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Lobo Samurai – A poesia do ronin!

Lobo Samurai foi sucesso de público no Japão e deu aos fãs do chambara um novo ídolo

Filmes repletos de influências não são novidade. As trocas existem desde os primórdios da Sétima Arte. Porém, ser surpreendido é sempre uma delícia, até mesmo para quem já tem na memória uma série de misturas cinematográficas insólitas. Lobo Samurai, presente no quarto volume da coleção Cinema Samurai, lançada pela Versátil Home Vídeo, é um presente para os corações apaixonados pelo tilintar das espadas e por tudo que combina (ou não) com o universo dos ronins.

Lobo Samurai

Desde o primeiro segundo, o filme de 1966, dirigido pelo mestre Hideo Gosha (que passeou por vários gêneros sem abandonar sua assinatura e ainda deu ao mundo o primeiro (e mais lindo!) dos kaijus, o Godzilla de 1954), deixa claro que sua preocupação maior é a aventura e a diversão do público. Só não confunda essa premissa com roteiro fraco e personagens superficiais. O ator Isao Natsuyagi faz sua estreia nas telonas (apesar de ter tido uma participação não-creditada em 13 Assassinos, de Eiichi Kudô, filme que ganhou um remake em 2010, com direção de Takashi Miike) parecendo muito à vontade na pele de Kiba Okaminosuke, o Lobo referido no título. O personagem é um misto do Kikuchiyo, de Os Sete Samurais,com o protagonista de Yojimbo, ambos interpretados pelo grande Toshiro Mifune e dirigidos pelo mestre Akira Kurosawa.

Por mais que seja apresentado como um fanfarrão que come arroz como se não houvesse amanhã e que tem mais habilidade com a espada que com o trato interpessoal, Kiba tem os seus mistérios. O humor presente em seus diálogos e gestos atrapalhados é um escape para um passado nada fácil que insiste em voltar em vários momentos, em especial quando ele está perto de Chise, uma jovem cega e dona de uma casa de gueixas. É por causa dela que ele faz uma parada num vilarejo, onde a moça se vê nas na enrascada de levar o montante de 30 mil ryus até uma estação próxima. Tudo isso sob om olhar de um grupo de samurais nada amigáveis.

Lobo Samurai deixa claro sua inspiração no spaghetti western, principalmente nas cenas de ação ágeis e compostas por ângulos incomuns. Kiba é um anti-herói nato, mas, contrariando alguns críticos que afirmam que o ritmo do filme bebe na fonte dos trabalhos de Sergio Leone, é perceptível que foi da garrafa de outro Sergio que Gosha deu seus maiores goles de inspiração: o Corbucci, responsável por instituir a violência sem dó num subgênero que já não estava para brincadeira. O fato de Lobo Samurai ter sido lançado no mesmo ano de Django também reforça essa tese. Mais que dialogar com o faroeste europeu, Gosha criou um universo próprio e com um humor singular dentro de um tema clássico do cinema nipônico.

Lobo Samurai

Sequência sombria

O resultado agradou tanto que, um ano depois, lá estava Kiba e seu destino errante novamente nas telas. Lobo Samurai 2 – Atalho Para o Inferno. O natural seria reprisar o que havia dado certo no primeiro filme, mas estamos falando de Hideo Gosha, um cineasta que, não importando o orçamento ou as exigências do mercado, nunca gostou de se repetir. Não é apenas uma sequência, mas uma nova etapa da jornada de Kiba.

Bem mais profundo e sombrio que a produção de 1966, Lobo Samurai 2 apresenta para o espectador momentos do passado do protagonistas, em flashbacks rápidos para não atrapalhar o acompanhamento do novo desafio. Kiba resolve ajudar a executar os planos de vingança de um prisioneiro. O encontro dos dois deixa claro que a motivação real do ronin para tomar as dores do novo amigo é a semelhança física dele com seu falecido pai, também um samurai que sofreu perseguição por ter cometido um crime.

A face protetora de Kiba, que já havia sido percebida no primeiro longa, aqui parece incontrolável, principalmente com a chegada de uma nova personagem feminina. Oteru, interpretada por Rumiko Fuji, é mais uma a tocar o coração do ronin e ter que lidar com sua dificuldade de envolver-se. Compreensível, já que não é apenas o corpo de Kiba que está sentindo o peso dos embates, mas também sua alma.

Temos um herói que fraqueja, duvida e quase se entrega. Se a cena final de Lobo Samurai dava a ideia de que ainda havia muita estrada pela frente, Lobo Samurai 2 – Atalho Para o Inferno coloca em xeque as habilidades do dono da história, em duelos ainda mais belos e sanguinolentos que os do capítulo inicial. E por falar em sangue, ele jorra aos litros em ambos os filmes. Só que, ao contrário de alguns diretores contemporâneos, os jatos vermelhos não estão à serviço do entretenimento. Eles são como molduras para olhares de desespero e ódio que só alguém com a sensibilidade de Gosha conseguiria filmar. Seus “Lobos” são violentos e amorosos. Humanos, acima de tudo.

Kiba encerra seu ciclo sozinho, machucado por fora e por dentro. Cercado de corpos, numa vastidão pedregosa e sob um sol escaldante. O bom cinema de ação tem suas doses de poesia. Só não vê quem não quer.

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