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Marguerite & Julien: Um Amor Proibido – E um desastre narrativo!

 Marguerite & Julien não honra suas intenções

Quando André Capelão escreveu seu Tratado sobre o Amor Cortês já percebia na cultura popular a manifestação narrativa sobre os amores entre cavaleiros e donzelas. No folclore popular, já se apontava o sentimento amoroso como base da autonomia e realização dos indivíduos. Se o mundo medieval se configurava como caótico, o amor era via de escape das repressões da época. Ao mesmo tempo não imaginaria que sua doutrina sobre o amor geraria narrativas trágicas e epopeicas a vislumbrar um sentimento deveras impossível no mundo moderno que estava a surgir. De Tristão e Isolda, contemporâneo de Capelão, até P.S. Eu te Amo, o ideal de amor desenvolvido no século XII é o alicerce das narrativas que atraem leitores e espectadores.

 

Marguerite & Julien: Um Amor Proibido

Marguerite & Julien: Um Amor Proibido

Marguerite & Julien: Um Amor Proibido (Marguerite et Julien), exemplar do cinema francês, vem para manchar esta tradição das histórias amorosas. A argumento é bem simples: dois irmãos crescem apaixonados, se separam por um tempo e no reencontro ainda se descobrem amando um ao outro. O filme remonta uma história real do século XVI, onde o incesto era crime cuja sentença era a pena capital. Aqui se encontra todos os elementos para uma história dar certo, no entanto, a diretora Valérie Donzelli parece fazer com que tudo dê errado e nada funcione.

(Se interessa pelo Cinema francês? Leia também as críticas de Romance à Francesa e Lolo: O Filho da Minha Namorada)

Das pieguices do diálogo até a péssima direção de arte, o que vemos na tela é uma sucessão de desastres que atentam contra o mais básico anseio  do espectador: ver um filme e sentir uma imersão a ponto de vivenciar os sentimentos dos personagens ou ter total empatia para com eles. Porém, uma panaceia horrorosa constituída por tentativas de dinamismo narrativo mais dificulta a apreciação da obra do que aproxima o espectador.

Marguerite & Julien: Um Amor Proibido

Os atores estão péssimos e mal dirigidos. Nota-se que tanto Anais Demoustier quanto Jeremie Elkaim possuem talento, mas este não consegue salvar um roteiro que insiste não estabelecer em momento algum o que um casal amoroso dentro de uma narrativa deve ter: Química. Por um tempo da narrativa, é possível que o espectador torça para que os dois não fiquem juntos, e isto não é pelo incesto, um grande tabu social, mas porque o casal se demonstra patético mesmo, de uma pieguice capaz de corar qualquer autor que estabelece um romance entre um vampiro e uma adolescente moderna. A cena de sexo entre os dois é de uma frieza surpreendente, na fotografia, no enquadramento, na atuação, em tudo. Um exemplo claro de direção covarde, que quer denunciar o tabu do incesto, mas trata o sexo de forma careta e vazia.

Tecnicamente equivocado

A montagem de Marguerite & Julien quer se impor como dinâmica, mas não funciona. O fechamento da tela com um círculo sobre o personagem, o início das cenas com os atores paralisados e a câmera se movimentando para depois iniciarem o movimento, um corte abrupto no face de um personagem para estabelecer sua fúria ou angústia soam como uma arrogância estilística da diretora, mais preocupada em demonstrar como ela é magnânima em matéria de direção do que apresentar uma história apaixonante.

Marguerite & Julien: Um Amor Proibido

Mas o grande desastre é a tentativa de contar uma história do século XVI com elementos que perpassam o XVIII, o XIX e o XX. Aqui se dá a grande quebra da imersão no filme. Uma câmera fotográfica que aparece num universo que não apontava ainda para o avanço tecnológico até a aparição de um helicóptero sendo pilotado por guardas cujo figurino remonta ao XIX dão sustentação à piada que o filme é. Seria muito mais conveniente modernizar por completo a história, já que a diretora demonstra a intenção de mostrar ao espectador como o amor é algo que perpassa pelos tempos. Mas Donzelli demonstra ser incapaz disso, e por ser também incapaz de montar uma atmosfera do XVI, prefere optar por malabarismos boçais que destroem a diegese do filme.

É uma pena. Marguerite & Julien: Um Amor Proibido nos remete a um fato que, nas mãos de uma verdadeira diretora, se constituiria como uma obra a pertencer ao cânone das histórias românticas clássicas. Mas nas mãos de quem se acha pretensiosa, que utiliza a câmera mais para demonstrar sua vaidade artística do que para oferecer-nos uma boa obra, é claro que o filme é muito mais desastroso do que qualquer amor proibido.

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