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Minha Coisa Favorita É Monstro – Qual é a sua?

Minha Coisa Favorita É Monstro usa subterfúgios para narrar uma história comovente

Desde o Monstro de Frankenstein, diriam os leitores mais relacionados à literatura moderna. Quem tem algum repertório mitológico vai lembrar do caso do monstro do labirinto de Dédalo – também uma vítima, de certa forma. A ideia de um “monstro” sempre foi um tanto dialética e um tanto muito maior subjetiva: Monstro aos olhos de quem? É sob esse prisma que a autora Emil Ferris tece seu Minha Coisa Favorita É Monstro, lançado pela Companhia das Letras.

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Apesar de ficcional, a trama, elogiada por ninguém menos do que Art Spielgelman, autor de Maus, carrega elementos autobiográficos bastante perceptíveis quando conhecemos um pouco da trajetória da autora. Ela contraiu uma rara doença que deixou seus membros inferiores assim como sua mão esquerda paralisados. Mas, como a própria Ferris faz questão de frisar em entrevistas, sua vida antes desse evento já não era das mais ortodoxas.

Tudo isso para destacar que os grandes valores de Minha Coisa também se alinham com essa visão de mundo heterodoxa. A obra é, apesar de parecer imensamente inovadora é, na verdade, uma grande cortina de fumaça que acoberta uma história intimista e bastante relacionável. Nela, o primeiro elemento simbólico dessa pretensão metalinguística é a escolha por uma narradora onisciente, Karen Reyes, que relata em seu diário em primeira pessoa os eventos de um assassinato e seus desdobramentos.

A trama é essencialmente um noir que se passa em dois tempos: O presente de Karen, na Chicago dos anos 1960, e o passado de Anka, na Alemanha Hitlerista. Anka é vizinha de Karen, e vítima do assassinato. Ao tomar conhecimento de que Anka havia sido assassinada, Karen toma para si a missão de desvendar o mistério. E é aqui que começam as escolhas estéticas e narrativas que dão sabor a uma trama que, de outra forma, poderia ser genérica.

Karen é uma menina de dez anos. E Karen representa a si mesma como uma lobismoça. A escolha por uma protagonista infante não é aleatória: Karen e, em alguma extensão, Ferris, representam a si mesmas como monstros. Fanática por filmes de terror e ficção científica B, a protagonista povoa sua narrativa pelo prisma do seu imaginário – uma das funções diegéticas da idade de Karen, afinal, qual criança, em momentos de grande tensão e pressão, não confunde a realidade com suas referências ficcionais?

Não obstante, há também o simbolismo mais óbvio dessa escolha: Karen se representa como um monstro porque se vê assim. Chicago dos anos 60 não é o cenário mais convidativo de todos, e pode ser um lugar bastante hostil e austero – principalmente quando se trata de uma criança que começa a se descobrir bissexual e é filha de uma mãe solteira. Não é preciso ir muito longe na trama para perceber a cortina de fumaça que citamos acima: Toda a narrativa de Minha Coisa é muito menos o noir que aparenta, e muito mais uma reflexão identitária sobre o lugar de uma pessoa no mundo.

Fumaça, espelhos, camadas e coração

É claro que, colocando dessa forma, parece algo demasiadamente frio, e talvez um pouco banal. Engana-se. Ferris dá vida à sua HQ elaborando o que parece simples de formas muito criativas – o que não deixa de ser uma metáfora para sua reflexão aqui e sua própria condição. Um dos grandes destaques narrativos do volume é a profundidade dada aos personagens: Seja a própria Karen, sua mãe, seu irmão ou sua vizinha Anka, todos os personagens de Minha Coisa são muito mais do que aparentam. O tamanho do volume, mais de 400 páginas, deveria ser um sinal disso – ninguém é apresentado nessa trama sem o devido desenvolvimento. E esse desenvolvimento perpassa, com alguma maestria, tragédias, romances, comédias, etc.

Outro destaque da HQ – e provável motivo pelo qual ela chama a atenção à primeira vista, Minha Coisa é realmente feita como se fosse um diário. Ela foi toda desenhada com canetas comuns, e suas páginas emulam também as páginas demarcadas de um caderno escolar. São escolhas estéticas que valorizam e facilitam o processo de imersão do leitor na proposta da trama, mas, justiça seja feita, precisam ser apreciados por conta própria também. Ferris nos provoca deslumbre não apenas na sua composição de cena e estilo bastante distinto, mas alguns detalhes, como a reprodução brilhantemente feita de obras clássicas usando apenas com canetas comuns é um testemunho do talento da artista, sem deixar de estar inserido na proposta da narrativa.

De fato, existem muitos elementos visuais de escolha da artista, que são de difícil – ou inútil – descrição verbal que permitem ao leitor acessar as camadas propostas pela a autora. E Minha Coisa pode ser definida exatamente dessa forma: Uma obra de camadas. Estéticas, narrativas, visuais. Mas também humanas e afetivas – ao projetar camadas na HQ, o que a autora busca também é fazer o leitor acessar as suas próprias camadas para, assim como faz com os personagens da trama, encontrar em meio a elas seu próprio monstro.

Pois monstros, desde a aurora do tempo, são aquilo que nós vemos, como e com quem nos relacionamos. Nossas falhas podem ser valores; nossos valores podem ser nossa derrocada.  E no meio disso, você vai encontrar suas coisas favoritas: Aquelas que te representam.

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