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O Homem Que Queria Ser Rei – Mais que uma história!

O Homem Que Queria ser Rei é um caso raro de adaptação quase perfeita – mas pouco lembrada

Poucas coisas são tão divertidas quanto mergulhar em um livro que une bons personagens com um cenário cercado de mistério. A primeira leitura do conto O Homem Que Queria Ser Rei, do vencedor do Nobel de Literatura Rudyard Kipling, bastante mencionado no FormigaCast sobre literatura pulp costuma ser integrante desta lista. A história dos ex-soldados britânicos e amigos Peachy Carnahan e Daniel Dravot, que aproveitam o período de colonização inglesa na Índia para encontrarem um país onde possam ficar ricos e governarem de forma soberana é engraçada e instigante, educativa ao seu modo e um estímulo extra para imaginar as paisagens áridas e exóticas do Kafiristão. Não é à toa que John Huston valeu-se destas imagens para abrir o longa inspirado no conto que consegue a proeza de permitir uma viagem tão boa quanto a proporcionada pela leitura.

o homem que queria ser rei

O Homem Que Queria Ser Rei, o filme, era um sonho antigo de Huston, que desejava a dupla Humphrey Bogart e Clark Gable como protagonistas, num projeto iniciado na década de 50. A morte de Bogart colocou o roteiro em sono profundo até 1975, quando Michael Caine e Sean Connery assumiram a bronca de conduzirem o épico bem-humorado e nada ingênuo que Huston propôs. Consideradas as devidas mudanças necessárias em uma adaptação literária para as telas, O Homem Que Queria Ser Rei fez da prosa dinâmica de Kipling a inspiração para o seu ritmo.

A câmera passeando pelo comércio indiano, com seus homens que enfeitiçam serpentes e vendem de tudo um pouco, nos coloca no clima para encontrar o autor, interpretado por Christopher Plummer, em mais um dia de trabalho no jornal The Northern Star. A labuta é interrompida pela chegada de um homem maltrapilho que logo se mostra íntimo de Kipling. Peachy Carnahan sobreviveu a aventura empreendida ao lado de seu amigo Daniel, e está disposto a contar tudo para seu velho conhecido.

O cineasta que não queria ser rei

Se a cereja do bolo da história é a conquista do posto de rei por Daniel e a armação para se manter poderoso, o caminho até o Kafiristão é um belo recheio, que permite que Huston abuse do que sabe fazer de melhor: cenas grandiosas, uma câmera que passeia sem pressa e o ponto exato de parar e dar ênfase para o intimismo. As conversas entre Peachy e Daniel são retratos de dois homens que carregam consigo, na mesma dosagem, a loucura e a amizade. Uma camaradagem em falta na Sétima Arte atual. Completam a impecabilidade visual do longa os figurinos da talentosa e premiada Edith Head e a direção de arte de Alexander Trauner.

o homem que queria ser rei

A identificação com a dupla protagonista, mesmo vivendo uma situação bem distante da nossa, acontece nas primeiras linhas e Huston traz essa paixão para seus minutos filmados. É delicioso assistir um Sean Connery bonachão e golpista, com uma tirada melhor que a outra e fazendo uma parceria brilhante com Michael Caine, que mistura doçura e uma pitada de zombaria em seus planos mirabolantes para conquistar o povo do Kafiristão. Uma pena que tenha sido o único trabalho dos dois juntos, e a química não tenha sido aproveitada em outras produções.

Os fanáticos por realismo dirão que não passa de uma fantasia boba. Ok, não se pode negar que é o olhar do colonizador sobre o colonizado, mas a crítica de Kipling existe e é na sua sutileza que mora a maestria. Sem discurso pronto, sem frases de efeito. Apenas dois homens tentando levar vantagem em meio a um povo que eles julgam não ser muito sábio. Os anos 1880 parecem distantes, mas muitos ainda acreditam nesta mesma fórmula. Huston só a levou para as telas com o seu inconformismo de sempre, que o coloca ao lado de outros nomes talentosos e pouco lembrados como Robert Aldrich e Richard Brooks. Senhor Huston não queria a coroa. Apesar de merecê-la.

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