336c calibre 0.35, cerca de três horas da madrugada daquele dia. Os pais DeFeo tinham sido baleados duas vezes, enquanto as crianças tinham sido mortas com um tiro apenas.

horror

DeFeo e o local do crime.

Imediatamente chamada, a polícia encontrou Ronald em desespero, gritando que alguém havia matado sua família. Foram iniciadas diligências a procura do criminoso, enquanto o jovem sobrevivente era encaminhado para proteção e esclarecimento. Sem nada encontrar, os policiais focaram atenção na única testemunha vivia do caso. Ronald havia trabalhado todo o dia na loja de carros do pai, demonstrando para os colegas preocupação pelo silêncio da família e pela ausência do pai no trabalho.

Contudo, o jovem hesitou em voltar para a casa. Nas primeiras horas de análise dos corpos, a perícia constatou que as mortes ocorreram mais de 15 horas antes dos corpos serem encontrados, entre 3h e 4 h daquela madrugada. Ronald não soube explicar onde estava naquele momento. Sob pressão, Ronald confessou os assassinatos na tarde de 14 de novembro.

O Mal em nosso lar

Ao longo das investigações, Ronald deu diversas declarações sobre o que o teria levado àquele crime brutal. A versão mais famosa foi a utilizada pela defesa em seu julgamento, em 14 de outubro de 1975. Ronald disse aos jurados que vozes vindas das paredes da casa mandavam ele matar a família. O assassino disse ter resistido o quanto pode, mas acordava todas as noites, por volta das 3h, com as vozes ordenando a chacina, ao que ele cedeu na noite fatídica, utilizando uma das armas do pai. O advogado alegou insanidade.

Para reforçar a tese de desequilíbrio mental de Ronald e da violência como mecanismo de defesa, o defensor William Weber apresentou diversas provas sobre o caráter violento do pai de Ronald, Ronald DeFoe Sr, muitas vezes acusado de agressão contra a esposa e os filhos, sobretudo o mais velho, aparentemente a vítima preferida de seus ataques.

Weber também declarou que o réu era viciado em drogas, e que os pais estavam envolvidos com o tráfico local. Todas essas informações já haviam sido amplamente exploradas pela mídia da época, mas nada comoveu os jurados, que condenaram Ronald a seis penas de prisão perpétua pelos seis crimes que cometeu. Atualmente com 66 anos de idade, Ronald está preso na penitenciária Green Haven Correctional Facility, em Beekman, em Nova York, e todos os seus apelos para condicional foram rejeitados.

O sobrenatural

Ao longo das décadas, Ronald mudou diversas as vezes a versão sobre o que teria acontecido naquela noite. Ele já botou a culpa pelos crimes em intrusos, no pai, na mãe e na irmã. Mas o que realmente chamou a atenção do caso foi o caráter sobrenatural que a história ganhou.

Logo nos primeiros meses após o crime, com as alegações de que a casa o teria comando na execução dos assassinatos, um fato chamou a atenção da mídia sobre o que veria a se tornar o primeiro mistério associado ao fantasmagórico do caso: com exceção de Dawn DeFeo, a irmã de Ronald, todos os outros corpos foram encontrados na cama, sem sinal de pânico. Com a família não acordou ao som dos primeiros tiros?

Um rifle sendo disparado dentro daquela casa poderia ser ouvido inclusive pelos vizinhos, mas ninguém relatou ter ouvido nada, mesmo em uma noite calma e silenciosa como aquela. Tanto a polícia quanto a imprensa chegaram a fazer testes que mostraram que o tiro poderia ser ouvido a uma boa distância. Mesmo assim, os corpos foram encontrados sobre a cama, sem qualquer indício que haviam sido movimentados após a morte. Apenas irmã foi achada caída em outra parte da casa, o que levou a conjecturas sobre a participação dela na chacina.

Observações mais acuradas depois apontaram que a família poderia sim, ter acordado com os primeiros disparos, mas por algum motivo não se movimentou até o momento final. Porém, em 1974-75, na esteira do estrondoso sucesso de O Exorcista, no ano anterior, a mística cultura pop norte-americana dos ano 1960-70 encontrou um prato perfeito nos acontecimentos de Amittyville. A alegada possessão demoníaca de Ronald DeFeo não poderia vir em melhor momento. Mas os fãs de terror ainda não sabiam que essa história ainda teria um segundo capítulo.

horror

George e Kathy Lutz

Depois de um ano vazia, em 18 de fevereiro de 1975, George e Kathy Lutz, se mudam para a casa da Avenida Ocean, 112. Junto com os três filhos do primeiro casamento de Kathy, o casal se aproveita do baixíssimo preço da propriedade à venda e a adquire a para tocar a nova vida, sem se importar com passado sombrio do lugar. Menos de um mês depois, a família foge da casa recém-comprada alegando terríveis experiências testemunhadas ali.

Já sob foco de alguma imprensa por terem sido os primeiros moradores da casa após a mortandade, o casal se tornou centro de um escândalo nacional, sendo chamados sobreviventes, vítimas ou criminosos fraudadores, dependendo de quem os analisava.

O fato, é que a os dois contaram uma história bizarra, envolvendo objetos que se moviam sozinhos, odores fétidos desconhecidos, luzes, vozes e sons misteriosos, enxames de moscas repentinos, paredes que pareciam sangrar, crucifixos que se desprendiam sozinhos, feridas na pele que surgiam durante a noite, entre outros acontecimentos.

O caso Lutz caiu com uma bomba na mídia da época. Em pouco tempo, o assunto era tema de dezenas de reportagens e documentários. Pesquisadores psíquicos do mundo inteiro e a própria igreja se interessam pela casa, visto que o padre local teria sido testemunha de uma manifestação extraordinária.

Em fevereiro de 1976, o mais famoso casal de investigadores paranormais do EUA, Ed e Lorraine Warren, já célebres na época dos acontecimentos, foi contratado por George Lutz para estudar a casa. Nos 40 anos seguintes, Lorraine diria a todos que perguntassem que aquela casa era o lugar mais maligno que já visitara. O comportamento dos Warren ajudou a transformar a residência da avenida Ocean, 112, como a casa mal-assombrada mais famosa dos EUA.

O Sucesso (e o “dessucesso”)

Pouco mais de um ano depois, os Lutz venderam o direito da história para o escritor Jay Anson, até então um obscuro roteirista de televisão. Surgiu então, The Amityville Horror: A True History (1977), um romance de terror “baseado em uma história real”.

horror

O livro de Anson.

O livro, porém, mescla alguns acontecimentos de conhecimento público com outros totalmente imaginários, colocando os Lutz no centro de uma trama paranormal contada com recursos literários de baixa qualidade. Repleto de liberdades criativas, o livro tornou-se, rapidamente, um sucesso. Jay Anson ainda escreveria um outro livro sobre casa assombrada, 666 (1980), este, sim, assumidamente ficcional, mas sem o mesmo resultado.

Em 1979, o caso chegaria aos cinemas com The Amityville Horror, filme dirigido por Stuart Rosenberg, com James Brolin (Traffic) e Margot Kidder (Superman, o Filme) nos papéis de George e Kathy Lutz. Com boa direção, fotografia, trilha sonora e caprichada atuação do elenco, a produção fez relativo sucesso dos EUA, se tornando um dos melhores e mais famosos filmes sobre casas assombradas já feitos apesar das falhas de roteiro, que tornam a obra um pouco arrastada. O filme chegou a ser indicado ao Oscar de melhor trilha sonora em 1980.

O sucesso da história produziu uma sequência de mais oito filmes, o último deles Amityville: O Despertar (2017), além de uma refilmagem do filme original em 2005, com Ryan Reynolds (Deadpool) no papel principal. Todos péssimos, competindo entre si para o pior, sendo que a maioria foi feita diretamente para TV ou home-video. Amityville II: The Possesion (1981), que no Brasil foi lançado como Terror em Amityville, é o único que retrata os assassinatos da família que deram origem ao caso, porém com novos nomes para os personagens e situações totalmente inventadas pelos produtores.

O filme, de baixo orçamento e maquiagem tosca, tem  roteiro descaradamente copiado de O Exorcista, mas sem a mesma competência. O visual amador e o elenco interessante, no entanto, melhoram a experiência de terror do público. Já Amityville 3-D ou Amityville III: O Demônio, (1983), dirigido por Richard Fleischer, vale para ver a estreia de Meg Ryan no cinema e poucas cenas de terror de qualidade, mas prepara-se para se constranger com os “efeitos-especiais” em 3D. Esqueça todos os outros filmes, que em sua maioria falam de objetos amaldiçoados oriundos da casa maldita (Abajur, espelho, relógio, casa de bonecas).

O casal Lutz, afinal, conseguiu vender a casa em 1979 por um preço maior do que pagaram e se recolheram. Ganharam muito dinheiro com os direitos da história para cinema e literatura. Recentemente, o filho de Kathy, Daniel, que tinha nove anos na época dos acontecimentos, veio a público defendendo os pais e confirmando os fantásticos eventos. Os novos donos da casa alteram o número do imóvel e reformaram a fachada para afastar curiosos. Com a reforma, se foram as icônicas janelas em formatos de olhos que tanto inspiraram os assustados.

Nestes mais de 40 anos desde que os Lutz abandonaram o local, nunca mais ninguém veio a público relatando acontecimentos fantásticos na casa.  Porém, coincidência ou não, a casa passou por diversos donos nesse período, sendo três apenas nos últimos seis anos. A realidade continua despertando mais interesse sobre esse caso que a ficção.

Já leu essas?
Alta Ansiedade - Mel Brooks
Alta Ansiedade, de Mel Brooks, no Formiga na Tela!
Doutor Estranho - Full Moon
Doutor Estranho como você nunca viu no Formiga na Tela!
Tomie - Junji Ito
Tomie, de Junji Ito, na pauta do Formiga na Tela!
Django - Sergio Corbucci
Django, o original de Sergio Corbucci, no Formiga na Tela!