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A Cura – O Horror literário e cinematográfico!

O roteiro de A Cura é melhor do que parece

A Cura (A Cure For Wellness), o novo longa metragem do talentoso Gore Verbinski, é um filme que será muito mais apreciado caso o espectador conheça a literatura de horror gótica e algumas das incursões do gênero dentro da história do cinema. Embora a trama seja envolvente e mantenha o espectador interessado até o final, é a sua proposta temática, construída através de referências literárias e cinematográficas, que transformam o projeto autoral de Verbinski em uma das obras de horror mais fascinante e bem sucedida dos últimos anos.

Filme A Cura, de Gore Verbinski, acerta no gênero Horror

A Cura

A história do filme gira em torno do protagonista Lockhart (Dane DeHaan). Jovem e ambicioso, ele trabalha no ramo financeiro em Wall Street. Enviado pelo seu superior a uma casa de repouso nos Alpes Suíços com o propósito de trazer de volta para Nova York o senhor Pembroke (Harry Groener), um executivo que, após ter abandonado a vida profissional, afirmou ter encontrado “a cura” para os males da existência no mundo moderno, Lockhart se depara com um local falsamente idílico, onde a aparência de normalidade e bem-estar esconde segredos e mistérios envolvendo os médicos, pacientes e o passado da clínica.

Escrito por Justin Haythe, a partir de uma história concebida por ele e Gore Verbinski, o roteiro de A Cura se apoia em uma estrutura simples: ao encontrar um lugar recheado de mistérios, sujeito começa a investigar por conta própria os segredos daquele ambiente. Claramente, a intenção da dupla foi a de construir uma história modesta para que, sobre ela, Verbinski e a sua equipe pudessem apresentar as suas concepções visuais e todo o seu leque de referências cinematográficas e literárias. Aliás, para reforçar essa ideia, a trama é, em alguns momentos, propositalmente previsível (por vezes, Verbinski deixa claro quais elementos serão importantes para o desdobramento da história) No entanto, ainda assim, há elementos presentes no roteiro que se sobressaem e merecem ser destacados.

Filme A Cura, de Gore Verbinski, acerta no gênero Horror

O primeiro desses elementos é o protagonista. Ganhando vida através da intensidade e do olhar psicótico de Dane DeHaan, Lockhart é o típico anti-herói: arrogante, excessivamente ambicioso, impaciente e egoísta. Porém, ele é vulnerável emocionalmente. E será nessa ambiguidade comportamental que o personagem transitará por toda a narrativa. Uma hora ele se rebelará e, na outra, se resignará, mesmo que seja momentaneamente. Isso faz com que o personagem nunca seja definido como uma vítima, ou como uma pessoa que tem pleno controle da situação. Essa dualidade é essencial para a existência de uma conexão emocional entre o público e o protagonista, pois, ao passo que sentimos pena dos seus traumas e vulnerabilidades, também o admiramos pela sua coragem.

Um outro elemento que também merece ser mencionado é o comentário social que flutua pelo filme sutilmente (a opulência material e o sucesso profissional podem ser ilusórios). No início, ele é usado como ponto de partida: o protagonista vai atrás de um sujeito que abandonou a carreira para poder encontrar a si mesmo. Nos minutos finais, ele surge novamente para finalizar o desenvolvimento psicológico e emocional de Lockhart, indicando que, mais do que um ponto de partida, aquele comentário social era o início do arco dramático do personagem. E, ainda no terceiro ato, quando os mistérios são solucionados, há um rima temática brilhante que enxerga uma relação muito próxima entre a promiscuidade financeira do mundo corporativo com a promiscuidade sexual da antiga aristocracia.

Por fim, deve-se destacar a confiança que Haythe e Verbinski depositam na inteligência do seu público. Introduzindo constantemente novas pistas – bizarras e deliciosamente estranhas, por sinal –  para a solução do mistério, o roteiro transforma a jornada de Lockhart numa experiência imensamente prazerosa. Trazendo uma ambientação fascinante e personagens dúbios, a história busca engajar o espectador, dando a ele a possibilidade de juntar as peças e montar o quebra-cabeças (nesse sentido, há outra rima belíssima envolvendo palavras cruzadas), nunca subestimando a sua inteligência com diálogos e discursos expositivos. Até mesmo no final, no momento em que o vilão começa a explicar os seus motivos, a fala do personagem é rapidamente interrompida, o que deixa boa parte dos mistérios não solucionados.

Filme A Cura, de Gore Verbinski, acerta no gênero Horror

A Cura e o gênero Horror

Entretanto, são as já mencionadas referências literárias e cinematográficas que elevam o patamar do filme. Realizando uma busca rápida na Wikipedia, roteiristas e diretores menos talentosos poderiam facilmente jogar essas referências na história sem que houvesse uma relação direta entre elas e a narrativa. Felizmente, Haythe e Verbinski sabiam muito bem o que estavam fazendo. Ao introduzi-las naturalmente na história, o filme nunca vira um veículo para a utilização de fan service (nesse caso, os fãs do gênero Horror) ou um exercício de estilo vazio e arrogante do seu realizador. Todas elas estão perfeitamente encaixadas e dão seguimento à trama.

Depois de uma cena inicial tematicamente importante (os planos contra plongée – câmera baixa direcionada para cima – no começo do filme exibem toda a imponência dos prédios de Wall Street), o filme mostra o protagonista chegando na casa de repouso. O castelo no topo da montanha, a história contada pelo motorista e a trilha sonora ao mesmo tempo horripilante e fantástica de Benjamin Wallfisch já dão o tom de horror clássico do filme (o diretor nunca pesa a mão no suspense, ao contrário de muitos cineastas modernos).

Porém, em outros momentos do filme, principalmente no segundo ato, há um flerte perfeitamente controlado por Verbinski com a existência ou inexistência de um elemento sobrenatural na história e a possibilidade de que aquilo que Lockhart vê é fruto de sua insanidade, no estilo do terror psicológico de  Nas Montanhas da Loucura, de H. P. Lovecraft. E essa é somente uma das referências literárias a permear a obra.

O castelo e o seu anfitrião, o Dr. Volver (Jason Isaacs, brilhante), essenciais para a construção do clima e da atmosfera (aliás, Verbinski é um mestre nisso), nos remetem diretamente aos livros Drácula, de Bram Stoker (tema de um Formiga na Tela, inclusive), e O Castelo de Otranto, de Horace Walpole (romance que originou a literatura gótica). A relação tumultuosa entre a casa de repouso e os aldeões da cidade e a figura do cientista louco, também importantes para a trama, se assemelham ao Frankenstein, de Mary Shelley (aliás, a própria decisão dos realizadores de construírem a narrativa a partir de vários pedaços de clássicos da literatura e do cinema reflete o conceito por detrás dos planos malucos do doutor Frankenstein).

Filme A Cura, de Gore Verbinski, acerta no gênero Horror

A possível vilania dos médicos escondida atrás da simpatia, um dos elementos mais usados para a construção de suspense no filme, é uma referência a O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson (outro livro que foi tema em nosso videocast). Hannah (Mia Goth, inocente e sexy), uma personagem central da história, é muito parecida com as figuras angelicais dos poemas e contos de Edgar Allan Poe. E a água rejuvenescedora e a cena final envolvendo a retirada de uma máscara, por sua vez, fazem o espectador lembrar de O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde.

Já essa cena final, que também serve para homenagear os filmes de monstros da Universal, é a última de várias referências que A Cura faz a alguns clássicos do Cinema. Há similaridades entre a figura do Dr. Volver e Nosferatu, do clássico de F. W. Murnau. Quando Lockhart chega na casa de repouso, algumas imagens se parecem com às de Ilha do Medo, de Martin Scorsese. A ideia de mostrar um ambiente paradisíaco para depois contrastá-lo com violência é igual a O Homem de Palha, do Robin Hardy. Finalmente, a paleta de cores adotada pela equipe da direção de arte e o diretor de fotografia (embora a fotografia deste filme seja menos saturada ) e o flerte com diferentes tipos de horror trazem à memória Suspiria (que também já foi comentado em um dos nossos vídeos) e outras obras de Dario Argento.

Cometendo erros apenas na presença de algumas cenas desnecessárias, A Cura é, ao mesmo tempo, trash e clássico, bagunçado e controlado, intimista e épico, original e referencial. É um banquete tanto para aqueles que querem apenas acompanhar uma história estranha e divertida quanto para os que são fãs do gênero Horror, seja na literatura, seja no Cinema. Filmes dessa natureza costumavam ser feitos nas décadas de 1930 e 1940 nos Estados Unidos ou nas de 1960 e 1970 na Itália, mas não na Hollywood do século XXI. Bem, pelo menos até agora…

(Aproveite e leia também este artigo sobre a evolução do Terror na literatura)

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