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Star Trek Discovery / Primeira Temporada – Episódio 8: Crítica!

Si Vis Pacem, Para Bellum põe Star Trek Discovery nos eixos para o final da temporada

Aos poucos, e apesar das oscilações, Star Trek Discovery parece encontrar sua própria identidade como uma série trekkerSi Vis Pacem, Para Bellum nos oferece algumas interessantes perspectivas que, pelas próprias limitações dos roteiros e do desenvolvimento dos personagens até aqui, ainda não tínhamos visto. Issó ótimo por dois motivos – finalmente, temos outro episódio que consegue oferecer algo de Star Trek sem precisar fugir a trama estendida proposta pela série – como o episódio da semana passada – e porque dá fôlego para a série chegar bem ao seu primeiro final de temporada.

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Entre os méritos do episódio, nós temos a primeira missão avançada da série. Antes tarde do que nunca. E a missão não decepciona. Com um time montado por Saru, Burnham e Tyler, nós temos alguns insights preciosos, que não deixam de lado a razão trekker de ser: explorar novos mundos e fazer contato com novas civilizações.

O trio investiga o desabitado planeta Pahvo, em busca de uma maneira de contornar a mais nova, perigosa e eficiente arma dos klingons na guerra: a tecnologia de camuflagem. Conforme a sequência de ação da abertura do episódio nos educa, os klingons agora têm a vantagem na guerra, já que a Federação foi incapaz de reproduzir a tecnologia Tardígrado-Stamets – e a Discovery não é capaz de estar em todos os lugares ao mesmo tempo.

Assim, a tal missão avançada busca na inusitada e poderosa projeção eletromagnética do planeta Pahvo uma maneira de gerar uma espécie de “sonar” espacial, capaz de detectar a presença dos inimigos. Entretanto, o planeta não é desabitado, e, como todos nós sabemos, a Primeira Diretriz precisa ser observada. Enquanto isso, na Nave dos Mortos klingon, nós temos um encontro entre a abduzida almirante Cornwell e sua interrogadora, a pária L´Rell.

A premissa do episódio – como sempre deveria ser em Star Trek, e aos poucos Star Trek Discovery parece estar aprendendo – é muito menos interessante do que sua execução, que é tudo o que nós podemos esperar de uma série trekker. Os pahvonianos são uma raça feita de energia, e atingiram o completo equilíbrio e harmonia em seu planeta – e desejam estender essa conquista para todos os povos da galáxia dispostos a ouvi-los.

Guerra e Paz, segundo Star Trek

O contato da equipe avançada com essa raça oferece algumas perspectivas muito interessantes. Saru, oriundo de uma raça de presas e predadores – e sendo uma das presas – vive em constante estado de alerta e de medo. Seu contato com os pahvonianos o permite suspender esse estado. Quando ele é ameaçado retornar à sua condição natural, ele reage violentamente. O que é uma bela reflexão sobre como seres inocentes reagem quando são acuados pela ameaça da violência e da morte.

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E isso não é dito aqui em vão. Muito se falou até agora – justificadamente – sobre a natureza banal da guerra em Star Trek Discovery, e sobre o comportamento errático e insatisfatório dos representantes dos ideais da Federação nela. A reação de Saru em relação a toda a situação criada pelos pahvonianos não deixa de ser uma metáfora sobre a relação da Federação – ergo, dos seres humanos – com um estado de medo indesejado, e com o qual nós não temos outra maneira de lidar, senão com uma escalada de violência. Si vis pacem, para bellum – Se deseja a paz, prepara-se para a guerra. Nada como um romano, Vegécio, para simbolizar a situação da sitiada Federação.

Não obstante, os companheiros de Saru, Burnham e Tyler, acabam servindo como um interessante contraponto a essa mesma reflexão. O grande valor desse oitavo episódio está nos seus diálogos – muito bem escritos e pertinentes. Tyler, um personagem virtualmente inútil até aqui, acaba servindo como um espelho para algumas perspectivas.

Primeiro, em diálogo com Burnham, ele revela querer voltar para a Terra para pescar quando a guerra acabar. Parece frívolo, mas ajuda a expor a condição de Burnham – como ela mesma lembra e se faz lembrar, quando a guerra acabar, ela volta para o cárcere. Isso é muito agudo, pois torna o seu esforço para acabar com a guerra ainda mais admirável. Esse simples diálogo nos ajuda a rever a personagem, fazendo-a crescer moralmente diante do público.

E segundo, em diálogo com o próprio Saru, Tyler mostra ainda uma outra face da guerra. Ele deixa claro que, ao contrário do que dita o mais nobre espírito humano – que deseja acabar com a guerra para obter a paz em nome do bem coletivo – ele quer apenas ferir os klingons. Porque ele foi torturado, e nutre ódio pelo que ele sofreu. Isso é muito interessante e relevante, afinal, nas melhores narrativas de guerra, a perspectiva daqueles que sofreram é sempre mais contundente.

Não é o futuro utópico da Federação que vai impedir os seres humanos de ainda nutrirem – justificadamente – alguns de seus instintos mais básicos. Basta pensar que mesmo Picard – um ser humano infinitamente superior a Tyler em qualquer aspecto – quase foi quebrado quando foi torturado pelos cardassianos. A revelação de Tyler só torna a série mais humanizada, o que é um ponto extremamente positivo, mesmo que exponha a má condução dos primeiros episódios.

Em Si vis pacem temos uma excelente condução do desenvolvimento dos personagens, dentro do contexto exploratório que é o DNA de Star Trek. Não podemos pedir mais do que isso. Não obstante, a condição de Tyler ainda irá nos ajudar – a posteriori, talvez – a compreender melhor a trajetória e as motivações de Lorca, que chega ao final da temporada ainda envolto em pontas soltas, e sustentado apenas pela ótimas atuação de Jason Isaacs.

Klingon of Thrones

Já na trama klingon, nós temos mais uma reviravolta – é curioso como, apesar de exposta apenas pontualmente, a trama klingon parece tão ou mais interessante do que o resto da série. L´Rell, após se ver novamente sozinho após o exílio de Voq, chega ao final da primeira temporada de Star Trek Discovery como uma jogadora extremamente importante.

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Ela se aliou a T´Kuvma, a Voq, tentou se unir a Kol, e agora neste episódio tentar desertar – apenas para falhar e colocar Cornwell numa situação aparentemente sem volta. A subtrama klingon parece ser a única parte das lições de séries modernas – leia-se: Game of Thrones – que Star Trek Discovery parece ter aprendido e aplicado bem em toda a continuidade da temporada.

Fora isso, nós ainda temos mais uma pincelada na situação de Stamets, que revela efeitos colaterais da sua bad trip de cogumelos ainda mais fortes – ele muitas vezes não sabe onde ou quando ele está (ele não chamou Tilly de “capitã à toa…). Para quem serve de motor de navegação vivo, isso pode gerar problemas – e alguns ÓTIMOS – motes para aventuras da Discovery, mesmo que isso claramente não esteja fazendo bem para o próprio Stamets.

Sendo formas de vida profundamente dedicadas à busca da paz e da harmonia, os pahvonianos acabam convidando a Nave dos Mortos dos klingons para uma conversa com a Discovery – adiantando um encontro que certamente determinará o futuro da guerra – e das filosofias que conduzem ambos os lados. Um final que oferece bastante potencial, dado que Star Trek Discovery aparenta – salvo alguns percalços – estar melhorando constantemente.

Si vis pacem, para bellum – se quer paz, prepare-se para a guerra. Estamos preparados para o final da primeira temporada de Star Trek Discovery? Saberemos semana que vem.

Não deixe de conferir nossa crítica dos episódios anteriores!

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  • Fabiano M Costa

    Ótima crítica! Só tenho um ponto a considerar: os roteiristas esqueceram da almirante que é prisioneira dos Kingons? O Lorca esqueceu da sua “amiga”? Em outras séries ST, no máximo no episódio seguinte já iriam resgatá-la.