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American Crime Story – Compreendendo os fatos!

American Crime Story, série apradinhada por Ryan Murphy, se mostra uma das melhores da atualidade

Se observarmos entre todos os showrunners da televisão americana, Ryan Murphy se mostra um dos mais ecléticos e mais bem sucedidos da atualidade. Entre alguns dos produtos com o nome de Murphy estão: Glee, American Horror Story, Screem Queens e Niptuck; a minissérie Feud, e o aclamado telefilme The Normal Heart. Agora, Murphy produz e dirige American Crime Story, cuja segunda temporada terminou semana passada e, pra variar, o faro de sucesso de Murphy continua apurado.

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Desenvolvida por Larry Alexander e Larry Karaszewski, a série se propõe a contar crimes que marcaram época nos Estados Unidos, não mostrando apenas os acontecimentos com os envolvidos, mas todo o contexto social do momento, mostrando-se muito rica e bem feita. (Aviso: Falarei dos casos reais, portanto, haverão spoilers sobre a conclusão do caso.).

1ª Temporada: O Povo Vs. O.J. Simpson

O caso: Em junho de 1993, o grande astro de futebol americano, O.J. Simpson (Cuba Gooding Jr.), foi acusado de assassinar sua ex-esposa, Nicole Brown Simpson, e Ron Goldman. Mesmo com o histórico de violência doméstica de Simpson, os seus advogados, liderados por Johnnie Cochran (Courtney B. Vance), disseram que era mais um crime movido pelo racismo da polícia de Los Angeles, no qual mais um negro era injustamente acusado por um crime que não havia cometido. Nisso, o julgamento de Simpson durou dois anos, e acabou resultando em sua “inocência”.

Baseada no livro The Run of His Life: The People v. O. J. Simpson, de Jeffrey Toobin, a primeira temporada de ACS se mostra sublime do começo ao fim. É uma temporada que te pega pelo colarinho e não te solta. Além do texto muito bem escrito, a série se preocupou em desenvolver todos os personagens envolvidos no julgamento de Simpson, mostrando como o caso estava se tornando cansativo para todos, tanto física quanto psicologicamente. E, como ela se preocupa em mostrar todo o contexto que envolvia os acontecimentos, deixa claro o momento em que o julgamento passou a ser um grande circo para a imprensa.

O grande destaque dessa primeira temporada, que a torna muito poderosa, é a força das suas atuações. Todos do elenco estão impecáveis em seus papéis. Cuba Gooding Jr. consegue criar um Simpson que realmente se mostra carismático e que realmente aparenta inocência, mas que em seus momentos de explosão deixa claro que tem uma natureza violenta. David Swimmer faz com que Robert Kardashian seja o personagem com o qual sintamos mais pena, por ele realmente acreditar na inocência de O.J., e ver pouco a pouco que as evidências eram muito fortes – algo que fica estampado de uma maneira cruel no rosto de Swimmer. John Travolta dá o seu melhor trabalho em anos como o patético “advogado” Robert “Bobby” Shapiro, que se mostra mais um agente de relações publicas do que um defensor público, que a todo o momento quer se mostra mais do que realmente é.

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Nesse elenco impecável, outros três atores também se destacam: Sarah Paulson, Sterling K. Brown e Clarence B. Vance. Paulson – grande parceira de Murphy – faz da promotora Marcia Clark uma figura impressionante. Feminista, mesmo Clark sendo uma pessoa de personalidade forte e uma profissional acima da média, ela sofre por ser mulher, e ter que seguir “responsabilidades” impostas pela sociedade. Vemos como isso destrói a personagem – como o momento que ela muda o penteado durante o julgamento e é terrivelmente julgada. Paulson se mostra uma atriz muito disciplinada que consegue mostrar força, mesmo em momento mais frágeis. Não é por pouco que Ryan Murphy sempre tenta uma brecha para Sarah Paulson.

Se Paulson mostra força, Clarence B.Vance consegue ser tão imponente quanto à adversária. Eloquente e prolixo, Vance mostra seu Johnnie como um sujeito de fala poderosa e sedutora, que realmente acredita em sua ideologia. Mas durante a série, vemos que ele vai se cegando por essa ideologia, assim como pelo ego, por mais que as evidências contra Simpson se mostrem incontestáveis. E Vance vai demonstrando essa mudança pela composição física, com um olhar vai perdendo o brilho e se torna mais frio com o tempo.

Já Sterling K. Brown como o assistente de Clarke, Chris Darden, se mostra o mais ingênuo do trio. Indo pela indignação da defesa de Simpson, ele se mostra o mais mudado pelo caso. Vai deixando claro suas ideias e vemos todo os seu amadurecimento, e Brown mostra ter um olhar muito expressivo, ao ponto em que não precisa de palavras. Aquela atuação contida e disciplinada em que menos é mais.

A direção se mostra muito coesa – apesar dos vícios frequentes de Murphy nos episódios que dirige – como o excesso de câmera na mão, velocidade dos frames acelerada, movimentos de câmera estranhos, etc… Mas mostra que o diretor sabe contar uma história, e que dirige atores muito bem. Anthony Hemingway dirige a maioria dos episódios, e consegue usar os vícios de Murphy de maneira mais disciplinada.

Tudo na primeira temporada de ACS combinou para que ela se tornasse inesquecível. Direção bem feita, ótimas atuações e roteiro impecável. Com o sucesso, é claro que viria uma segunda temporada.

2ª Temporada: O Assassinato de Gianni Versace

O caso: Em julho de 1997, o poderoso estilista Gianni Versace (Edgar Ramirez) é assassinado na frente da sua mansão em Miami. O assassino é o procurado serial killer Andrew Cunanan (Darren Criss), que havia matado outras quatro pessoas, e se matou catorze dias depois da morte de Versace.

Essa segunda temporada não é ruim, mas se mostra bem abaixo que a anterior. Não há um numero tão grande de personagens interessantes, e o que há de mais relevante se esgota no meio da temporada – apesar do nível das atuações continuar alto.

Pra deixar claro: essa temporada não focará em Versace, mas sim em Cunanan. Mostra toda a sua infância e suas vitimas, mostrando que é um personagem muito rico. Por mais que seja um mitomaníaco compulsivo, ao ponto de acreditar nas suas próprias mentiras, Cunanan tem o sonho de realmente conseguir uma vida maravilhosa no melhor estilo american way of life – com uma família e uma boa vida, já que suas mentiras geralmente falam sobre ser um burguês culto. Mas essa obsessão mostrou o seu lado frio e psicopata; enquanto na casca vemos uma pessoa inteligente e educada, que não esconde a sua homossexualidade, há um matador frio que não mede limites.

Além do personagem ser muito bem escrito, o que essa temporada tem de bom se deve ao trabalho maravilhoso de Darren Criss, que havia trabalhado em Glee. Essa é uma atuação que merece catapultar a carreira de Criss. É um trabalho contido, que explode dos momentos corretos, e que evita tornar Cunanan apenas mais um psicopata. Vemos que Criss tem um olhar meigo e uma dicção perfeita, mas que se transforma em um olhar frio e calculista com sutileza. É uma transformação muito bem feita pelo ator, que, por mais que seja um personagem que faça ações horríveis, é possível se importar e se envolver com ele, ao ponto de “entender” suas ações. O Andrew Cunanan de Darren Criss é a alma da segunda temporada.

Pois bem, se ele é a alma, acaba se tornando a maldição também. No meio da temporada, que se foca na relação dele com as vítimas – em sua maioria, amantes – parece que não há mais nada para se dizer sobre o personagem, e os episódios ficam focados apenas nele. Fica desinteressante porque pouco se mostra sobre o mundo de Versace, já que a série se preocupa em mostrar as diferenças de ambos os mundos – já que a realidade do estilista é o sonho de Andrew. Esse miolo em que se desenvolve toda a relação entre duas vítimas de Cunanan são de longe o pior momento da série, que, mesmo focando na questão LGBT da época, não fica tão interessante ao ponto de prender o espectador.

Já o núcleo de Versace é mais interessante, apesar de ser pouco explorado. Além do cuidado da direção de arte e fotografia em ressaltar as cores, ela mostram muito bem a artificialidade desse universo. Vemos Gianne como um verdadeiro artista, que tem um grande cuidado com a sua obra, enquanto a sua irmã, Donatella (Penélope Cruz), mostra ser a verdadeira administradora do império.

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Lembra que disse que as atuações continuam no mesmo nível? Por mais que Darren Criss esteja sublime, dois trabalhos desse núcleo chamam muito a atenção. O primeiro é Edgar Ramirez, que, com pouco tempo em cena, cria um Versace com uma presença forte e magnética; mesmo sendo orgulhoso, sempre aparenta que falta algo ao seu mundo. A segunda é Penelope Cruz, que faz o seu melhor trabalho em terras americanas. Donatella demonstra poder em todas as suas cenas, e só com o olhar que ela dirige a Gianni demonstra todo o sentimento: ela ama incondicionalmente o irmão, mas reprova por total o estilo de vida que ele vive. Principalmente com o noivo do irmão, que é bem interpretado por Rick Martin. Com esse trabalho, Cruz demonstra porque era é considerada uma das melhores atrizes espanholas. Pena que aparece pouco.

O ritmo da segunda temporada é bem mais lento que o da primeira, por focar somente nesses dois núcleos – especialmente no de Cunanan. O roteiro se mostra bem irregular, pela queda no meio, mas se recupera bem no final, sendo os três últimos episódios excelentes. O último consegue ser o mais tenso, por mostrar toda a tensão de Cunanan antes de cometer suicídio.

A direção se mostra menos inspirada que a da primeira, mas no primeiro capítulo, os vícios de Murphy fazem sentido com o universo apresentado. A surpresa fica por conta da estreia do ator Matt Bomer na direção, no penúltimo episódio da temporada. É um dos episódios que melhor deixam claro o mistério de Cunanan, e Bomer mostra uma mão segura na direção, apesar de seguir algumas ideias visuais de Murphy.

A terceira temporada de American Crime Story já está em produção, e será sobre o furacão Katrina. Dennis Quaid interpretará o presidente George W. Bush. Há material para fazer uma temporada tão boa quanto a de O.J. Simpson. Não que Versace tenha sido ruim; mas faltou algo a mais no meio da temporada. Ainda assim, foi acima da média. O que importa é que o faro de Ryan Murphy para séries de sucesso continua muito bom.

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