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Homem-Animal: Nascido para ser Selvagem – À sombra do antecessor!

Nunca entendi porque o Homem-Animal de Grant Morrison quase nunca é colocado no mesmo hall de obras primas das HQ’s, junto com Sandman de Gaiman ou Watchmen de Moore. Não importa que ela seja uma reação tardia a revolução britânica dos quadrinhos americanos capitaneados por esses dois. Morrison deixou sua marca e extrapolou até mesmo os limites de Moore e Gaiman, aproveitando-se da sua própria capacidade e tendência à autocrítica e autorreferência para transcender o limite do quadrinho, em um dos primeiros grandes e bem-sucedidos exercícios de metalinguística da nona arte. E estamos falando do mesmo processo referencial de ambos – pegar um herói de quinto escalão e transformá-lo em uma obra de arte.

Isso porque é o Homem-Animal! O amigo leitor que não está familiarizado deve entender que esse personagem sequer conseguiu atingir um patamar como o do Gladiador Dourado e do Besouro Azul, que, de tão ruins, assumiram sua fanfarronice e acabaram virando um sucesso. Não senhor. O Homem-Animal era uma piada até mesmo entre os heróis que eram uma piada. E virou uma obra-prima.

Homem-Animal: Nascido para ser Selvagem

Não à toa, Morrison segue injustiçado como apenas o “número 3” da invasão britânica, o que é absolutamente injusto. O que ele fez com este personagem não é o simples trabalho de um artista inspirado, mas de um gênio. Seu trabalho é monumental, e seu Homem-Animal é um estudo de caso para qualquer um que queira entender alguma coisa sobre quadrinhos. E é exatamente por isso que é tão difícil para alguém sucedê-lo.  Peter Milligan, que assina o volume Nascido para ser Selvagem (Born To Be Wild), encadernado lançado pela Panini (abrangendo as edições 27 a 32 de Animal Man), tem a inglória tarefa de dar continuidade a HQ que é uma aula sobre HQ’s.

Milligan é parte do finzinho da invasão britânica. Ele pega a rabeira do que os grandes gênios haviam feito e representa uma espécie de transição entre a sua e a próxima geração de bons escritores inspirados por Gaiman, Moore e Morrison, como Bill Willingham ou Mike Carey. Claro que Milligan poderia se destacar por conta própria, mas fato é que ele nunca conseguiu transcender a condição de um bom escritor que sempre esteve à sombra de gênios.

Não que o volume não seja bom – basta atentar a classificação dada por este patético resenhista. Mas entenda que se trata de uma versão profundamente decantada do Homem-Animal de Morrison. Toda a metalinguagem e o caráter lisérgico criados por Milligan na HQ são totalmente derivados do trabalho deixado para trás por Morrison. De forma mais direta e menos eufemística, uma mera imitação. A ideia que conduz o arco é até interessante – Buddy Baker acorda em coma no hospital. Então, ele percebe diversos elementos a sua volta que parecem normais, mas não estão. Detalhes pontuais como hábitos da sua esposa, contexto político nas notícias, e por aí vai.

Homem-Animal: Nascido para ser Selvagem

A partir daí, Baker vai tentar destrinchar o porquê da situação, e um mistério que Milligan sustenta de maneira astuta até o fim do volume. No meio do caminho, nós encontraremos a característica metalinguagem deixada para trás por Morrison, principalmente na interessantíssima figura do Homem de Lugar Nenhum, mas também dos anjinhos e do Homem Nocional, além de um jogo narrativo que o autor faz com linhas temporais, algo que sempre tem muito potencial para dar errado, é que é um dos motivos pelos quais Milligan mete os pés pelas mãos no arco – ou, dizendo de outra maneira, é um dos motivos pelos quais Milligan não é Morrison.

Eu sei que o amigo leitor pode achar que eu estou pegando no pé do pobre autor, mas não há outra forma de se colocar isso. Milligan simplesmente não compreendeu todo o potencial da releitura de Morrison para o personagem, e ele sofre com essa comparação, muito mais do que o Miracleman e o Monstro do Pântano de Moore, que viveram situações análogas no mesmo período. Não obstante, caso o leitor não queira acreditar no patético resenhista, pode procurar a republicação recente da fase de Morrison pela Panini e fazer a comparação. Dificilmente vocês discordarão. (Nota do colunista – Existe uma edição anterior da editora Brainstore da mesma fase de Morrison. Fuja. Correndo.)

A arte de Chaz Truog e finalização de Mark Farmer, assim como a participação de Steve Dillon – incidentalmente, existe nome mais anos 80 do que “Chaz”? – felizmente conseguem se sustentar. Novamente, não é que Milligan seja um escritor ruim, muito pelo contrário. Ele oferece material suficiente para os artistas produzem imagens muito interessantes, como a própria figura do Homem de Lugar Nenhum, que estrela a capa do volume da Panini, que por si só já chama a atenção. Embora a carga de insanidade seja bem menor do que com Morrison, ainda assim não é um roteiro e uma estrutura de diagramação simples, mas a equipe tira de letra, apresentando alguns quadros muito interessantes, como a sequência da luta contra o vilão Primeira Página em ‘O Lanchinho Nu’. Embora não esteja à altura do autor anterior, Milligan e a equipe de artistas ainda entregam algo digno de atenção.

Homem-Animal: Nascido para ser Selvagem

A nota crítica fica por conta do próprio volume da Panini – uma tecla em que batemos e sempre bateremos: porque esse volume, assim como os de Morrison, não pode sair com capa dura como outras edições que a empresa vem lançando? E não me venha com a chorumela “seguimos o padrão americano” – uma obra como essa merece um padrão de altíssima qualidade. O preço de capa já não é barato – R$ 24,90 – pesado para o bolso do amigo leitor nesses tempos, mas essa fase desse personagem é algo que valeria a pena se gastar esse dinheiro. Seria bom se a editora aqui no país revesse a maneira como toma essas decisões.

Assim, Nascido para ser Selvagem vale a pena sim ter na sua estante. É um arco de qualidade muito superior a muita coisa que nós vemos sendo publicadas no universo dos super-heróis e da ficção no geral. Uma arte precisa e chamativa, com as características clássicas desse grande período das HQ’s, além de um roteiro que, ao menos, tenta ser desafiador, que tenta fugir ao ordinário. O relativo fracasso parcial nesse sentido pode até ser relevado se pensarmos que nem todos podem ser Gaiman, Moore e Morrison, mas se ao menos muitos fossem Milligan, o nível das HQ’s hoje seria um pouco maior.

Dessa forma, também podemos pensar que, sendo animais que somos, todos nós temos um pouco de Homem-Animal, nas HQ’s ou nesse mundo. Vai dizer que não acha a ideia divertida?

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