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Encruzilhada – A cidade como organismo!

Toda cidade tem seus pontos mais característicos. Dos mais abastados até os mais pobres. Dos mais seguros até os mais violentos. Dos mais modernos até os mais antigos. Porém, somente algumas cidades possuem pontos onde essas características se fundem em um amálgama confuso, cujo verdadeiro significado e essência, bons e ruins, verdadeiros e falsos, é definido somente pelo olhar subjetivo de cada um que a observa. São Paulo é uma metrópole que faz parte deste grupo. Em Encruzilhada, a capital paulista é o palco pitoresco de personagens desconhecidos, mas reconhecíveis.

encruzilhada

De Marcelo D’Salete, autor de Cumbe, Encruzilhada traz histórias que ocorrem na região central de São Paulo. Dentre sua galeria de personagens reconhecíveis temos uma prostituta, um usuário de drogas, vendedores de DVD’s piratas, ladrão de carros e duas crianças abandonadas. Vemos pessoas que se encaixam em alguma, ou algumas, dessas denominações pelas ruas do centro da cidade. São figuras carimbadas e já se misturaram à paisagem urbana.

A HQ funciona como uma lupa que aproxima o leitor para o que existe dentro da pessoa, não do título que é designado à ela. Não está falando da prostituta da esquina da rua X com a Y, nem do “carinha do dvd” e nem das crianças de rua. Está falando sobre a Dora. Está falando sobre o Beto. É sobre a pessoa que está por trás do rótulo dado pelo olhar externo, por mais superficial que seja. Todavia, não deixa de ser uma designação feita para somente uma pequena porcentagem do que forma aquele ser humano.

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A narrativa não segue os padrões convencionais de jornada de personagem, pontos de virada ou dramas e dilemas muito desenvolvidos. A profundidade é dada na forma da obra e não apenas em seu texto. Os cenários, por vezes muito reconhecíveis e por outras completamente deslocalizados, são totalmente distintos entre si, mas coexistem no mesmo metro quadrado. Vemos lugares suntuosos ao lado de locais abandonados e os personagens de Encruzilhada vagam entre esses dois mundos, sem pertencer realmente a nenhum deles.

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A arte se adéqua perfeitamente à proposta. A fisionomia dos personagens é feita de maneira desigual e sem muitos detalhes, em contrapartida com logotipos e objetos mais realistas e reconhecíveis, como uma famosa rede de supermercados ou um modelo de celular. E não é exatamente assim que funciona nosso olhar? Reconhecemos algumas coisas de maneira muito imediata, seja por sua reprodução fiel ou por uma gestalt que funciona graças a anos e anos de exposição a imagem origem. O traços esfumaçados e sujos podem incomodar aqueles que estão mais acostumados a um estilo mais realista com contornos bem definidos. Contudo, Encruzilhada não se trata de uma ficção que tenta retratar o caos do mundo real dando-lhe uma ordem. A obra é uma ficção que mostra o caos naquilo que, inconscientemente, damos uma ordem.

Por mais que seu conceito e sua forma estejam coexistindo em uma harmonia agradável, ainda assim o roteiro poderia se alongar mais um pouco e nos fazer empatizar ainda mais com essas histórias. Quando estamos começando a ficar completamente imersos, o segmento acaba, deixando uma pontada de frustração no leitor.

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Encruzilhada é um belíssimo trabalho em que a verborragia é mínima e a forma toma o primeiro plano, criando uma narrativa sobre a cidade como um organismo e personagens como suas células. Tudo funcionando em um equilíbrio tênue que quando se desfaz, esse corpo adoece e depois se cura. Só que mesmo depois de convalescer, ainda carrega algumas cicatrizes. Tudo bem, já estamos acostumados.

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